EntrevistaLateral

“Há poucas instituições com alicerces sólidos”

Em entrevista exclusiva ao Movimento.com, Paulo Zuben fala sobre a gestão do Theatro São Pedro.

 

Compositor e gestor cultural, com doutorado em Musicologia pela ECA-USP e mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, além de graduado em Música (Bacharelado em Composição) e em Administração de Empresas. Essa é a formação de Paulo Zuben, que ainda foi bolsista do Chief Executive Program entre 2011 e 2013, quando teve a oportunidade de estudar na Harvard Business School, na Ross School of Business (da Michigan University) e na Texas University, em um programa de formação organizado pela instituição norte-americana National Arts Strategies (NAS).

Aos 50 anos, Zuben é, desde 2008, o diretor artístico-pedagógico da Santa Marcelina Cultura, Organização Social que hoje é responsável pela gestão da Escola de Música do Estado de São Paulo – EMESP Tom Jobim, do Theatro São Pedro e do Programa Guri Capital e Grande São Paulo. Desde junho de 2018, ele também é o presidente da Associação Brasileira das Organizações Sociais de Cultura – ABRAOSC.

Paulo Zuben exerceu ainda as funções de diretor executivo e de diretor artístico-pedagógico do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, e tem dois livros publicados: Ouvir o som (2005) e Música e tecnologia (2004). Em 2004, foi selecionado para o estágio em composição e informática musical do IRCAM de Paris, onde trabalhou durante o seu período de Mestrado. Foi condecorado em 2013 pelo Ministério da Cultura francês com a ordem de Chevalier dans l’Orde des Arts et des Lettres.

A ideia de entrevistar Paulo Zuben surgiu naturalmente, pois, afinal, ele é um dos principais responsáveis pelo sucesso de público e crítica que marcou nos últimos anos a gestão da Santa Marcelina Cultura no Theatro São Pedro. Essa gestão vem sendo apontada em tempos recentes como a mais consistente, em termos de programação, dentre todos os teatros de ópera brasileiros.

Entre a ideia e a concretização da entrevista (por e-mail, via assessoria de imprensa), surgiu a informação sobre a mudança de escopo da programação do Theatro São Pedro a partir de 2020, por determinação da secretaria de Cultura e Economia Criativa do estado de São Paulo. Tal mudança implica, principalmente, no fato de que o São Pedro deverá incluir também musicais em sua programação. O Movimento.com encaminhou então ao entrevistado duas perguntas complementares, que são as que encerram esta entrevista.

Ao longo da conversa, Paulo Zuben tocou em pontos sensíveis da administração da ópera no Brasil. Para ele, “(…) há poucas instituições com alicerces sólidos, construídos sobre missões institucionais e não pessoais (…)”, e a circulação de produções entre os teatros brasileiros “(…) só será possível se houver maior diálogo entre as casas e produtores que fazem ópera no Brasil”. Confira abaixo a entrevista completa.

 

A Santa Marcelina Cultura tem sido apontada nos últimos tempos como a melhor gestora de um teatro que produz ópera no Brasil. Qual o segredo? O fato de o Theatro São Pedro-SP não ter uma “máquina” pesada como teatros de maior porte facilita a gestão?

A Santa Marcelina Cultura assumiu a gestão do Theatro São Pedro em 2017 com a missão estabelecida em seu contrato de gestão com o Governo do Estado de São Paulo de realizar produções de ópera e concertos sinfônicos com a Orquestra do Theatro São Pedro, ensaios abertos ao público, concertos didáticos e de música de câmara, manter um programa de formação para jovens cantores com a Academia de Ópera do Theatro São Pedro, e, por fim, ocupar o espaço com outras atividades ao longo do ano com o objetivo de ampliar o público frequentador do local.

Tomamos a decisão de assumir esse desafio com um orçamento disponível bastante reduzido, que apresentou condições limitantes para a contratação de músicos e equipe técnica. Realizamos um planejamento de gestão com as condições acordadas para entregarmos ao Governo e à sociedade uma programação artística e pedagógica de qualidade. Isso só foi possível por conta do comprometimento com esse objetivo de todos os músicos e de todas as equipes técnica e administrativa da Santa Marcelina Cultura.

Para isso acontecer, tomamos a decisão de abrir para a participação mais efetiva de todos na tomada de diversas decisões, a fim de que o trabalho pudesse ser construído com diálogo e, sobretudo, que todos acreditassem e se responsabilizassem pela entrega dos resultados esperados. Também contamos com as habilidades e o conhecimento de diversos profissionais e empresas parceiras que prestaram com dedicação inúmeros serviços de qualidade e fundamentais para que o Theatro São Pedro alcançasse suas metas. A Santa Marcelina Cultura trabalha dessa mesma forma na gestão de outros programas, como o Guri na Capital e Grande São Paulo e a Escola de Música do Estado de São Paulo – EMESP Tom Jobim.


Em geral, como são escolhidos os títulos das óperas e os seus respectivos elencos? Há um responsável único ou a responsabilidade é de um colegiado?

Toda a programação segue as diretrizes estabelecidas em 2017, quando a casa passou a ser gerida pela Santa Marcelina Cultura. A direção artístico-pedagógica e a gestão artística trabalham de forma colaborativa com a participação também dos músicos da Orquestra do Theatro São Pedro nas escolhas artísticas e no convite a regentes e solistas convidados. Os programas são pensados levando também em conta o fortalecimento da identidade artística da Orquestra.

Os títulos das montagens procuram abarcar um repertório que vai além do século XIX. Sem excluir os títulos e os compositores mais encenados, procuramos equilibrar a programação ao escolher títulos mais raros de serem encenados no Brasil e que sejam adequados ao perfil do Theatro São Pedro, de modo a oferecer ao público uma diversidade do espectro operístico, como, por exemplo, foi o caso da ópera barroca “Alcina”. O São Pedro pode abrigar bem óperas barrocas.

Óperas contemporâneas também precisam ser feitas, assim como Donizetti, Mozart, Rossini, porque são fundamentais para o desenvolvimento da proposta artística do teatro. Em nossa programação, procuramos o equilíbrio de realizar títulos alternativos aos regularmente apresentados, mas fundamentais para a compreensão da importância da ópera como uma linguagem ainda moderna.


Por que até hoje a Santa Marcelina Cultura não indicou um regente titular para a Orquestra do Theatro São Pedro? Há algum plano de se escolher esse regente?

Quando a Santa Marcelina Cultura assumiu a gestão do Theatro São Pedro era preciso entender e conhecer antes a orquestra e suas demandas. Naquele momento também acreditamos que caberia aos músicos participar dessa escolha. Pensamos que, para se chegar a uma indicação, é preciso tempo de trabalho, experimentar diversos artistas, trabalhar com vários regentes.

Desde então, apostamos em um entendimento coletivo com os músicos da orquestra para a escolha de profissionais que tenham a experiência e o perfil adequado ao repertório que está sendo programado, sem processos pessoais nem personalistas. No nosso ponto de vista, esse caminho vem trazendo excelentes resultados artísticos em cada programa e a orquestra está tocando cada vez melhor. Como algumas outras orquestras menores no mundo já fazem, esse pode ser o caminho que continuaremos a seguir se os resultados continuarem sendo positivos.


A Santa Marcelina Cultura encomendou uma nova obra ao compositor Flô Menezes e também apresentou, embora não a tenha encomendado, uma ópera inédita de Leonardo Martinelli. Iniciativas como essas podem ser mantidas em temporadas futuras?

Contemplamos ideias mais contemporâneas na escolha não só do repertório, mas também no modo de interpretá-lo. Fizemos uma ampla reflexão sobre aquilo que as obras podem sugerir para nossa experiência sensível hoje, tanto sob o aspecto da invenção musical, quanto pelas possibilidades interpretativas. As encomendas estão dentro dessa proposta e continuarão a ser feitas dentro de toda a nossa programação, não apenas na do Theatro São Pedro, mas também dos outros programas que gerimos. Somos provavelmente a instituição que anualmente mais faz encomendas de obras para compositores do Brasil.


A Santa Marcelina também administra uma Academia de Ópera vinculada ao Theatro São Pedro e a Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP Tom Jobim). Além disso, as duas produções líricas que encerraram o ano do São Pedro foram voltadas exatamente para jovens cantores e músicos. Como o senhor enxerga as perspectivas de futuro para os jovens aspirantes a atuar profissionalmente como cantores líricos no Brasil, considerando que é evidente que a demanda de trabalho é maior que a oferta de óperas/concertos/recitais em nosso país?

Não podemos nunca esquecer a missão de formação que uma Academia de Ópera e que uma Orquestra Jovem têm e como isso nos apresenta desafios de preparar os jovens, cantores e instrumentistas, para o mundo contemporâneo e não para o passado. A formação tem que acompanhar o desenvolvimento da profissão e os desafios impostos pelo presente, principalmente o das escassas oportunidades de trabalho em nosso país.

Em um cenário muitas vezes de fragilidade do setor cultural, como vivemos atualmente no país e, especificamente, no setor operístico, em que há poucas instituições com alicerces sólidos, construídos sobre missões institucionais e não pessoais, não podemos deixar de acreditar que a formação é essencial para que os estudantes mergulhem cada vez mais dentro do universo musical em toda sua complexidade, e que sejam estimulados a refletir sobre a linguagem musical e seu papel dentro da sociedade. Só com essa reflexão é que eles poderão contribuir para evidenciar à sociedade a relevância de se fazer arte e por que a cultura é tão importante em nossas vidas.

Acredito que novas ideias ampliam o mercado de trabalho e ajudam a alavancar o crescimento do setor, não só em termos da quantidade de produções, mas, principalmente, na forma de se produzir óperas. Nesse sentido, novas oportunidades de trabalho só existirão se a formação dos cantores e instrumentistas for de qualidade realmente comprometida com o desenvolvimento da criatividade e das habilidades necessárias para que possam enfrentar um mundo profissional que exige deles mais empreendedorismo.

Para se alcançar uma formação de qualidade é importante pensar que, para os jovens superarem esses desafios profissionais do presente, eles precisam, além obviamente do desenvolvimento técnico-musical, de experiências artísticas que ofereçam a eles a oportunidade, por exemplo, de conviver com profissionais nacionais e internacionais de primeiro nível, de vivenciar montagens com repertórios desafiadores de vários estilos e períodos musicais e, sobretudo, de participar de um ambiente musical em que sua formação seja o objetivo principal das ações realizadas.


O Theatro São Pedro conserva os cenários e figurinos das suas produções líricas, de forma que eles possam ser utilizados em remontagens, permutas ou mesmo alugados para outros teatros?

O Theatro São Pedro possui uma área de guarda de seus cenários e acervos de figurinos e adereços. Nossa política é de reutilizar materiais de produções anteriores em novas produções, mas, ao mesmo tempo, selecionar alguns títulos que serão integralmente armazenados e podem ser refeitos no futuro ou mesmo alugados, como já acontece atualmente.

No geral, reservamos uma ou duas produções por ano para possíveis remontagens e as demais trabalhamos com reutilização de material e estrutura para produções futuras. No momento de concepção de uma nova produção já prensamos se haverá ou não a reutilização dos materiais ou se armazenaremos tudo para uma remontagem ou aluguel.


Em seu entendimento, por que as produções brasileiras não circulam mais? O que falta para isso acontecer? Remontagens, permutas e/ou aluguéis de produções entre os teatros brasileiros não otimizariam o uso do dinheiro público, levando as produções a alcançar um público maior e gerando mais trabalho para os profissionais envolvidos (solistas, músicos, equipes de criação)?

A questão é que a execução para que as produções consigam circular esbarra em problemas estruturais. Além dos entraves burocráticos, cada teatro tem uma realidade diferente, tanto do ponto de vista de programação, quanto em termos de estrutura e de modelo de gestão. O custo para essa circulação acaba sendo alto. Existe a dificuldade de transportar cenários, figurinos e, muitas vezes, esses valores são mais altos do que realizar novos projetos.

Do ponto de vista orçamentário, muitas vezes é mais viável economicamente recriar ou criar do que fazer o intercâmbio. Para que a circulação seja uma possibilidade de fato e não apenas iniciativas isoladas, seria necessário pensar em uma rede com um caráter nacional de circulação de títulos. Isso só será possível se houver maior diálogo entre as casas e produtores que fazem ópera no Brasil.


Diante da imposição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo de que o Theatro São Pedro deveria produzir também musicais, a Santa Marcelina conseguiu, para 2020, montar uma programação com obras (Porgy and Bess e West Side Story) que não devem causar maiores discussões com a classe lírica e com o público fiel da ópera. Essa imposição por parte da secretaria pode, no entanto, diminuir o espaço para a ópera nos próximos anos. Como equacionar essa imposição da secretaria em um país que já produz tão pouca ópera?

A programação segue as diretrizes estabelecidas no momento em que a Santa Marcelina Cultura assumiu a gestão do Theatro São Pedro, em 2017, ou seja, a temporada contempla as séries lírica, sinfônica e de câmara, privilegiando a Orquestra do Theatro São Pedro em repertórios variados e desafiadores.

Além disso, com o intuito de possibilitar o desenvolvimento artístico de jovens cantores e instrumentistas, o Theatro São Pedro promove performances de artistas em formação. Os dois grupos de estudantes ligados ao teatro, a Academia de Ópera e a Orquestra Jovem do Theatro São Pedro, realizam, em 2020, duas montagens originais de ópera.

Ao todo, a temporada terá seis títulos: “West Side Story”, de Leonard Bernstein, “Ariadne em Naxos”, de Richard Strauss, “Os Capuletos e os Montéquios”, de Vincenzo Bellini, e “Porgy and Bess”, de George Gershwin, com a Orquestra do Theatro São Pedro, além de “O Mundo da Lua”, de Joseph Haydn, e “Moscou, Cheryomushki”, de Dimitri Shostakovich, com a Academia de Ópera e a Orquestra Jovem do Theatro São Pedro.

Mas a temporada também trará novidades, com uma programação que abrange ainda a música popular brasileira, transmissão ao vivo de espetáculos, um maior número de atividades com recursos de acessibilidade, uma série de conferências intitulada Talks Theatro São Pedro, e o programa de Ocupação Artística do Theatro São Pedro, que vai selecionar instituições de diversas áreas para compor a programação de 2020.


O Theatro São Pedro tem condições físicas, técnicas e operacionais de receber espetáculos de grande porte como musicais?

O Theatro São Pedro pode abrigar diferentes linguagens artísticas como óperas, espetáculos musicais, concertos, balés. Por ser um teatro de menor dimensão que, por exemplo, o Theatro Municipal de São Paulo, é necessário, claro, que sejam respeitadas as suas características estruturais, como dimensão da caixa cênica, do fosso, das coxias, que devem ser consideradas mesmo para a escolha dos títulos das óperas.

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com