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Gostar de ópera

Importante é que nada, nada mesmo, impede quem quer que seja de gostar de ópera e de crescer dentro dela. Gostar de Ópera é coisa simples? É mas, não é para qualquer um. Gostar de Ópera exige alguns requisitos que nem todos, infelizmente, têm. Não há nisso, nenhuma discriminação.

Gostar de Ópera inclui antes de tudo, imbuir-se de visão universalista e destituir-se de quaisquer preconceitos sobre a Música em geral e ter consciência de conhecê-la, podendo ou não gostar porque, dizia Victor Hugo, ninguém gosta daquilo que não conhece. O valor intrínseco da Ópera está justamente no conhecê-la, entendê-la, vê-la e escutá-la. É um imenso arcobaleno que começa numa pequena fonte, estendendo-se no infinito até findar-se dentro da desejada cornucópia do prazer, da alegria e da felicidade, do desfrutar o algo maravilhoso.

Dito assim, pode suscitar sentimentos contraditórios à nossa volta. Todos nós, enquanto animais sociais, determinamo-nos pelos dogmas e convenções estipulados pela sociedade em que vivemos, obsequiando alguns com generosa e gratificante concupiscência de simpatia ou cravando a indesejável e incômoda sina da antipatia sobre outros.

Subjugamo-nos a uma ou outra vertente, onde os demais nos analisam, nos aceitam ou nos repudiam, dependendo dos enfoques objetivos ou obliterados e também, dos humores mais a ambiguidade de cada um. Diante da plateia humanidade, tudo o que se diga ou que se faça, terá tantas interpretações quantas sejam as pessoas que nos vejam, nos ouçam, nos leiam. Esta é a nossa vida e é a vida de todos.

Há os que abominam a Ópera, assim como há os que gostam de maus vinhos. Temos de respeitá-los. É provável que deles, venha a ser o reino dos céus, pois gostar de ópera é sim, um privilégio, uma dádiva divina cujos raios certeiros atingem poucos e o apreciador de óperas é muito cioso dessa posse.

Muitas vezes, retrai-se e não fala dessa sua sorte, porque sabe de seu dom e busca evitar a não compreensão por parte daqueles que antipatizam com ele, que ao ouvir-lhes dirão: “são elitistas!”, uma arrogância que nenhum de nós tem, felizmente, pois ao contrário, abrimos nossas mãos em aplausos sempre em uníssono sejam quais forem aqueles que se venham juntar a nós. O que fazer então? Dizer ou não dizer? Melhor: ver, escutar, gostar e aplaudir.

Ter visão universalista irrestringe a pequenez e permite ao eleito deliciar-se com as obras de todas as épocas, formas e estilos. Não ter preconceitos desaferrolha mentes para a busca do entendimento descompromissado de todas as músicas, na certeza de que qualquer uma, seja da chamada erudita ou popular tem um mesmíssimo valor artístico e até mesmo, os mesmos graus de beleza sabendo ser a diferença entre uma e outra, a roupagem com que as vestem.

Gostamos da música clássica, e também da ópera, quando apresentadas nos estilos e formas ditos populares. O inverso, quanto à música popular, também é verdadeiro. Pegue-se uma rock-pauleira, sertaneja, samba, axé, rap ou qualquer outra e imaginem-na orquestrada por um Korsakov e tocada por uma grande orquestra, com os portamentos daquele gênio. Sintam-nas em suas mentes e vejam que lindo seria.

Então, porque gostar de ópera não é para qualquer um, se a música é toda igual?

Entre aquelas perspectivas de ser simpatizante ou não, seria ignominiosa pretensão imaginar-nos no sufrágio unânime da simpatia universal, como certamente jamais teremos contra a Ópera a antipatia generalizada de todos. De bom meio termo, existem aqueles que pretendem apenas conhecer o algo novo, ter informação e opiniões, para que possam formar as suas. Talvez para estes as sementes que atiramos nas cavas dos campos culturais, germinem com mais facilidade e venham a compreender o verdadeiro sentido do que seja o privilégio de gostar de ópera. Esperamos que assim seja.

Não é só a Ópera que é um privilégio, claro. Qualquer outra forma de arte será sempre um privilégio para os nossos sentidos e serão sempre privilegiados aqueles que puderem conhecer, compreender, entender e admirá-las porque, nenhuma pessoa, independentemente de sua condição social, econômica e cultural ou de saber ou não os idiomas dos libretos – fatores importantes mas não eliminatórios – poderá ser um destes privilegiados, se faltar-lhes a sensibilidade da percepção sensorial, a capacidade analítica e o discernimento interpretativo que o capacite ao entendimento completo daquilo que esteja vendo, ouvindo, apalpando, cheirando, sentindo. São esses diversos graus da inteligência humana que, somados, tornarão a pessoa mais ou menos culta e conhecedora daquilo de que venha a gostar. E isto sim, é um privilégio.

Pela sua grandeza, a Ópera com 405 anos, é a única arte criada como tal e a única que abriga dentro de si todas as demais artes. É apaixonante e suscita conflitâncias maniqueístas de amor e ódio naqueles que dela intentam participar. Ocupar um lugar dentro desse larguíssimo espectro do gostar ou não gostar, sofrerá influências, tantas que seria ocioso tentar enumerar mas, certamente, o começo do debutante na Ópera é fundamental para que ele se defina em qual vertente irá se alojar.

É tão diferente para aquele que vai a um teatro ou assiste na TV e tem ao seu lado alguém que explique o que ele esteja vendo e ouvindo, quanto para aquele que simplesmente assiste a um concerto ou mesmo, ouça gravações, sem explicações e sem cenas figurativas, a força da imagem.

Levado ao extremo, pode se considerar uma covardia – de dúbio sentido – levar-se alguém pela primeira vez na Ópera, para assistir Puccini ou Wagner, ainda que por razões bem diferentes e embora ambos os compositores tenham produzido maravilhas sobre um mesmo tema que é a música lírica.

De formas inteiramente diversas, com Puccini expõe-se o aturdido espectador/ouvinte iniciante a ter seu gosto e suas opiniões tão fortemente influenciadas e tornar-se irremediavelmente marcado para o resto dos seus dias sob as geniais melodias de óperas com música tão facilmente perceptível ao ouvido e com libretos comoventes de personagens bem humanos, causando sonhos de arrebatamento, com estórias onde há muito choro, emoção e até, boas gargalhadas.

Esse iniciante não poderá resistir a essa formidável impressão e sairá do teatro amando a ópera, numa paixão fulminante. Certamente, ele jamais reclamará e até agradecerá mas, não tendo chance de escolha, isso poderá ser uma ótima “covardia” de quem o induza a conhecê-la..

Por outro lado, a magistral mas intrincadíssima trama musical wagneriana onde muitas melodias elaboradas se superpõem criando verdadeiras constelações ou conceitos espaciais, já é bem mais difícil de se absorver à primeira vista, à primeira escutada. É coisa para os “iniciados”.

Não será fácil memorizar tantas melodias tocadas ao mesmo tempo, entender o maravilhoso e excepcional conceitual teológico e filosófico tendendo à metafísica, expresso nos libretos e nas partituras, o que poderá levar o mesmo debutante a não querer, nunca mais, saber de Ópera, por ser algo que ele não pode compreender.

Pelo menos, não numa primeira vez. Tantas experiências mostram que nem sempre foi assim, de uma ou outra forma com aqueles destinados ao privilégio de ser e de gostar da ópera. Que bom que assim seja mas, pesa muito nisso tudo, a formação personalística de cada um.

Um artista plástico ao pintar ou esculpir, revela por inteiro o interior de sua alma, de sua consciência. Isso não é diferente com quem gosta de Ópera. Ao longo dos anos, percebemos uma relação simbiótica latente, inquestionável, irrefutável, relativa à personalidade de cada pessoa com as óperas de suas preferências, aquelas que mais lhe agradam e com as quais, acabam se identificando.

Parece-nos normal, natural. Assim é que aqueles emotivos são os românticos, poéticos e impressiona-lhes óperas como La Bohème, La Traviata, Adriana Lecouvreur, Manon, La Rondine e outras de cunho predominantemente romântico, porque elas lhe falam daquilo que mais sentem: o amor, o romance.

Aqueles de mente mais lépida, personalidade extrovertida, buscam mais a ópera cômica, refletindo seus espíritos alegres e gozativos, até pela sublimação de ironias reprimidas. Outros, mais arrebatados e corajosos, preferem os lampejos heroicos dos personagens Calaf, Chénier, Tell e tantos outros.

Há ainda aqueles que espiritualmente parecem carecer de espaços maiores para suas divagações, visionários em novas perspectivas e que sublimam através de tapetes mágicos musicais que os leva para outras dimensões, outros mundos e ”lands” fantasiosas, encontráveis em Wagner, Strauss, Blomdahl e alguns outros mais modernos.

E ainda há os que buscam fugas desesperadas, como os Werther, de Massenet e Die Tote Stadt, de Korngold ou do próprio Fausto. Sem exceção, todos eles revelam suas personalidades e temperamentos através dos seus gostos operísticos, agregando-se-lhes é claro, as idades de amadurecimento.

Embora a maior parte das óperas (em torno de 180 mil) tenha libretos cômicos, é interessante notar que aquelas que sobreviveram com mais sucesso são justamente as que enfocam dramas e tragédias. Faz parte da natureza humana, da sua morbidez, essa preferência por coisas onde prevaleça a dor, a morte, o sofrimento e as decepções e frustrações, talvez porque reflitam situações impressionistas As mortes de Mimi e Violeta, o suicídio de Tosca ou Gioconda, são parte de um cotidiano no qual vivemos. São desenlaces naturais, como o que afligiu a inconstante Carmem.

Já o que acontece com Rigoletto, Manrico ou Leonora de Calatrava é algo mais forte. É pura desgraça folhetinesca que só pode ser do gosto – afora a música – de quem adora emoções e situações inusitadas, o que de certa forma, também é natural. Fato é que ninguém deixa de gostar dessas tragédias engendradas em simulações da vida real porque os compositores revestem-nas de uma roupagem musical belíssima, exuberante e cativante como, por exemplo, a que nos esquecer o horror do sangue nas mãos da Lady McBeth, lavadas por aquela insinuante melodia verdiana, incompatível com tamanha desgraça.

E nem se pode esquecer daqueles que gostam da dissonância, atonalismo, dodecafonia e música eletrônica pois o ser humano, queiramos ou não, é fruto do meio em que nasceu, cresceu e se formou. Isso é atávico e para sempre. Quem nasceu ouvindo cantos de pássaros, sussurro do vento nas folhagens e murmurejar dos regatos e teve cantos de ninar na infância, poderá e deverá ter, uma percepção melódica mais suave e harmônica dos sons musicais, contrariamente aqueles que nasceram e cresceram nas grandes cidades, com todos os barulhos, ruídos e sons de veículos, máquinas, apitos, buzinas e o indescritível burburinho urbano. Aos ouvidos destes, todos os novos experimentos musicais e acústicos soa normal, aceitável e tolerável por serem mais familiares. E as óperas construídas sob estes parâmetros, causam-lhes uma excitação diferenciada. Nada de ruim nisto.

A verdade é que, sejam quais forem as formas de composição, todas elas serão sempre óperas. A grande ópera, o evento mais elegante da Cultura Ocidental, sobrevivendo galhardamente através dos tempos por ser, sempre, a crônica de sua época. Gostar de óperas pois, implica necessariamente na não discriminação de épocas, estilos, formas ou autores. Quem gosta sabe bem e isso nos remete ao início da nossa conversa: com a capacidade de assimilar tanta música, poesia, literatura, teatro, história e outras artes ao mesmo tempo, aqueles que gostam de ópera podem – e devem – sentir-se privilegiados?

Mais importante, sempre observamos, é que nada, nada mesmo, impede quem quer que seja de gostar de ópera e de crescer dentro dela. Só este direito democrático, livre e aberto para quem simpatize ou não, já é um formidável privilégio e ainda bem, amigos, nós gozamos dele.

 

Autor Edson Lima
em 22/5/2002

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