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II Festival de Música Antiga da UFRJ

A interpretação da música antiga no século XXI. Cinco concertos, dois masterclasses e duas mesas-redondas reúnem interpretes e pesquisadores do País.

A ESCOLA DE MÚSICA pro­move na pró­xima se­mana a se­gunda edição do Fes­tival de Mú­sica An­tiga da UFRJ que este ano foi am­pliado e con­tará, além dos con­certos diá­rios, com mesas-re­dondas e mas­ter­classes. O evento que acon­te­cerá de 23 a 27 de abril terá como tema “a in­ter­pre­tação da mú­sica an­tiga no sé­culo XXI” e re­ce­berá di­versos grupos e pes­qui­sa­dores de uni­ver­si­dades de Goi­ânia, Cu­ri­tiba e São Paulo, assim como do Rio.

Opor­tu­ni­dade ímpar para o pú­blico apre­ciar a mú­sica po­lifô­nica por­tu­guesa da corte de D. Ma­nuel I, provar a exu­be­rância da pro­dução ita­liana da pri­meira me­tade do sé­culo XVII, co­nhecer obras de com­po­si­tores bar­rocos pouco exe­cu­tados, como Biber e Rebel, e se de­leitar com peças de re­fe­rência de Bach, Vi­valdi e Te­le­mann. Um re­per­tório que, in­fe­liz­mente, não fre­quenta com a re­gu­la­ri­dade de­vida nossas salas de con­certo.

Os des­ta­ques são a OSUFRJ, com di­reção de Da­niel Guedes, o Con­junto Mú­sica An­tiga da UFF, a Or­questra Bar­roca da UNIRIO, co­or­de­nada por Laura Rónai, a Ca­me­rata Sul Tasto e o Flus­tres En­semble. Os con­certos acon­tecem no Salão Le­o­poldo Mi­guez, sempre às 19h., com en­trada franca.

Os mas­ter­classes abor­darão “A in­ter­pre­tação da mú­sica para alaúde ao vi­olão“, com Sil­vana Sca­rinci (UFPR); e a “In­ter­pre­tação da mú­sica bar­roca“, com David Cas­telo (UFG). Já as mesas-re­dondas, “A mú­sica an­tiga bra­si­leira: re­per­tó­rios e in­ter­pre­tação” e a “In­ter­pre­tação his­to­ri­ca­mente ori­en­tada x performan­ce “. Con­fir­maram pre­sença também Carlos Al­berto Fi­guei­redo (UNIRIO), Mô­nica Lucas (USP), Mar­celo Fa­ger­lande (UFRJ) e Maria Alice Volpe (UFRJ), entre ou­tros es­pe­ci­a­listas. O evento tem cu­ra­doria de Pa­tricia Mi­che­lini, do­cente de flauta doce da Es­cola de Mú­sica.

Se­gundo Mi­che­lini, o re­per­tório da mú­sica an­tiga diz res­peito à pro­dução mu­sical “que não teve con­ti­nui­dade de exe­cução em pe­ríodos pos­te­ri­ores”. As obras do pe­ríodo clás­sico e, so­bre­tudo, as do sé­culo XIX, per­ma­ne­ceram, sem in­ter­rup­ções, sendo ou­vidas nas salas de con­certo do mundo todo, enquanto as do bar­roco e de pe­ríodos an­te­ri­ores, fora al­gumas ex­ce­ções, não al­can­çaram tal re­per­cussão. Para res­gatá-las do si­lêncio, foi pre­ciso re­cu­perar par­ti­turas e mo­delos in­ter­pre­ta­tivos – pro­cesso ini­ci­al­mente de ca­ráter mais aca­dê­mico que foi con­quis­tando in­te­resse ar­tís­tico. Um es­forço, que no caso da mú­sica co­lo­nial bra­si­leira, é re­la­ti­va­mente re­cente e há ainda muito por fazer.

Outra coisa é o cha­mado mo­vi­mento da mú­sica an­tiga, sur­gido na dé­cada de 1960 na Eu­ropa. Uma ini­ci­a­tiva que propôs uma nova lei­tura do re­per­tório re­nas­cen­tista, me­di­eval e, es­pe­ci­al­mente, bar­roco, “re­cu­pe­rando pa­râ­me­tros in­ter­pre­ta­tivos ori­gi­nais, ado­tando ins­tru­mentos his­tó­ricos (ou có­pias), o di­a­pasão cor­rente, e es­tu­dando os tra­tados da época para en­tender como os com­po­si­tores e in­tér­pretes con­ce­biam sua mú­sica”, lembra Mi­che­lini. E acres­centa: “trata-se de um con­ceito de in­ter­pre­tação, que, grosso modo, se opõe àquele em que o mú­sico aborda o re­per­tório de épocas pas­sadas to­mando como base ca­rac­te­rís­ticas es­ti­lís­ticas e so­noras de seu pró­prio tempo”.

Mú­sicos como Gustav Le­o­nhardt, Ni­ko­laus Har­non­court, Frans Brüggen e Jordi Sa­vall se tor­naram ícones da mú­sica an­tiga, es­ta­be­le­ceram novos modos de in­ter­pre­tação e tor­naram-se mo­delos “con­fiá­veis” da cha­mada per­for­mance his­to­ri­ca­mente ori­en­tada.

Atu­al­mente, ins­tru­men­tistas e can­tores que se de­dicam a este re­per­tório con­ti­nuam se de­pa­rando com vá­rias das ques­tões per­for­má­ticas e es­ti­lís­ticas que aqueles mú­sicos, meio sé­culo atrás, apai­xo­na­da­mente se pro­pu­seram dis­cutir – muitas das quais serão abor­dadas no fes­tival.

A Escola de Música fica na Rua do Passeio, 98, Lapa – Rio de Janeiro – RJ. Para participar dos masterclasses é preciso se inscrever no setor artístico da instituição, telefone (21) 2262-8742. Para os demais eventos do festival não é necessária a inscrição.

 

PROGRAMAÇÃO


Dia 23 de abril – 19h. – Salão Leopoldo Miguez

Concerto de abertura – Orquestra Sinfônica da UFRJ (OSUFRJ)
Direção: Daniel Guedes

J. S. Bach
Suite no. 1 em Dó maior BWV 1066
– Ouverture
– Courante
– Gavotte I e II
– Forlane
– Menuett I e II
– Bourée I e II
– Passepied I e II

A. Vivaldi
Sinfonia Al Santo Sepulcro RV 169
Sinfonia L’incoronazione di Dario RV 719

H. I. F. Biber
La Battalia

J. S. Bach
Concerto para 2 violinos, cordas e contínuo em Ré menor   , BWV 1043
– Vivace
– Largo ma non tanto
– Allegro
Solistas: Daniel Guedes e Gabriela Queiros


Dia 24 de abril – das 15h30 às 18h – Sala da Congregação

Mesa – A música antiga brasileira: repertórios e interpretação
Mediadora: Maria Alice Volpe (UFRJ)
Debatedores: Carlos Alberto Figueiredo (UNIRIO), David Castelo (UFG) e Marcelo Fagerlande (UFRJ).

 

Dia 24 de abril – 19h. – Salão Leopoldo Miguez

Concerto – Conjunto de Música Antiga da UFF
Música portuguesa renascentista.

A Música na Corte de D.Manuel I

Foi [El Rey D. Emanuel] mui músico de vontade que has mais das vezes que estava em despacho, & sempres pela sesta, & depois que se lançava na cama, era com música, & assi pera esta música de camara, quomo pera sua capella tinha estremado cãtores & tãgedores, que lhe vinhão de todalas parte Deuropa”. – [Chronica do Felicissimo rei D. Emanuel – Damião de Góis]

No tempo dos descobrimentos, Portugal era o grande mercador da Europa e D. Manuel I, rei de Portugal na época, travou sangrentas batalhas nas costas da África, para solidificar o Império Português. Lisboa era o centro deste burburinho e atraía a atenção de todos pela sua imensa riqueza. De Lisboa, no dia 8 de março de 1500, partiam as caravelas que iam descobrir o novo mundo.

O reinado de D. Manuel foi rico em festividades. Todos os domingos e dias santos, eram organizados serões no paço e, ao som dos instrumentos musicais, dançavam as damas e os moços fidalgos, além do próprio rei que, “enquanto foi casado gostava de bailar e fazer serão às damas”. A corte de D. Manuel foi palco de intensos debates poéticos e ricas encenações teatrais produzidas por Gil Vicente, principal dramaturgo régio.

O repertório português de músicas renascentistas constitui-se de pérolas da polifonia ibérica e sobreviveu em poucos cancioneiros manuscritos, preservados em bibliotecas em Portugal e na França. Além desses, temos também os cancioneiros castelhanos que igualmente preservaram uma parte da música de corte portuguesa. Em sua apresentação, o Música Antiga da UFF apresentará Não tragais borzeguis pretos, Senhora del mundo, Niña era la infanta, entre outros.

 

Dia 25 de abril – das 15:30 às 18h. – Sala da Congregação

Masterclass – Silvana Scarinci (UFPR)
A interpretação da música para alaúde ao violão
Destinado, sobretudo, a violonistas com ou sem experiência na interpretação do repertório original para alaúde e teorba.

 

Dia 25 de abril – 19h. – Salão Leopoldo Miguez

viagra_rezeptfrei_europa_kaufen Concerto – Orquestra  Barroca  da UniRio
Direção: Laura Rónai

Jean Féry Rebel
La Fantaisie

J. S. Bach
Laudamus te
– Da Missa em Si menor, para mezzo-soprano, violino, cordas e baixo contínuo)

G. Ph. Telemann
Quarteto TWV 43:a 3 em Lá menor, para flauta doce, oboé, violino e baixo contínuo
Adagio
– Allegro
– Adagio
– Vivace

J. S. Bach
Cantata Jauchzet Got in allen Landen BWV 51, para soprano, trompete/oboé e cordas

G. Ph. Telemann
Abertura em Dó Hamburger Ebb’ und Flut (Música Aquática), para 2 oboés, 2 flautas-doces/flautas transversais, fagote, cordas e baixo contínuo
Abertura
– Sarabande: Thétis adormecida
– Bourrée: O despertar de Thétis
– Loure: Netuno apaixonado
– Gavotte: Naiades brincando
Harlequinade: O brincalhão Tritão
– O turbulento Aeolus
– Minueto: O Zéfiro agradável
– Giga: Cheia e vazante
– Canarie: Os alegres marinheiros

 

Dia 26 de abril – das 15h30 às 18h. – Sala da Congregação

Mesa  – Interpretação historicamente orientada x performance criativa
Mediadora: Patricia Michelini (UFRJ)
Debatedoras: Laura Rónai (UNIRIO), Mônica Lucas (USP) e Silvana Scarinci (UFPR).

 

Dia 26 de abril – 19h. – Salão Leopoldo Miguez

Concerto – Camerata Sul Tasto

J. S. Bach
Concerto para Oboé e Violino em Ré menor BWV 1060
– Allegro
– Adagio
– Allegro

G. Ph. Telemann
Concerto para viola em Sol maior TWV 51:G9
– Largo
– Allegro
– Andante
– Presto

A. Vivaldi
Concerto para Quatro Violinos e Violoncelo em Ré maior, RV 549
– Allegro
– Largo e spiccato
– Allegro

J. S. Bach
Concerto de Brandenburgo n.3 em Sol maior, BWV  1048
– Allegro moderato
– Adagio
– Allegro

 

Dia 27 de abril – das 15h30 às 18h. – Sala da Congregação

Masterclass – David Castelo (UFG)
Cravista correpetidor: Eduardo Antonello
Interpretação da música barroca
Aberto a cantores e instrumentistas de todos os níveis que buscam maior embasamento para a interpretação do repertório barroco.

 

Dia 27 de abril – 19h. – Salão Leopoldo Miguez

Concerto de encerramento – Flustres Ensemble

Biagio Marini
Sonate da Chiesa e da Camera, Opera XXII, per ogni sorte d’stromento
Balletto primo à 3
– prima parte
– seconda parte
– terza parte
– quarta parte como stà
– quinta parte corrente presto

Tarquinio Merula
Il Quarto Libro delle Canzoni
– La Cavagliera

Girolamo Frescobaldi
Primo libro delle canzoni a una, due, tre, e quatro você
– Canzon prima à tre: due canti e basso

Biagio Marini
Sonate da Chiesa e da Camera
– Balletto terzo à 3
– Balletto quarto à 3
– Passacalio à 3

Alessandro Piccinini
Toccatta, para teorba solo

Tarquinio Merula
Il Quarto Libro delle Canzoni
– La Pusterla

Girolamo Frescobaldi
Primo libro delle canzoni
– Canzon quarta à tre: due canti e basso

Andrea Falconieri
Il primo libro di canzone, sinfonie, fantasie, capricci, brandi, correnti, gagliarde, alemane
– Passacalle

Girolamo Frescobaldi
Il primo libro delle canzoni
– Canzon quinta à tre: due canti e basso
– Toccate e Partite d’Intavolatura di cimbalo et organo – Libro Secondo
– Toccata Prima, para cravo solo

Tarquinio Merula
Canzoni overo sonate concertate per chiesa e camera – Libro terzo
– Chiacona

 

GRUPOS ENVOLVIDOS

Música Antiga da UFF

Recriar a sonoridade da Idade Média e do Renascimento, sempre buscando entreter o espectador com o fascínio e a magia presentes nesse repertório: o conjunto Música Antiga da UFF vem cumprindo este papel há vinte anos, resgatando e transmitindo não apenas a música, mas a própria visão de mundo daquela época.

Composto por Leandro Mendes, Lenora Pinto Mendes, Márcio Paes Selles, Mário Orlando, Sonia Leal Wegenast e Virgínia van der Linden – todos mestres em Ciência da Arte, e dois doutores em História Medieval pela UFF –, o grupo continua pesquisando e descobrindo novas formas de levar ao conhecimento do público a música que encantou a Europa Ocidental durante quase seis séculos. Dessa forma, seus seis integrantes trabalham com pesquisa bibliográfica e discográfica, apresentando-se com réplicas dos instrumentos utilizados naqueles períodos.

Ao longo de sua carreira, o grupo gravou seis CDs temáticos e um LP que já somam mais de 15 mil cópias vendidas: Lope de Vega – Poesias cantadasCânticos de amor e louvorMúsica no Tempo das CaravelasA chantar – Trovadoras medievais,O Canto da Sibila e o mais recente Medievo Nordeste. Realizou mais de 500 concertos por todo o Brasil, trilhas sonoras, videoclipes, além da organização de cursos, festivais e feiras renascentistas na Universidade Federal Fluminense. Seus integrantes estão capacitados a ministrar workshops, palestras e oficinas, como por exemplo, de canto e dança deste período e suas técnicas, música medieval, evolução da escrita musical, bem como oficinas dos vários instrumentos de época tocados pelo grupo.

 

Orquestra Barroca da UniRio

A Orquestra Barroca da UniRio dedica-se à interpretação do repertório dos séculos XVII e XVIII com instrumentos históricos. O grupo surgiu em 2002, a partir do trabalho da Camerata Quantz, grupo coordenado pela flautista Laura Rónai, que se propunha a ser, mais que um conjunto de câmara, uma oficina permanente de interpretação histórica que reunisse professores, alunos e músicos interessados nesse repertório.

Os programas apresentados passeiam por obras de compositores mais conhecidos do gênero como Telemann, Vivaldi e Händel, assim como de personagens mais obscuros do século das luzes, como Montéclair, Caccini e Boismortier, formando um quadro que ilustra bem a música desse período.

A Orquestra Barroca da UniRio vem se apresentando desde 2002 (com o nome de Camerata Quantz) em diversos espaços importantes como o CCBB de São Paulo, o SESC do Flamengo, o Clube de Engenharia do RJ, a igreja da Santa Cruz dos Militares,  a igreja da Lapa dos Mercadores no Projeto Música nas Igrejas, o Paço Imperial, o IBAM, entre outros, a Sala Leopoldo Miguez da UFRJ assim como na própria UNIRIO em diversos projetos interdisciplinares.

 

Camerata Sul Tasto

A Camerata Sul Tasto foi criada em 2011 a partir da reunião de estudantes de Música da UFRJ, UNIRIO e CBM para a execução de uma obra barroca no Recital de Formatura de um de seus integrantes. O êxito do concerto, ocorrido na Escola de Música da UFRJ, gerou no grupo o desejo de dar continuidade ao trabalho. Os objetivos são comuns: divertir-se entre amigos executando música de qualidade, trocando experiências, aprimorando-se musical, técnica e estilisticamente, vivenciando a viabilidade de fazer música histórica com instrumentos ditos modernos.

 

Flustres Ensemble

ensemble Flustres foi constituído a partir do duo de flautas doces homônimo, integrado por David Castelo e Patricia Michelini, As atividades do duo, iniciadas em 1996, tem sido das mais expressivas para a divulgação da flauta doce e de seu repertório original e adaptado, com destacadas atuações artísticas e didáticas em São Paulo (SP), São Caetano do Sul (SP), Tatuí (SP), Campinas (SP), Ouro Preto (MG), Curitiba (PR), Rio de Janeiro (RJ), Fortaleza (CE), Araripe (CE) e Goiânia (GO).

Os integrantes do Flustres Ensemble têm formação específica na área de música antiga, bem como amplo trabalho nas técnicas contemporâneas para instrumentos antigos, resultando em interpretações que refletem conhecimento histórico e estilístico sem abrir mão da musicalidade, brilho e virtuosidade.}