Artigo

Humanização do ensino através da música

Patrícia Luciane de Carvalho, assinante da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e Professora de Direito da Propriedade Intelectual.

Na atualidade, em todas as áreas de atuação, em todos os níveis estudantis e em qualquer localização geográfica, constata-se a discrepância entre o ensino e a realidade ou a prática; entre os objetivos educacionais e a necessidade de convivência e interação humana; entre os objetivos educacionais e as necessidades de mercado.

No âmbito do “dever ser” o sistema educacional de nível fundamental deveria almejar e conquistar a transferência de conhecimento básico, que deveria proporcionar independência de raciocínio, desde a tenra idade, ao aluno. No sentido de que realmente aprendesse e não apenas decorasse, momentaneamente, sem a devida compreensão.

No ensino médio, a pretensão deveria ser a transferência de conhecimentos humanísticos e técnicos suficientes para a iniciação do aluno no ensino superior e na convivência e interação social, em razão mesmo do início da vida profissional.

Por sua vez, no ensino superior, momento em que toda a construção do sistema educacional estaria refletida na habilidade pessoal e na capacidade social do aluno, este deveria ser instruído à aptidão específica para a qual elegeu voltar-se profissionalmente.

Ocorre que esta explanação encontra-se no status do “dever ser”, e mais, percebe-se um distanciamento, cada vez maior, entre o que se aplica em sala de aula com as necessidades profissionais e humanas. Em razão desta defasagem, muitas escolas, faculdades e universidades oferecem cursos de ensino complementar (além das disciplinas curriculares incluem-se outras que permitam o nivelamento e compreensão pelos alunos); bem como, ou alternativamente, reduzem o nível de qualidade do ensino superior em razão da incapacidade dos alunos. Tudo isto, como forma de cobrir as lacunas do ensino precedente (fundamental e médio). Outras instituições, por sua vez, preocupam-se muito mais em alcançar índices perante o Ministério da Educação ou entidades profissionais.

Afora isto, tem-se o fato de que o aluno afastou-se, sobremaneira, da realidade humanística, da tolerância com o outro, da necessidade do convívio social e dos benefícios da complementação de competências entre os pares. A posição do professor, dentro deste contexto, perdeu a atividade de liderança na transmissão de valores, tornando-se apenas peça de um contexto mercadológico.

Nesta triste realidade brasileira exposta, em que pese os seus ninhos de exceção, muito interessante seria a inclusão, ao menos como alternativa curricular, em todos os níveis do ensino, do estudo da música (a depender do nível educacional e da proposta curricular, poderia-se transitar entre a teoria e a prática).

Semelhante prática, em que pese mais voltada à profissionalização, inaugurada foi na Venezuela, em 1975, pelo músico José Antônio Abreu, fundador do O Sistema – Sistema de Orquestras e Corais Juvenis e Infantis da Venezuela, hoje muito bem representado pelo Regente Gustavo Dudamel.

O Sistema, na sua origem, tem como objetivo o afastamento das crianças, de qualquer parte do mundo, do crime e das drogas. Todavia, pode-se aplicar este método em outras circunstâncias, como para a humanização do aluno, com a apresentação do contexto histórico e técnicas à compreensão musical.

A música, como forma de manifestação cultural, corresponde a um Direito Humano, em consonância com o Direito ao Ensino, à Cultura e ao Desenvolvimento Pessoal. Direito de todos a ser fornecido pelo Estado, bem como por este motivado a que a iniciativa privada também o faça. Por derradeiro, caberia muitíssimo bem no sistema educacional, especialmente no ensino fundamental, eis que nesta fase o aluno/criança está em plena formação de caráter e personalidade.

Observe-se que a música, como manifestação cultural, encontra-se reconhecida como Direito Humano pela Declaração de Direitos Humanos tanto da Organização das Nações Unidas, quanto da Organização dos Estados Americanos. Proteção esta, também, devidamente incorporada pelo sistema jurídico da quase totalidade dos países democráticos, a exemplo do Brasil, na Constituição Federal e leis infraconstitucionais.

Alguns poderiam dizer que já são tantas as disciplinas, que são tantas as diferenças, todavia, a música é o melhor método de aproximação entre os seres humanos e é a melhor forma de se desenvolver o ser humano para a humanidade e para o humanismo. Com absoluta certeza, se esta sistemática fosse desenvolvida no ensino fundamental brasileiro, teríamos uma sociedade mais rica intelectualmente, mais capacitada profissionalmente e mais humana. O próprio Ministério da Educação e o mercado agradeceriam.

Patrícia Luciane de Carvalho cheap tamsulosin