CríticaMusical

Fla x Flu de levantar a arquibancada

Rivalidades à parte, a peça Emilinha e Marlene – As Rainhas do Rádio une os fãs das duas cantoras em espetáculo fascinante.

 

Tão clássica como um Fla x Flu, a rivalidade entre os fãs das cantoras Emilinha Borba e Marlene remonta ao final dos anos 1940, com a vitória desta sobre aquela (favorita) no concurso de Rainha do Rádio, promovido pela Associação Brasileira de Rádio, em 1949.

Os emilinistas afirmam que a “mera” crooner do Copacabana Palace só ganhou porque uma companhia de bebidas comprou milhares de votos (que eram vendidos pela Revista do Rádio). Já os marlenistas dizem que a tal favorita sequer ficou em segundo lugar (foi a terceira colocada, atrás de Ademilde Fonseca).

Essas e outras deliciosas histórias da época em que todo mundo se sentava à sala (ou se debruçava na janela do vizinho) para ouvir o rádio estão na peça Emilinha e Marlene – As Rainhas do Rádio, que entra novamente em cartaz a partir de 5 de janeiro de 2012 no Teatro Maison de France, no centro do Rio. A brincadeira já começa na plateia: os assentos da direita são para emilinistas; os da esquerda, para marlenistas. Mas não há rivalidade que sobreviva ao delicioso e empolgante espetáculo.

O texto de Thereza Falcão e Júlio Fischer, que teve como base a pesquisa de Eva Joory e Rodrigo Faour, faz uso de um truque dramático simples – duas irmãs, uma emilinista (Angela Rebello) e outra marlenista (Rosa Douat), arrumam a casa após a morte da mãe e fazem um acerto de contas de uma vida inteira de rivalidades – para trazer à cena a trajetória das duas artistas, interpretadas por Vanessa Gerbelli (Emilinha) e Solange Badim (Marlene).

Antônio de Bonis, diretor com larga experiência em musicais – Lamartine para Inglês Ver (1989), Dolores (2000),  Orlando Silva, o Cantor das Multidões (2004, com Fátima Valença), entre outros –, conduz a cena com agilidade e elegância, apoiado pelo cenário funcional de Sérgio Marimba, na bela iluminação de Maneco Quinderé, no competente visagismo de Uirandê Holanda e nos exuberantes figurinos de Rosa Magalhães.

As protagonistas Gerbelli e Badim brilham em seus papéis, sendo que esta encontra em Marlene um personagem que oferece mais possibilidades, todas elas bem aproveitadas (para o qual a preparação corporal de Márcia Rubin muito deve ter contribuído). Mesmo não sendo cantoras, as atrizes, que contaram com preparação vocal de Mona Vilardo, empolgam.

Sob regência de Cristina Bhering (também ao piano), os músicos Affonso Neto (bateria), Clay Protásio (baixo), Jonas Corrêa (trombone), Eduardo Santana (trompete) e Gabriel Gabriel (saxofone) fazem um bonito trabalho e ajudam a levantar a plateia em canções como Tomara que Chova, Que nem Jiló, Escandalosa e Tem Francesinha no Salão.

O ótimo elenco de apoio também não deixa a peteca cair. Além de Douat e Rebello (que conduz a tietagem da sua personagem com emoção e dignidade), Stella Maria Rodrigues, Luiz Nicolau, Cilene Guedes, Mona Vilardo, Ettore Zuim e Cédric Gottesmann se revezam nas outras personagens, entre elas divertidas recriações de Cauby Peixoto (Nicolau) e Bibi Ferreira (Cilene).

Se, como dizia o jornalista Mário Filho, “a rivalidade entre Emilinha e Marlene é o Fla x Flu dos que não gostam de futebol”, a peça é um gol de placa que alegra a todas as torcidas.

 

13 Comments

  1. Olá Fabiano, adorei tudo o que acabei de ler a respeito do espetáculo “Emilinha e Marlene – As Rainhas do Rádio”. Sou sobrinha da Emilinha, estive na pré estreia e fiquei muito emocionada, vivenciei muitas coisas que foram tão bem desenvolvidas na peça e precisei voltar outro dia com um grupo de adolescentes e da terceira idade, que fazem parte do nosso “Espaço Cultural A Era do Rádio” (Sepetiba). A sensação foi de muita saudade e de muita alegria por proporcionar que relembrassem o auge dos programas de rádio e ouvir meu neto de 9 anos chegando à conclusão de que Marlene era cantora pop, mas que não imaginava o quanto tia Emilinha era carinhosa e meiga com os fãs e suas músicas eram mais bonitas e entendeu, que ela só perdeu o concurso por causa do tal cheque em branco e seus fãs não gastaram mais dinheiro no concurso e por esse motivo ficou em terceiro lugar.
    Achei interessante a atenção e entendimento que ele teve apesar de tão criança, só podemos atribuir ao brilhante espetáculo lindamente escrito, produzido e apresentado por um elenco fantástico. Solange Badin, está maravilhosa como Marlene e Vanessa Gerbelli … senti muita emoção ao abraçá-la, sua interpretação está perfeita. Vou aguardar o retorno dia 5/01/2012. Feliz Natal e que o Ano Novo lhe traga muitas alegrias e sucesso.

  2. Eliana, fiquei muito feliz em perceber que meu texto contribuiu (um pouquinho!) para trazer à tona em você o orgulho de ser sobrinha de uma das mais importantes artistas da Música Popular Brasileira. Retribuo seus votos de Boas Festas e deixo meu abraço!

  3. Fabiano,

    Como sempre, seu texto é preciso e descreve o espetáculo com a mesma alegria de quem assistiu. É uma delícia ver e ouvir sentada na plateia. Lembramos de nossas avós, mães e todas aquelas que ouviam os programas de rádio e que também tinham suas preferidas. Na minha casa eram todas “emilinistas”.
    Feliz Natal e que em 2012 tenhamos excelentes espetáculos em nossos teatros.

  4. Um musical em que Marelene vence Emilinha outra vez!!!! Solange Badin dá um shou interpretando Marlene, que claro, lhe oferece as ferramentas necessárias para seu melhor desempenho. Ela é o espetáculo e Marlene agradece!!!!!

  5. Admirador frequentador e crítico… assim assisti ao espetáculo por você analisado… Concordo com tudo e acrescento… exagero em ambas interpretações… o misancene de Marlene não era tão quebrada de braço, que até fica feio na atriz e com o personagem da Emilinha, a atriz se esmerou em demasiados trejeitos que a própria não tinha. Os figurinos da Marlene pecam pelo mau gosto, coisa que não foi na realidade. Marlene foi por diversas vezes eleita entre as mais elegantes… ao contrário a personagem da Emilinha está até bem melhor que na real vida, pois nem eram tão charmosos assim, mas isso não diminiu o valor do espetáculo. É de bom gosto na trilha sonora e os atores fantásticos. Quem faz a Bibi está esplêndida! O Caubi sensacional e a fan marlenista como a emilinista, maravilhosas…parabéns…! Teu texto está inteiro…li e guardei…pelo que senti, você sentou-se do lado esquerdo, não? Abraços

  6. Até hoje nao entendi, porque a Marinha não ajudou a sua favorita na eleição de rainha do rádio?
    Ademilde tinha a ajuda do Assis e nunca se revoltou por ter perdido o pleito! Ora, não me venham com baboseiras: Marlene ganhou porque apresentou maior venda de votos…não era esse o intuito? Gerou então a oportunidade de ter uma rainha com talento que entrou para a história da música, do teatro e porque não dizer…dos palcos brasileiros! Viva Marlene, Viva Emilinha, Viva a Música!
    27TA

  7. Há pessoas que não evoluem nunca. Dizer que Marlene vence Emilinha outra vez, é no mínimo patético. Esse musical apenas confirma o que todo o Brasil conhece: Nunca na história da MBP houve artista mais amada que Emilinha Borba. Deus foi maravilhoso com ela, a levando na hora certa, bela e sem sofrimento.

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com