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Fluente e eficiente

Equilíbrio entre solistas, direção musical e encenação são os destaques de Norma, de Bellini, no Palácio das Artes.

 

Pró-consul romano na Galia, Pollione apaixonou-se por Norma, a grã-sacerdotisa druida, e com ela teve dois filhos. Norma, que por sua posição deveria ter se mantido casta, mantém os dois meninos que teve com o amado escondidos de seu povo. Para isso, conta com a cumplicidade de sua confidente Clotilde. Quando a ópera começa, Pollione está apaixonado por outra sacerdotisa druida, Adalgisa, e planeja regressar a Roma levando-a consigo, abandonando definitivamente a mãe de seus filhos.

Assim começa Norma, ópera em dois atos e cinco cenas de Vincenzo Bellini sobre libreto de Felice Romani, com base na tragédia Norma, ou L’infanticide (Norma ou o infanticídio), de Louis-Antoine-Alexandre Soumet, que abre a temporada lírica 2017 do Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

 

Eficiência

Para a primeira montagem da grande obra-prima de Bellini na capital mineira, o encenador argentino Pablo Maritano propõe ambientá-la em um futuro distópico. Inspirado em Albert Einstein (que disse em uma entrevista em 1949: “Não sei com que armas a III Guerra Mundial será lutada. Mas a IV Guerra Mundial será lutada com paus e pedras”), o diretor apresenta em cena um mundo devastado, no qual as relações interpessoais ganham relevância e ficam em evidência.

Estranho? Talvez estranho à primeira vista, principalmente quando Pollione e Flavio entram em cena com trajes e armas que lembram filmes de ficção científica, mas a verdade é que, no palco, tudo funciona com grande eficiência, pois os artistas em cena compram a visão do diretor e mergulham de cabeça na proposta. A entrega de todos é bastante perceptível.

O ambiente inóspito imaginado pela direção ganha materialidade nos impecáveis cenários de Jô Vasconcellos e Miriam Menezes, totalmente integrados à concepção da montagem. Tais cenários, por sua vez, são enriquecidos pela belíssima luz de Fábio Retti, que ajuda a criar uma visão do palco ao mesmo tempo crua e atraente.

Sayonara Lopes é extremamente criativa na elaboração dos figurinos, que, quando vistos de perto, revelam que a artista foi buscar no lixo inspiração para a sua realização, valendo-se de cápsulas de café e potinhos de iogurte usados. E vale destacar, ainda, o bom trabalho de Lázaro Lambertucci na maquiagem e caracterização.

 

Fluência

Se a encenação funciona muito bem, e se os artistas no palco, como dito acima, mergulham de cabeça na proposta da direção, isso não seria suficiente para o sucesso da encenação se Maritano não tivesse encontrado, na direção musical do espetáculo, um parceiro que também comprasse sua ideia. O maestro Silvio Viegas, ao propor, além dos cortes de tradição, também os de excesso de repetição, consegue dar grande fluência ao espetáculo, empregando uma leitura bastante atualizada da música de Bellini, sem deixar de respeitá-la em momento algum. A adequação de tempos e dinâmicas às vozes à disposição da produção reforça ainda mais esse caráter fluente que se nota do início do ao fim.

E na récita de estreia, em 21 de abril, foi evidente o quanto a ópera estava na mão do maestro. Viegas conduziu-a com extrema segurança. Um dos momentos mais fascinantes de integração entre o palco e o fosso foi o dueto para soprano e mezzosoprano, na segunda cena do primeiro ato. Com seu trecho final cantado a cappella, foi possível verificar o quanto as cantoras estavam “na mão” do regente.

A Orquestra Sinfônica de Minas Gerais esteve sempre muito bem, respondendo com competência e boa sonoridade à leitura fluida acima mencionada. Impossível não destacar o belo solo de violoncelo de João Cândido na segunda cena do primeiro ato. Já o Coro Lírico de Minas Gerais, preparado por Lara Tanaka, apesar de alguns desencontros entre suas próprias vozes no primeiro ato, ofereceu uma boa récita no geral, com destaque para as passagens do segundo ato Non parte! e Guerra, guerra!.

Dentre os solistas, o tenor Lucas Ellera não comprometeu como Flavio. Por sua vez, a mezzosoprano Aline Lobão, destacada pelo Movimento.com em seu balanço da temporada lírica nacional como uma das revelações de 2016, deu vida a Clotilde com grande desenvoltura. A propósito, é a primeira vez, em tantos anos acompanhando óperas por aí, que testemunho uma artista se destacar consideravelmente cantando apenas recitativos. Lobão é um diamante bruto que, se for adequadamente lapidado, poderá alçar grandes voos artísticos. E o desenvolvimento de sua voz já está pedindo voos maiores.

O baixo Sávio Sperandio viveu Oroveso com maestria, exibindo sua ampla projeção e uma presençaa marcante. Seu Ah! Del Tebro al giogo indegno, acompanhado pelo coro, foi um momento bastante musical.

Já a mezzosoprano Denise de Freitas, outra artista destacada em nosso balanço da temporada passada (melhor cantora de 2016, por sua participação na montagem de Adriana Lecouvreur, no Theatro São Pedro), foi uma Adalgisa impecável, sempre protagonizando duetos importantes. A artista entrou no palco para atacar com bravura o primeiro desses duetos, com Pollione: Va’, crudele, al Dio spietato. Em seguida, vieram as duas grandes cenas ao lado de Norma: a do fim do primeiro ato, Sola, furtiva, al tempio, e a do começo do ato final, Deh! Con te, con te li prendi, em que a artista pôde exibir toda a sua gama de recursos vocais e interpretativos. Dona de uma voz estupenda, poderosa e expressiva, a mezzosoprano ofereceu ao público do Palácio das Artes mais uma de suas performances marcadas pela excelência.

Coube à soprano Eiko Senda interpretar a protagonista. À sua Norma faltou refinamento em algumas passagens, especialmente na primeira parte do primeiro ato, quando sua célebre cavatina, Casta diva, e a respectiva cabaletta, Ah! Bello a me ritorna, passaram apenas corretas. Já a partir da segunda cena do ato inicial, com o supracitado primeiro grande dueto com Adalgisa, a atuação da artista cresceu. O começ do segundo ato trouxe o dramático recitativo Dormono entrambi, no qual a artista interpretou bem os sentimentos conflitantes experimentados entre a mãe amorosa e a amante traída, e o segundo grande dueto com a mezzosoprano.

No final desse ato derradeiro, restava ainda à soprano seu intenso dueto com Pollione, In mia man alfin tu sei, e a cena da revelação de sua traição aos votos de castidade, seguida pelo belíssimo ensemble Qual cor tradisti, qual cor perdesti, muito bem cantado por todos. Se, como acima mencionado, pode ter-lhe faltado refinamento vocal em algumas passagens, no geral Senda ofereceu uma atuação bastante convincente da sacerdotisa druida.

Nessa inspirada noite de música, havia um rei: Fernando Portari. Como Pollione, o tenor ofereceu uma performance não menos que brilhante e arrebatadora. Como já escrevi em outra oportunidade, Portari desfruta atualmente, tal qual uma Denise de Freitas, da sua plena maturidade vocal. O que ele fez no palco do Palácio das Artes deveria ir direto para um CD ou DVD digno do mercado internacional: um Pollione definitivo. Sua voz passeou pela casa com musicalidade extrema: agudos retumbantes, pianíssimos delicados e expressivos e técnica primorosa foram algumas de suas armas desde sua cavatina, Meco alla altar di Venere, seguida da respectiva cabaletta, Me protegge, me difende, ambas cantadas com bravura.

Daí em diante, em uma série de números de conjunto, o tenor brilhou ao lado de seus companheiros, como nos supracitados duetos com Adalgisa e Norma. Talvez a cena mais emblemática da noite, o terceto que encerrou o primeiro ato, cantado pelo tenor ao lado da soprano e da mezzosoprano, Ah! Di qual sei tu vittima, exibiu claramente ao público o último nível musical geral do espetáculo. De onde quer que esteja, seu Pedro, o pai coruja e apaixonado pela arte do filho que estava sempre presente nas performances do rebento, deve ter dado um belo sorriso de satisfação.

A Norma em cartaz em Belo Horizonte é defendida por uma produção fluente e eficiente, e, por isso mesmo, merece a visita do público mineiro e brasileiro, sobretudo nessa época de programação lírica rarefeita e incerta em todos os cantos do país. Quando esta resenha for publicada, ainda haverá três récitas pela frente, nos dias 25, 27 e 29 de abril.

A próxima ópera encenada em Belo Horizonte será a imperdível Porgy and Bess, de Gershwin, com récitas em 21, 23, 25, 27, 29 e 31 de outubro. Antes, em 29 e 30 de agosto, I Pagliacci, de Leoncavallo, será apresentada em forma de concerto.

Fernando Portari (Pollione), Eiko Senda (Norma) e Denise de Freitas (Adalgisa)

 

Público jovem

Sempre que vou a Belo Horizonte, a sensação é a mesma: o Palácio das Artes ostenta, já há muitos anos, o público mais jovem de ópera no Brasil. Se fosse feita uma pesquisa para apurar a média de idade dos frequentadores de espetáculos de ópera nos mais importantes e regulares teatros líricos brasileiros, não tenho a menor dúvida, Belo Horizonte ganharia de barbada o título de plateia mais jovem.

 

Norma no Rio
Norma também será apresentada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas em forma de concerto, nos dias 1, 4 e 6 de maio. Em comum com a produção mineira apenas a mezzosoprano Denise de Freitas, que assume o papel de Adalgisa nas duas últimas apresentações. Mais detalhes aqui.

 

Festival Amazonas de Ópera

O Festival Amazonas de Ópera, que passaria a se realizar a cada dois anos, mudou de novo e, aparentemente, voltou a ser anual. A secretaria de Cultura do Amazonas divulgou semana passada a realização do XX FAO (detalhes aqui). A programação de óperas encenadas (somente duas), porém, continua bem fraca, repedindo a edição anterior do evento. Um título como Tannhäuser sempre chama a atenção à primeira vista, mas, quando descemos aos pormenores da produção, a empolgação se esvai. É pena.

 

Fotos: Paulo Lacerda/FCS

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com