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Histórias mal contadas

Em declarações ao Estadão, André Heller-Lopes distorce os fatos sobre o cancelamento da ópera Un Ballo in Maschera.

O jornal O Estado de São Paulo publicou em seu site, na noite da última quinta-feira, 22 de junho, mais uma das recorrentes matérias recentes sobre a penúria enfrentada pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro, seus artistas e funcionários. O leitor pode conferir aqui a matéria do Estadão antes de continuar a acompanhar as ponderações deste pequeno artigo.

Na referida matéria, jornalistas da sucursal carioca do jornal apuram (ou tentam apurar) junto ao Diretor Artístico do TMRJ, André Heller-Lopes, o cancelamento da produção da ópera Un Ballo in Maschera, de Verdi, prevista para estrear na casa no próximo dia 13 de julho. E, a partir daí, temos um verdadeiro show de imprecisões e incorreções por parte do Diretor Artístico, mas não só. Há também uma total falta de senso crítico e até mesmo falta de “faro por parte dos jornalistas que assinam a matéria para apurar os fatos com maior precisão.

Passo a comentar, ponto por ponto, as informações imprecisas e/ou incorretas citadas na matéria mal apurada pelo Estadão.


1- Assembleia de artistas e funcionários do TMRJ

Os jornalistas afirmam que uma assembleia com artistas e funcionários do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, realizada no dia 22 de junho, decidiu manter de pé “apenas a programação para o dia 14 de julho, quando a casa de espetáculos completa 108 anos (…)”.

A informação correta: o TMRJ não tem programação anunciada oficialmente para este ano, devido à crise financeira do estado. Com isso, vem divulgando seus espetáculos mês a mês, de acordo com a real possibilidade de levá-los ao palco. Na referida assembleia, artistas e funcionários da casa decidiram manter apenas a programação de aniversário porque não havia outra produção sobre a qual deliberar. Os profissionais decidiram, portanto, que a única programação própria agendada seria mantida. O próximo tópico esclarece melhor por que somente as comemorações do aniversário do Municipal foram motivo de deliberação da assembleia.


2- O cancelamento da ópera Un Ballo in Maschera

Questionado pela reportagem do Estadão sobre o cancelamento da ópera Un Ballo in Maschera, prevista para estrear na casa em 13 de julho, André Heller-Lopes, não se sabe por que, saiu-se com esta “pérola”: “Esse espetáculo foi programado pela direção anterior (do teatro) e não tinha data definida. Temos tomado muito cuidado ao anunciar a programação, para não divulgar algo que não podemos cumprir”.

Correção 1: a gestão anterior do Municipal programou para o fim de abril uma montagem inédita da supracitada ópera de Verdi. Tão logo assumiu a casa, a direção atual cancelou praticamente toda a programação deixada pelos seus antecessores. Quando reprogramou o Ballo para julho, a produção não seria mais inédita, mas sim uma remontagem da produção da Fundação Clóvis Salgado, levada originalmente no Palácio das Artes, de Belo Horizonte, em 2013. Portanto esse espetáculo não “foi programado pela direção anterior”, como quis fazer crer o diretor artístico do Municipal em sua declaração.

Correção 2: havia sim uma data de estreia agendada para Un Ballo in Maschera, o dia 13 de julho. Esta data não estava anunciada oficialmente porque, como esclarecido acima, o Municipal vem divulgando seus espetáculos mês a mês por conta da falência das contas estaduais. Mas que havia uma data interna agendada e programada, havia sim. Duas publicações em redes sociais confirmam isso, a saber:

a) Quando do falecimento do barítono Leonardo Páscoa, no começo de maio, Heller-Lopes escreveu: “(…) Por agora, nossa luta será poder dedicar um “Ballo” a você”. A referência justifica-se porque o cantor falecido havia sido convidado pelo próprio Heller-Lopes para interpretar a parte de Renato na ópera em questão. Ou seja, havia sim um Ballo no horizonte do Diretor Artístico.

b) Em 12 de junho, Fernando Bicudo, encenador da produção do Ballo que viria de BH para o Rio, publicou em seu perfil na mesma rede social uma divulgação informal da ópera, na qual citava a data de estreia (13 de julho) e o nome de profissionais que participariam da montagem. Em um comentário abaixo dessa mesma postagem, Bicudo anunciava o elenco de solistas.

A verdade sobre o cancelamento: a produção do Ballo vinda de BH para o Rio foi cancelada pelo secretário de Cultura do Estado e presidente interino do Theatro Municipal, André Lazaroni, dois dias antes da assembleia tratada no primeiro tópico deste artigo – assembleia esta que, exatamente por isso, sequer deliberou sobre o Ballo. Por que a montagem foi cancelada, não se sabe, e André Heller-Lopes não aproveitou a abordagem do Estadão para esclarecer o motivo, preferindo fugir pela tangente. Poderia ter sido transparente, mas preferiu não sê-lo. Por que, não se sabe.

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro é uma instituição pública, bancada pelos impostos da população fluminense, e, como tal, exige transparência de seus gestores. O fato de ser presidido atualmente por um político já não é um bom sinal nesse sentido, uma vez que essa “categoria” não prima pela transparência de seus atos. Ao abrir mão da transparência exigida pelo cargo público que exerce, o Diretor Artístico rebaixa-se ao mesmo nível da politicagem mídia brasileira, abre brechas para contestações, e praticamente perde o direito de reclamar destas. Como poderá reclamar se ele mesmo não explica direito? Custava tanto assim esclarecer os fatos? Doía? Machucava? Qual a dificuldade?

A versão que chega de Belo Horizonte: o Movimento.com conversou sobre o empréstimo da produção mineira ao Municipal do Rio com uma pessoa da administração da Fundação Clóvis Salgado. Esse(a) profissional, que preferiu não se identificar, informou que a gestão anterior do Municipal fez o contato original com a instituição mineira, ainda em 2016, solicitando o empréstimo dos figurinos da montagem do Ballo de 2013. Após a mudança de gestão do Municipal, os contatos foram mantidos pelo novo Diretor Artístico da casa, André Heller-Lopes, mas agora objetivando o empréstimo de toda a produção (cenários e figurinos). Ainda segundo esse(a) profissional, foi o próprio Heller-Lopes quem comunicou, via e-mail, o cancelamento da remontagem à Fundação Clóvis Salgado.


3- Matemática “alternativa”: “foram feitas três óperas”

Em uma época em que o desgoverno norte-americano de Donald Trump resolveu adotar os “fatos alternativos”, chama atenção a matemática “alternativa” do Diretor Artístico do Municipal. Declara ele ao Estadão: “Desde que assumi, em março, foram feitas três óperas, com os esforços de todos os funcionários (…)”. Hein?!

Correção 3: desde o início do ano, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro montou uma ópera completa, devidamente encenada (Jenufa, agendada pela gestão anterior do Municipal e, por acaso, dirigida pelo próprio Heller-Lopes), e apresentou outro título em forma de concerto (Norma). Somá-las já é um erro crasso que mereceria admoestações, uma vez que se trataram de espetáculos de caráter diferente: uma foi encenada, a outra não. A terceira ópera apresentada deste o início do ano? Não se sabe. Talvez Heller-Lopes tenha sonhado com ela.


O despreparo da imprensa cultural

Um jornalista que se preza tem boas fontes, e busca nelas informações inéditas e/ou verdadeiras, que muitas vezes contesta aquilo que é dito por fontes oficiais. Este é um dos papéis da imprensa e temos visto isso muito bem na cobertura política por parte de diversos veículos de comunicação. Não é raro encontrarmos bons jornalistas cobrindo também a área econômica e até mesmo os esportes. Muitos com boas fontes.

Quando o assunto é Cultura, porém, a qualidade do jornalismo brasileiro, e carioca em particular, reduz-se consideravelmente. Justamente em uma área em que o nível intelectual deveria ser mais elevado. É muito comum encontrarmos jornalistas interessados tão somente em divulgar eventos, espetáculos, carreiras, etc. Faltam, entretanto, no nosso jornalismo cultural, verdadeiros repórteres que corram atrás do âmago da notícia, e não apenas se limitem a reproduzir o que lhes dizem fontes oficiais.

Na referida matéria do Estadão, os jornalistas reproduziram o que disse uma fonte oficial (o Diretor Artístico do TMRJ), mas não se deram o trabalho de confirmar ou retificar essas informações por outros meios. Faltou-lhes um genuíno “faro” para a notícia. As informações imprecisas ou incorretas fornecidas por André Heller-Lopes não são questionadas, nem ponderadas. Reproduz-se o que ele disse e pronto.

Desde quando isso é jornalismo?


Pitaco final

Tomara que a situação financeira estadual se regularize o quanto antes no Rio de Janeiro, em primeiro lugar para que todos os profissionais que trabalhem para o estado voltem a receber seus salários em dia. E, no que diz respeito particularmente ao Municipal, quem sabe não seja possível reinserir o Ballo verdiano em sua programação mais adiante?

Por ora, e até uma eventual mudança de cenário, como diria Zózimo Barroso do Amaral (um jornalista que tinha ótimas fontes e “faro” para a notícia), não será surpresa para este articulista se, até o fim do ano, o Municipal do Rio montar somente mais uma ópera: Yerma, de Villa-Lobos. Se os jornalistas do Rio sabem por que, é outra história, provavelmente mal contada.

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com