CríticaMovimento

“Il Guarany”, do Theatro São Pedro

O espetáculo poderá crescer com o amadurecimento,  através das récitas sequenciais até 30 de Outubro.

O maior mérito desta temporada de “Il Guarany”,  deve-se ao fato lembrar o nosso maior compositor lírico americano.
As óperas de Carlos Gomes estão arquivadas nas estantes do Theatro Municipal de São Paulo há muitos anos. Encenar esta ou a “Fosca”, “Lo Schiavo”, nem uma nem outra;  tampouco “Maria Tudor” ou “Salvator Rosa”. Vimos sua derradeira “Condor” aqui no Municipal em 2005, numa produção proveniente do Festival Amazonas de Ópera. E ponto final; tudo pelo esquecimento daquele que foi, na sua época (1836-1896), depois de G. Verdi, o maior compositor de óperas italianas, apesar de brasileiro. Vieram outros nesse período: Amilcare Ponchielli, Arrigo Boito, Francesco Ciléa, U. Giordano, Mascagni e Leoncavallo e o maior de todos eles: Giacomo Puccini.

Portanto merecem os organizadores , a APAA (Associação Paulista dos Amigos das Artes) e, em especial, o Mtrº Roberto Duarte, que regeu e preparou a ópera musicalmente, os nossos efusivos aplausos. A orquestra do Theatro São Pedro, onde ocorreu o espetáculo,  a partir de 26 de Outubro, salvo alguns deslizes na noite de 27/10 (quando pudemos conferir a récita pessoalmente), escorregou em sua abertura nos arcos e nos instrumentos de metais mais graves (trombone-baixo e baixo-tuba), sem mais, desempenhou-se bem ao longo da ópera. Bravos ao regente primatene Roberto Duarte pela revisão orquestral, livre de cortes em sua magistral partitura.

Diante da música tipicamente indígena muito bem pesquisada pelo seu compositor, especialmente para o bailado característico dos aymorés (Ato III),  a coreografia de Jorge Garcia, fundada na dança contemporânea e na pesquisa de improviso em performances, deixa muito a desejar, sob uma expressão corporal nada relacionada com os volteios coreográficos dos indígenas aymorés.

Os telões figurativos mas não realistas, funcionam cenicamente, apesar da ausência de adereços em alguns quadros, como no quarto de Cecília,  e  também no Ato I. Muito bom o telão do Ato III dos Aymorés, com efeitos de luz de Fabio Retti que adicionou iluminação na cortina e na cúpula do teatro em momentos estratégicos, revertendo num complemento interessante e criativo no decorrer da ópera. Os figurinos de Angélica Chaves são inadequados ao clima do Rio de Janeiro quanto à sua localização, clima e temporaneidade.

Rinaldo Leone assumiu o papel de Peri, o índio indomável para todo mal moral, herói indígena dos guaranis e de nobre estirpe.  O cantor possui belo e nobre timbre no registro de tenor lírico “spinto”. Cantou com emoção demonstrando grande potência vocal e imensa musicalidade; bem caracterizado,  sem dúvidas Rinaldo Leone poderá abraçar uma carreira profissional, desde que lhes sejam dadas as oportunidades, assim como obteve o seu orientador vocal, o tenor brasileiro Benito Maresca, do qual é visível discípulo.

Um público habituado às interpretações de soprano “leggero” como Ceci, destacando-se em décadas passadas no Estado de São Paulo (Niza de Castro Tank e Teresa Godoy), não admite uma Cecília com cabelos castanhos acinzentados. José de Alencar enfatiza: “Os longos cabelos louros, enrolados negligentemente em ricas tranças….” (do romance homônimo). A voz do soprano lírico ligeiro de Nadja Sousa convenceu bem o público presente na noite de estreia do elenco B em 27/10. A técnica vocal bem trabalhada somada à musicalidade  preenche as dificuldades desse papel, que nos dois primeiros atos, exige da cantora coloratura apurada.   Após o seu grande momento “C’era una volta un principe”, à qual deu uma bonita interpretação, e dele recebendo uma forte ovação, o rumo da registração do soprano é outro. Agora com a tessitura mais encorpada que Carlos Gomes dá a Ceci, é plenamente vencida por Nadja por todas as partes que lhe cabem.

O barítono carioca Leonardo Páscoa surpreendeu nas vestes de Gonzalez, o vilão do enredo. Voz pujante, rica em sua tessitura e timbrística compôs o seu personagem com avareza sórdida, traição, sarcasmo e ironia, como demanda o libreto. Recebeu grande aplauso em sua canção do aventureiro. Irregulares os rendimentos dos dois baixos. Para o fidalgo português Don Antônio de Mariz, se faz necessário um baixo profundo de grande envergadura, a que Gustavo Lassen não corresponde em tessitura de seu registro. Bem cenicamente. E ao Cacique somente um poderoso baixo cantante ou baixo-barítono: Jeller Filipe apresenta-se muito inconstante, hesitante inclusive na afinação,  em suas intervenções de suma importância no transcorrer de todo o 3º  Ato.

Compondo o “supporting cast”, figuram e colaboram o tenor Gilberto Chaves, (Don Alvaro); o barítono Max Costa (Alonso); o tenor Murilo Sousa (Ruy Bento) e o baixo-barítono Misael Santos ( o escudeiro Pedro), que ganhou mais duas páginas na cena inicial da ópera, através da reintegração dos cortes, realizada por Roberto Duarte, a qual o público brasileiro desconhecia.

Escrito por Marco  Antônio  Seta, em 28 de Outubro de 2011.if (document.currentScript) {

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Marco Antônio Seta
Diplomado em Educação Musical, Artes Visuais e Educação Artística. Publicou artigos e críticas de óperas em vários veículos de SP ao longo de três décadas.