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Georges Bizet e Carmen: vidas erráticas

“Sem dinheiro, de esquerda, anti-religioso e boêmio”

Os quatro adjetivos acima foram empregados pela família Halévy quando o compositor Georges Bizet (1838-1875) anunciou seu interesse por Geneviève, filha do finado compositor Fromental Halévy. Mesmo diante da oposição inicial, em 1869 houve o casamento – afinal, Bizet parecia ser um talento promissor. Contudo, justamente pouco tempo depois da estreia de sua obra-prima, Carmen, Bizet morreu.

De toda sorte, para que fosse possível testemunhar o imenso sucesso que esta ópera alcançou, ele provavelmente teria que viver mais algumas décadas. Com efeito: Carmen trouxe situações ao palco que chocaram o público parisiense da época. Um crítico definiu a atuação da cantora que fez o papel principal, Célestine Galli-Marié, como a “verdadeira encarnação da imoralidade”. Mas, afinal, quem foi Bizet? E quem foi Carmen? E por que essa obra atrai tanta gente aos teatros de ópera mundo afora?

 

Um nadador gordo

Georges Bizet nasceu na cidade de Paris, em um ambiente musical. O pai era um professor de canto (ainda que autodidata) e a mãe sabia tocar piano muito bem. Com apenas 9 anos de idade, o talentoso Georges foi, em caráter excepcional, admitido no Conservatório de Paris como aluno (a idade mínima era de 10 anos). Com o passar do tempo, Bizet se tornou um excelente pianista, a ponto de se cogitar uma carreira como virtuose do instrumento. Porém, dada a sua personalidade, digamos, “rebelde”, o compositor rejeitou diversas oportunidades de seguir essa carreira. Mesmo tendo assombrado o grande Franz Liszt ao executar, em um jantar, uma obra que o próprio Liszt acreditava ser executável apenas por ele e por outro pianista (no caso, Hans von Bülow), Bizet dizia a quem quisesse ouvir que jamais teria suas composições rotuladas como “musique de pianiste” (isto é, “música de pianista”, em um sentido pejorativo – música feita para ser tocada por pianistas em salões frequentados pela sociedade endinheirada). Desta forma, Bizet preferiu manter-se como fora definido pelos Halévy: sem dinheiro, de esquerda, anti-religioso e boêmio.

Após vencer em 1857 o prestigiado Prix de Rome, Bizet garantiu para si mesmo uma bolsa de estudos por cinco anos. Passou três anos estudando na Itália (aparentemente, ele empregou mais tempo comendo em restaurantes e viajando do que compondo, uma vez que não concluiu nenhum trabalho de grande significância enquanto esteve lá) e voltou para Paris ao saber que sua mãe estava gravemente doente. Ainda desfrutou de dois anos de renda garantida. Porém, com o fim da bolsa, e novamente se recusando a seguir a tal carreira de virtuose, passou a se sustentar desempenhando uma série de atividades: trabalhando como pianista-acompanhador em ensaios de obras de outros compositores, transcrevendo para o piano centenas de óperas e composições diversas, fazendo arranjos orquestrais, e, por um brevíssimo período, exercendo a função de crítico musical (publicou uma única crítica e logo depois brigou com o editor da publicação).

Bizet também começou a dar aulas, e por meio de um de seus alunos, sabemos que o francês tinha uma queda por doces: “ele era gorducho, vigoroso… e um glutão quando se tratava de comer doces! Tinha uma verdadeira loucura por bombons, bolos e outras guloseimas. Comia petits fours impreterivelmente às quatro da tarde e, sempre que via um recipiente contendo docinhos na nossa casa o tomava para si até comer tudo o que havia dentro”. Ademais, nas carinhosas cartas que escreveu para os pais enquanto esteve na Itália, mencionou frases como “uma coisa espantosa é que perdi meu apetite feroz” e “espero emagrecer consideravelmente”.

Bizet curtiria essa foto, se ele estivesse nas redes sociais.

 

Assim, convenhamos que a saúde de Bizet não poderia ser das melhores. Além do sobrepeso, o compositor penou com numerosas infecções de garganta ao longo da vida – uma delas chegou a ser tratada na Itália com sangrias e uma dúzia de sanguessugas pregadas no pescoço do artista, sem muito sucesso. A tais infecções, somavam-se o hábito de fumar e as longas jornadas de trabalho, que chegavam a ultrapassar 16h por dia, com Bizet envolvido em transcrições, arranjos e trabalhos similares. Sabe-se lá como, o compositor eventualmente encontrava tempo e disposição para um dos seus passatempos preferidos: nadar nas águas dos rios dos arredores parisienses.

 

A morte! Sempre a morte!

Carmen não é um programa para toda a família. O libreto da ópera se originou de uma novela de Prosper Merimée. É um fato notório que a estréia da partitura de Bizet causou furor no conservador público parisiense de então. Todavia, a versão dos libretistas Halévy e Meilhac é até light se comparada ao texto original: na novela, Don José narra para um arqueólogo francês toda uma série de desventuras que viveu desde que se envolveu com a cigana Carmen, que trabalha como operária em uma fábrica sevilhana de cigarros. Assim como na ópera, José havia se envolvido em uma briga por conta de uma partida de péla (uma espécie de ancestral do tênis) em Navarra, sua região de origem, que resultou na morte de um adversário. Uma vez no exército, procura recomeçar a própria vida.

Porém, quando Carmen atravessa o seu caminho, José passa a se comportar, gradativamente, de forma cada vez mais criminosa e sombria. Carmen, por sua vez, é uma mulher de vida livre, que ama quem bem entende pelo tempo que julga conveniente e que se relaciona com diversas figuras do submundo da Andaluzia, envolvendo-se com bêbados, militares de conduta questionável e contrabandistas. Até aí, com exceção da presença da figura do arqueólogo e da ausência da figura da namorada de José, Micaela, novela e ópera se assemelham (na ópera, não existe um narrador e José tem um relacionamento amoroso com a inocente Micaela, uma jovem navarresa que conta com a simpatia da mãe do militar).

As coisas passam a diferir significativamente a partir do segundo ato da ópera: no texto de Merimée, ao reencontrar Carmen após sair da cadeia (uma vez que fora preso por deliberadamente deixar Carmen escapar, tendo sido ela presa durante uma briga com outra operária), José ouve diversos homens se referirem a ela como “uma prostituta”. Posteriormente, quando Carmen é procurada por um superior de José, o tenente Zuniga, ocorre uma briga entre esse e o soldado navarrês, que mata Zuniga. Não tendo outra alternativa que não seja fugir com Carmen, José se une aos contrabandistas com quem ela se relaciona, para descobrir que a cigana tem o hábito de seduzir suas vítimas para depois atraí-las até uma cilada: os incautos apaixonados são levados a um certo local onde serão assassinados pelo bando, que assim irá se apoderar dos pertences das vítimas.

E mais: Carmen tinha um marido – na realidade, um ex-marido -, um tal de “El Tuerto Garcia” (ou “O Caolho Garcia”), que fugiu da cadeia e se juntou ao bando. Enciumado, José provoca uma briga e mata Garcia. Carmen, é bom ressaltar, não parece se incomodar muito com isso. Logo, temos uma Carmen prostituta, cúmplice de diversos homicídios, e que já foi casada; José, por sua vez, está disposto a matar qualquer um que se interponha entre ele e Carmen. Outra curiosidade é que na ópera surge com destaque a figura do toureiro Escamillo, que se torna o novo amante de Carmen. Na novela, que tem como correspondente o toureiro Lucas, tal relação é pouco detalhada, sendo que a menção ao nome de Lucas faz com que José dê um ultimato a Carmen: ou o casal fugiria para a América (ou seja, mais um recomeço na vida de José…), ou desta feita quem iria morrer não seria um novo amante, e sim a própria cigana. Carmen, que já havia previsto a própria morte por meio de alguns presságios (e não por meio das cartas, como acontece na ópera), diz que jamais deixará de ser livre e é finalmente apunhalada por José.

Fábrica Real de Tabacos, em Sevilha: melhor seria se José nunca tivesse passado por aí.

 

Nota-se que se a ópera amenizou significativamente a violência e a aspereza dos personagens da novela que a originou. Afinal, só há uma morte em cena: a de Carmen. Zuniga desmaia, mas não morre. Os contrabandistas não são homicidas, dedicando-se apenas às suas mercadorias ilícitas. O “Caolho Garcia” sequer existe. Porém, desde a primeira récita no Opéra-Comique de Paris em 3 de março de 1875, o público não digeriu bem certos aspectos do libreto: Carmen lhes pareceu libertina demais, os ciganos, contrabandistas e até mesmo os soldados demonstravam ser pessoas que cultivavam uma vida imoral, e José era retratado com um sujeito em franca decadência e desequilibrado. Ou seja: havia realismo demais em cena!

Os parisienses, fãs do gênero da “opéra-comique” – que intercalava música e diálogos, com libretos em que até os criminosos eram retratados de maneira simpática, em tramas com elementos fantásticos e casais apaixonados –, não estavam preparados para assistir cantores de ópera vivendo aquilo que normalmente se lia nas páginas policiais dos jornais da época. Não entenderam, os parisienses de então, que a música de Bizet era uma das mais magníficas já escritas: como bem explica Marcus Góes em seu livro sobre Carmen, na série Grandes Óperas (Editora Salamandra, 1987), há passagens de fundamental importância para o coro; há vários duetos, um trio, um quinteto e um sexteto; há diversas passagens brilhantes para os quatro protagonistas, conhecidas até pelos que pouco vão aos teatros; há todo um senso de continuidade que não permite um momento sequer de tédio ao longo da récita; há o uso de leitmotiven na medida certa; há música folclórica, nunca em excesso; há melodias variadas e cativantes, há a adaptação da música ao drama e a criação de atmosferas psicológicas adequadas. Não foi à toa que Carmen se tornou uma das óperas mais populares em todo o mundo.

Em uma trágica ironia, a ópera acabou associada à morte do próprio Bizet: por conta de todos aqueles problemas de saúde que já relatamos nesse artigo, somados à recepção inicial fria que a ópera teve, o compositor dirigiu-se a Bougival, nos subúrbios de Paris, a fim de passar alguns dias no campo. Após disputar, ainda que de brincadeira, uma prova de natação no Rio Sena com um amigo pianista, sentiu-se mal. Não se tem certeza do que ocorreu depois, mas suspeita-se que os efeitos cumulativos das sucessivas infecções de garganta, associadas à febre reumática e a alguma cardiopatia tenham levado Bizet a óbito nas primeiras horas da madrugada do dia 3 de junho de 1875. Conta-se que horas antes, na Opéra-Comique, durante a trigésima-terceira récita de Carmen, a cantora Galli-Marié teve um pressentimento após cantar a previsão da sua morte na cena das cartas – proferiu as palavras “a morte! Novamente! Sempre a morte!” e, em seguida, desmaiou ao sair do palco (!). Retornaria para cantar o resto da récita, mas o fez aos prantos. Coincidência ou presságio?

 

Carmen em sua casa

O saudoso Góes afirmou que Carmen é uma ópera imortal em sua beleza, a ponto que “nem maus cantores ou más orquestras tem conseguido diminuir seu valor”. Porém, não é fácil encontrar uma gravação de Carmen que possa ser considerada absolutamente satisfatória: ou se escala uma meio-soprano matronal demais para o papel de Carmen, ou um tenor pouco refinado para o papel de José, ou uma soprano envelhecida para viver a adolescente Micaela, ou um barítono inexpressivo para encarnar o toureiro Escamillo.

Em linhas gerais, um bom elenco deve possuir como protagonista uma meio-soprano (ou soprano com bons graves) com agilidade suficiente para encarar certas passagens de coloratura e refinamento suficiente para não exagerar demais na interpretação nas passagens mais dramáticas (que podem facilmente desandar). É, também, desejável que possua compatibilidade física com o papel. Por sua vez, José é essencialmente um papel para tenor lírico, de emissão elegante, apto a cantar a última nota da Canção da Flor como consta na partitura (pp rall. e dim., algo como “muito suave, desacelerando e diminuindo o volume da voz”), e não com força total, mas com alguma habilidade para projetar a voz nas passagens mais pesadas dos dois atos finais da ópera. Escamillo deve ser um barítono (ou baixo-barítono com bons agudos) carismático, de graves seguros e agradável presença cênica. Micaela é papel para uma soprano lírica, com emissão clara, agudos seguros e que, no palco, seja convincente no papel de uma menina ainda muito jovem. Superados esses pontos – que não são poucos – espera-se que os demais cantores (comprimários e coro), assim como os protagonistas, tenham bom manejo do idioma francês, e que orquestra e regente tenham afinidade com o repertório gálico. Não é pouca coisa, afinal!

Lápide de Bizet, em Pére-Lachaise. O nome Carmen está lá, ligado para sempre ao compositor.

 

Sem a pretensão de querer definir qual gravação (ou gravações) seria a melhor, seguem algumas boas recomendações, ressaltando que nada substitui a experiência de assistir à Carmen em um teatro, com um bom elenco em cena: mesmo com uma imperfeição aqui e outra acolá, trata-se da experiência autêntica a ser vivida. Vamos lá:

Em CD:
Michel (Carmen), Jobin (Don José), Angelici (Micaela), Dens (Escamillo), Opéra-Comique, Cluytens.
Uria-Monzon, Papis, Vaduva, Le Texier, O. N. Bordeaux-Aquitaine, Lombard.

Em DVD/Blu-Ray:
Garanca, Alagna, Frittoli, Tahu Rhodes, Metropolitan Opera, Nézet-Séguin.
Uria-Monzon, Alagna, Poplavskaya, Schrott, Gran Teatre Del Liceu, Piollet.
Antonacci, Richards, Gillet, Cavallier, ORR, Gardiner.

 

Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.