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Gala lírica em Vitória

Recital na capital capixaba foi um exemplar em termos de escolhas corretas.

 

Nem sempre é fácil sair de casa em uma chuvosa noite de sexta-feira: a preguiça bate forte e o imã de geladeira da pizzaria olha para você com um olhar mais sedutor que o da cigana Carmen. Há ainda um vinho esperando para ser aberto na adega, na geladeira ou, para os mais fortes, até na estante da televisão (esses geralmente esperam por anos a fio). Assim, foi vencendo a preguiça que este crítico saiu de casa no último dia 15 de novembro, deslocando-se até o Palácio da Cultura Sônia Cabral, simpática sala de concertos vitoriense com capacidade para 206 espectadores, a fim de assistir a uma Gala Lírica (parte do 7º Festival de Música Erudita do Espírito Santo) com os cantores Ana Lúcia Benedetti (mezzo-soprano) e Paulo Mandarino (tenor), acompanhados pelo pianista André dos Santos. No caso, a pizza e o vinho ficaram para o sábado – e posso dizer que foi uma escolha acertadíssima.

Palácio da Cultura Sônia Cabral
Palácio da Cultura Sônia Cabral

 

Como planejar um recital

Ao cantor lírico em início de carreira que pretende planejar um recital, fica o conselho: aprenda a fazer com quem faz bem feito. Foi o caso aqui: a começar pela excelente escolha de sala: ambiente acolhedor para o público, boa acústica, bom isolamento em relação aos ruídos externos, iluminação na medida certa, com foco nos cantores e não nos espaços vazios do palco. Além disso, os cantores e o pianista estavam trajados adequadamente para a ocasião, com vestimentas sóbrias, dentro da necessária formalidade do evento (há recitais em que o cantor ou cantora chama a atenção pela cafonice, e há recitais em que os críticos gastam linhas e mais linhas para descrever todo o “glamour” do traje da diva – imagino o que Giuseppe Verdi diria lendo um negócio desses, mas enfim…). Outro ponto positivo: a postura dos artistas no palco. Um recital lírico não é, obviamente, como uma ópera encenada, em que o tenor se veste de pirata, desembarca de um navio, ergue uma espada, dá uma facada no vilão para depois beijar a mocinha, dentre outras peripécias.

Por outro lado, é extremamente frustrante quando o cantor tão-somente se posta no meio do palco, tal qual uma estátua, e canta. Há que se atuar, ainda que minimamente. Afinal, estamos falando de ópera (ou de Lied, ou de chanson, não importa.). Há um quê de drama na coisa! Dessa forma, as expressões faciais dos cantores, os gestos e os momentos de contato físico devem ser bem dosados, exatamente como foi feito por Benedetti e Mandarino. Outro aspecto é a escolha do repertório: um recital não pode ser frustrantemente curto ou aborrecidamente longo, não pode trazer a peça de maior impacto logo no início e outras não tão atraentes a seguir. Os arranjos para piano devem ser adequados. Em todos os tópicos mencionaos o trio acertou em cheio. “Ora!”, podem pensar os nossos leitores, tudo isso parece meio óbvio!”. Creiam-me: nem sempre é que se vê nos recitais por aí.

Ana Lúcia Benedetti e Paulo Mandarino
Ana Lúcia Benedetti e Paulo Mandarino

 

Mais Carlos Gomes, por favor!

Preliminarmente, quero falar do pianista André dos Santos. Premiado instrumentista e regente com algumas óperas no currículo, Santos foi fundamental para o êxito do espetáculo. Trata-se de acompanhador que conhece as necessidades dos cantores, dando a eles os necessários suporte e segurança para atuarem com tranquilidade. Cumpriu seu papel com perfeição e merece elogios por isso.

Acerca do programa: a noite se iniciou com Deh! Non turbare! de La Gioconda, de Ponchielli, um dueto entre Enzo e sua paixão secreta, Laura. A ópera, que não é encenada com tanta frequência, tem trechos de grande beleza, dentre os quais esse dueto. A interpretação foi muito bonita e já mostrou a todos os presentes que os cantores, além de dominarem com mestria o idioma italiano, também estudaram com atenção a partitura. Em uma demonstração de refinamento e de lirismo, já captaram a atenção do público a partir desta peça.

Em seguida, alguns excertos de Cavalleria Rusticana, de Mascagni – compositor da geração seguinte à de Ponchielli. Benedetti brilhou em Voi lo sapete, o mamma, cantada com toda a angústia que caracteriza sofrida personagem Santuzza. Logo em seguida o dueto Tu qui, Santuzza?, combinado com o trecho seguinte Ah! Io vedi. Muito bom o equilíbrio entre as vozes nos momentos em que ambos cantaram juntos, não havendo disparidade entre os respectivos volumes vocais, nem desencontros nos inícios e finais de frase. De se notar ainda a sutil menção facial de Mandarino à atração que Turiddu sente por Lola, no momento em que o excelente pianista tocou o tema dessa personagem (Fior de giaggiolo). Coisa de quem sabe o que faz. Cito ainda a frase A te la mala Pasqua, spergiuro!, declamada por Benedetti: foi o ponto alto da noite em termos de drama. Não se ouviu sequer uma respiração no (felizmente, bem comportado) público ao longo desta frase. Brava!

Após, Mandarino cantou a belíssima Forse la soglia attinse… Ma se m’è forza perderti, de Un Ballo in Maschera, de Verdi. O tenor conhece esse papel como a palma da mão e agradou o público ao interpretar essa célebre ária com um fraseggio muito adequado e com belos agudos, emitidos sem esforço aparente e que soaram muito brilhantes.

A noite prosseguiu com trechos de Il Trovatore – primeiramente, Condota ell’era in ceppi, trecho cantado sem as intervenções do tenor, possivelmente para que fosse possível descansar um pouco a voz e, em seguida, Non son tuo figlio!, já com Mandarino no palco. Mais uma vez foi mantido o alto nível do espetáculo, destacando-se então a adequação da voz da mezzo-soprano ao papel (e, também, com uma boa atuação cênica: segundo o compositor, em carta a Salvatore Cammarano, Azucena tem os “sentidos oprimidos, mas não é louca”, exatamente como retratada por Benedetti). Um dado interessante: já em 2014, quando fez o papel de Inês no Trovatore, a artista já havia se destacado no conjunto de comprimários empregados naquela produção pelo Municipal de São Paulo. Mencionei isso expressamente na crítica que foi publicada à época. É muito bom vê-la já galgando o principal papel para sua voz nessa obra-prima de Verdi. Fica aí a dica para os produtores…

Passou-se em seguida a mais uma ária interpretada pelo tenor: a líndissima Intenditi com Dio, da Fosca do nosso maior compositor de óperas, o campineiro Carlos Gomes. Não é à toa que grandes tenores como Carreras e Villazón a gravaram, pois a ária é oferece excelentes possibilidades para bons cantores mostrarem seus dotes vocais e cênicos. Mandarino aproveitou bem as oportunidades da partitura, inclusive com algumas doses de verismo (homeopáticas, para nossa alegria). Assim como fizera na ária de Verdi, procurou explorar as nuances do trecho, inclusive nas frases que são mais declamadas que cantadas (as que precedem o trecho Ah, se tu sei fra gli angeli), procurando variar entre uma emissão suave até uma emissão mais forte, a depender do sentido do texto. Foi uma boa mostra de domínio de técnica em canto lírico.

Aplausos

 

Finalizando o espetáculo, o dueto C’est toi? C’est moi!, da Carmen, de Bizet. Em um francês correto, Benedetti e Mandarino trouxeram ao público presente boas recordações da Carmen montada dias antes em Vitória (na qual Carmen e Don José foram interpretados com muito brilhantismo por Luciana Bueno e Fernando Portari). O tenor possui um registro vocal plenamente apto para o papel de Don José – lírico, mas com possibilidade de eventuais arroubos dramáticos nos últimos atos. Já a mezzo-soprano, mais uma vez, mostrou que já está plenamente habilitada a cantar papéis de primeira grandeza, como é o da cigana de Bizet. Com efeito: Ana Lucia Benedetti mostrou, ao longo de toda a récita, ser dona de uma voz rica em harmônicos, de timbre privilegiado, com graves muito bem sustentados e agudos brilhantes, além de exibir muita segurança em cena. Não a vi na elogiadíssima L’italiana in Algeri levada à cena pelo Teatro São Pedro em agosto desse ano, mas tenho a impressão que Benedetti estará nos principais palcos do país como protagonista em outras óperas nos próximos anos. E, arrisco dizer, que talvez até possa se arriscar em médio prazo em alguns papéis de soprano dramático. Quem sabe cantar a própria Fosca, de Carlos Gomes…

 

Fotos: Fabricio Zucoloto 

 

Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.