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“I pagliacci” – Drama épico? Clássico?

O “movimento” recebeu um release da produção desta ópera no  Teatro Castro Alves, Salvador, Bahia, para divulgação no site.

Divulgado no “movimento”, todo o Brasil e leitores de outros países ficam sabendo do evento, que ocorrerá agora dia 29 de novembro e seguintes (vide site). Até aí, tudo bem. Só que cabem algumas advertências aos que redigiram o tal release, devidamente transcrito no site. Vejamos.

Em primeiro lugar, I PAGLIACCI não é um “drama épico”. Drama sim, épico não. A história da ópera se restringe a um drama familiar em que a faceira Nedda, mulher do palhaço Canio, que a apanhou na rua “quasi morta di famme”, o trai com Silvio, galante habitante da redondeza.

A ópera é uma maravilha de música e libreto, teatral como ela só, e é por isso uma das mais populares do repertório. A figura do palhaço que deve representar a si mesmo no palquinho da “commedia dell´arte” é fascinantemente teatral, e as palavras e a música a ele destinadas são o máximo da dramaticidade operística. Mas de “épico” a ópera não tem nada. Aliás, o “verismo”, escola de ópera inaugurada em 1890 com a CAVALLERIA RUSTICANA, de Mascagni, em que se inserem I PAGLIACCI  como baluarte, justamente procurava  o verdadeiramente humano, a realidade do cotidiano, e nada de épico. Daí a TOSCA, de Puccini , daí ADRIANA LECOUVREUR, de Cilea, etc. Do libreto de I PAGLIACCI,de autoria do próprio autor da música Leoncavallo, consta exatamente o que o clomid 100mg Verismo pretendia: trazer ao público:  UNO SQUARCIO DI VITA , um pedaço de vida, um fragmento da realidade da vida. E nisso a ópera I PAGLIACCI  é insuperável.

Outra citação do release a merecer reparo é definir I PAGLIACCI como um “clássico” do melodrama italiano. Bela sim, popular sim, querida do público sim , mas “um clássico” não.

Que quer dizer um “CLÁSSICO” na música ? Uma obra de grande peso musical  que seja um marco na história da música  (e não necessariamente na arte musical ), que estabeleça  um conjunto de tipos e modismos, que seja encarada como um ponto de referência obrigatório.  A quinta sinfonia de Beethoven é um “clássico”, a quarta não, a sonata da marcha turca de Mozart é um “clássico”, muitas outras não, a primeira sinfonia de Brahms é um “clássico”, a segunda não, a ópera SALOME, de Richard Strauss, é um “clássico”, a ópera CAPPRICCIO” não, e assim por diante. I PAGLIACCI não definiu uma época, apenas se inseriu nela.

“CLÁSSICOS” da ópera italiana do século XIX são, exemplificativamente, O BARBEIRO DE SEVILHA, de Rossini (1816), a NORMA, de Bellini ( 1831), O ELIXIR DE AMOR, de Donizetti (1832), NABUCCO (1842), RIGOLETTO (1851), LA TRAVIATA  (1853), IL TROVATORE (1853), todas de Verdi, LA GIOCONDA (1876), de Ponchielli, e talvez poucas outras. Escrevo sempre de memória e aceito contribuições e reparos.
 

I PAGLIACCI , inclusive, faz parte de uma escola operística “fin de siècle”, estreada no século XIX (1892), mas desenvolvida em um grupo de óperas que se afirmaria no século XX.

No mais, parabéns ao Teatro Castro Alves por encenar I PAGLIACCI. Com muitos anos de espera, mas mesmo assim parabéns. Mais uma vez o veterano palhaço enganado vai apunhalar a mulher e seu amante no palco, na presença do público. Ah, se Castro Alves tivesse sabido, que soneto sairia desse assunto…

AURIVERDE PENDÃO DA MINHA TERRA…
MARCUS GÓES – NOV 2013     

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