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Filarmônica MG traz Schubert em gravação comercial

Neste mês de julho, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais lança a sua primeira gravação comercial.

O conjunto comandado por Fábio Mechetti traz um CD muito bem produzido com um repertório que me surpreendeu: a 9ª sinfonia de Schubert, em dó maior, “A Grande”.

Sempre ouvi o vocabulário sinfônico de Schubert como algo meio ambíguo, inclassificável. Uma estética de lastro clássico, mas já intencionalmente romântica. Um discurso sonoro bastante pessoal, que mesmo nos tutti, não engana: é delicadíssimo, intimista que só. Gênio da canção e das pequenas formas, Schubert sempre irradia uma nuance de melancolia no trato harmônico ou no apuro de suas melodias. A melancolia dos poetas, das almas tocadas, de pouca e urgente vida…

Ele não viveu para ouvir o resultado de sua nona. A kamagra jelly india estreia ocorreu mais de dez depois de sua morte, ocorrida em 1828. Como qualquer compositor de sua linhagem – Brahms é um exemplo perfeito – Schubert também sentira o peso de criar sinfonias após Beethoven ter imprimido suas excelsas digitais ao gênero. Mas, mesmo desmerecido em vida, soube Schubert trilhar o seu caminho criativo. Sua nona impressiona: 50 minutos. Mas não é apenas grande em tamanho e sim em inventividade também. Lá estão a rica costura melódica, a sucessão dos temperamentos. Tudo engendrado numa força coletiva que vai avançando de forma tão natural quanto uma canção – obra de gênio.

A gravação que a Filarmônica mineira nos oferta é meritória. Se a intenção, ao escolher este sutil gigante sonoro do repertório, foi mostrar qualidade de conjunto e seus recursos expressivos, posso asseverar-lhes: conseguiram. Muita coisa está lá quando se pensa em Schubert – o lirismo bem dosado, a linha melódica com um fluente cantabile, senso de equilíbrio e texturas bem apuradas, nunca rarefeitas, tampouco densas demais. As cordas estão exatas e as madeiras sugestivamente poéticas.

É de se notar a sonoridade em processo de amadurecimento para um conjunto sinfônico que, para os padrões musicais, ainda está na aurora de sua própria história. Posto que facilmente sujeita ao vício das comparações, considero esta gravação ousada. Ela parece declarar, acima de tudo, o anseio por uma identidade musical própria, séria e sólida.

Fato é que, com este primeiro registro, a Filarmônica avança um passo mais como figura de proa na música de concerto brasileira. Em 2015, a orquestra já deverá atuar em sua sede própria, uma sala de concertos em construção e que promete ser de classe mundial.  São auspiciosas as realidades e os planos. E que estes sejam perenes, no desafio insólito de se empreender cultura em nosso País.

 

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1 Comment

  1. Caro Leonardo, Universal é quem canta a própria aldeia, e fica a sugestão ao maestro e ao conjunto para investirem na música brasileira.

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Leonardo Steffano
Jornalista profissional, acompanha a cena musical de Belo Horizonte desde 1992. Estudou trompa, iniciação musical (UFMG) e cantou durante dez anos no Madrigal Renascentista, tendo participado de gravações e apresentações no Brasil e na Europa. Foi assistente do filósofo e professor Moacyr Laterza (1928-2004).