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Festival de Viena 2013

A programação concluiu a trilogia de Verdi, celebrando o bicentenário de nascimento do compositor.

Organizado pela Prefeitura de Viena, o festival que leva o nome da capital austríaca marcou a despedida de seu Diretor Artístico nos últimos dezesseis anos, Luc Bondy, bem como a de Stefanie Cary, Diretora da Divisão de Teatro, e Stéphane Lissner, Diretor da Divisão de Música. Durante suas  gestões, eles foram responsáveis pela maior internacionalização do Festival. De 10 de maio a 15 de junho foram apresentadas 41 produções, vindas de 36 países, dentre elas 10 estreias mundiais, 4 novas produções, e 12 obras comissionadas.

A programação concluiu a trilogia de Verdi, celebrando o bicentenário de nascimento do compositor, com uma nova produção de “Il Trovatore”, pelo diretor de cinema e de ópera Philip Stölzl, regida por Omer Meir Wallber, numa versão com toques surrealistas. Sobre esta obra, o próprio Verdi escreveu: “Dizem que nesta ópera há muitos mortos. Mas, afinal, na vida tudo não acaba em morte?” Esta versão causou polêmicas, mas foi um sucesso. Quase um sucesso de escândalo.

Do compositor inglês George Benjamin,que até agora só tinha composto óperas curtas, foi apresentada sua primeira e muito aguardada ópera longa, “Escrito sobre pele”, libreto de Martin Crimp, dirigida por Katie Mitchell, sob a regência de Kent Nagano. Estreada no ano passado, no Festival de Aix-en-Provence, que a comissionou, esta ópera está sendo o grande sucesso na Europa. Baseada numa balada provençal do século XIII, ela conta a história de um senhor feudal que contratou um artista para ilustrar, com iluminuras, num livro em pergaminho, seus grandes feitos. Vivendo e trabalhando no castelo, o artista é seduzido pela mulher do mecenas, querendo provar sua independência, e querendo ser compensada de suas frustrações de mulher negligenciada. Com final trágico, a música expressa as motivações profundas dos protagonistas com pungente eloquência.

O projeto “Na Cidade”, ofereceu duas estreias mundiais: o drama musical  JOIN!, de Franz Kogelmann, e “A Balada de El Muerto”, um drama musical de Diego Collatti. Os dois dentro da série “Música e Política”, que focaliza o significado social da música dos nossos dias. Esta série incluiu também vários concertos e workshops, e acaloradas discussões.

O tema central das artes do espetáculo foi a mostra e várias performances de “A inquietação da forma”, um projeto que dominou vários espaços na sede da “Secession” (pedra de toque do modernismo histórico austríaco), da Academia de Belas Artes, e outros, no Quarteirão dos Museus. Combinando artes visuais e artes do espetáculo, os eventos ofereceram intervenções artísticas, palestras, concertos e antevisões políticas, através de situações criadas por identidades fictícias e linguagens experimentais, bem como discursos políticos inventados por escritores austríacos. O projeto desafiou instituições tradicionais e atraiu público jovem, entusiasta e ávido de inovações.

Este programa também ofereceu oito estreias mundiais. Todas elas exploraram as interações entre a experiência privada e o espaço político, combinando drama, dança e performance. O diretor Nicolas Stemann e um grupo de artistas, por exemplo, se trancaram dentro de um teatro e se bombardearam mutuamente, durante 120 horas ininterruptas, com noticiários políticos. Uma experiência atordoante que ampliou os noticiários da televisão moderna com que o grande público é bombardeado diariamente. Os acontecimentos correntes foram transformados em energia teatral, e se chamou “Comuna da Verdade”. O público entrava e saia, dependendo de quanto cada um pudesse aguentar.

Dentre os outros espetáculos de vanguarda, destacou-se “Os últimos dias: uma véspera”. Produção encenada dentro da sala do plenário do Parlamento Austríaco, com música de compositores austríacos exilados de Viena por razões políticas e raciais, bem como textos que tratavam do rearmamento nacional, antes da Primeira Guerra Mundial, e também textos sobre o atual surto de nacionalismos e correntes racistas na Europa de hoje. Este espetáculo foi um verdadeiro grito de alerta.

O Residenztheater de Munique, dirigido por Martin Kusy apresentou a trilogia de peças sob o titulo geral de “Em Agonia”, de Miroslav Krleza, na qual o Autor aborda a desintegração do Império dos Habsburgos, do ponto de vista da Croácia. Este autor, ostracizado durante décadas, emerge agora à tona, como uma das grandes redescobertas literárias europeias dos anos recentes. O espetáculo, de seis horas de duração e dois intervalos, esplendidamente produzido, constituiu-se numa das grandes revelações do Festival.

Luc Bondy dirigiu o “Tartufo”, de Molière, em trajes modernos, com gandes atores do Burgtheater, em alemão. E, em francês, ele dirigiu “Le Retour”, do já clássico do teatro moderno “The Homecoming”, de Harod Pinter, em co-produção com o Odéon-Théatre de l”Europe, de Paris. Em ambos os casos, um triunfo artístico de Luc Bondy, em sua despedida de Viena.

Robert Lepage, do Canadá, é considerado pela crítica europeia e pela norte-americana como o maior diretor de teatro hoje, o mais criativo, o mais ousado, o mais original, o mais surpreendente. Ele nunca se repete e cria novas propostas em cada novo espetáculo. Esta vez, ele trouxe “Jogando Cartas”. Parte de uma longa tetralogia, o espetáculo contrapõe Las Vegas e sua jogatina de hoje com a Bagdad da época da invasão norte-americana do Iraque.

Com 52 personagens (o número de cartas que compõem um baralho), representados por apenas seis atores, em francês, inglês e castelhano. Temas entrelaçados: os demônios pessoais, as  identidades das cidades, a guerra, a decadência, a redenção. O espetáculo mais original do Festival. O nome de Robert Lepage correu o mundo há dois anos, quando dirigiu, para a Metropolitan  Opera de Nova York, a tetralogia do “Anel do Nibelungo”, de Wagner, que também foi transmitida via satélite para cinemas em 50 países.

A Argentina compareceu com “Cineastas”, do dramaturgo e diretor Mariano Pensotti. Uma peça sobre quatro diretores de cinema em Buenos Aires, que falam como  projetam suas vidas em seus filmes, e como os seus filmes afetam suas vidas. Como atuam sobre nós ficção e realidade? Um espetáculo de quatro histórias simultâneas e entrelaçadas, que faz pensar.

O Brasil foi convidado a participar com dois espetáculos: um de teatro e outro de dança. “Júlia”, de August Strindberg, numa versão brasileira de Christiana Jatahy, contrapõe a filha de um milionário carioca e seu jardineiro negro, numa parábola sobre o latente racismo social no Brasil, numa combinação de teatro e vídeo. Bruno Beltrão e seu Grupo de Rua de Niterói apresentaram “Dança morta”, um espetáculo coreográfico de alta virtuosidade que combina elementos de capoeira e recursos e ideias experimentais de dança de vanguarda, amalgamados numa só expressão. Ambos os espetáculos brasileiros foram muito aplaudidos, por públicos de todas as idades.

A Itália, o Japão, a Austrália e a Inglaterra também contribuíram com espetáculos de muito interesse. Juntamente com as salas do Musikverein, as salas do Konzerthaus são os grandes centros da vida musical de Viena. Em 2013, o Konzerthaus, construído em arquitetura Jugendstil, art nouveau, celebra seu centenário. Todo ele restaurado, o Konzerhaus  apresentou as grandes produções sinfônicas e camerísticas das Wiener Festwochen, nome alemão do Festival de Viena, numa série magnífica de concertos, em maio e junho, com especiais destaques para as apresentações das Filarmônicas de Viena, Berlim, Nova York, Londres e Estônia, o Orquestra e Coro do Teatro Regio di Torino, a Camerata Salzburg, a Sinfônica de Viena, a Sinfônica da Rádio de Viena, e o Orfeão da Catalunha.

Dentre os regentes, Sir Simon Rattle, Marc Minkovski, Sakare Oramo, Esa-Pekka Salonen, Alan Gilbert, Gianandrea Noseda (o novo regente da Filarmônica de Israel), James Conlon, Tugan Sokhiev e Kent Nagano. Dentre os solistas, Emanuel Ax, Hilary Hahn, Joshua Bell, Barbara Frittoli, Rudolf Buchbinder, Anne Sofie von Otter, Alisa Wellerstein. No repertório, sinfonias de Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Mendelssohn, Brahms, Dvorak, Bruckner e Mahler, e composições modernas e contemporâneas, e uma apresentação concertante do “Navio Fantasma”, de Wagner, a “Carmina Burana”, de Orff, e muito mais. No Musikverein, ChristianThielemann  regeu a Staatskapelle de Dresden, num memorável concerto com peças de Wagner.

Na programação camerística, destacaram-se o Quarteto Hagen, o Trio de Piano de Viena, o Quarteto Belcea, e o Quarteto Mosaïques. Dentre os recitalistas, Maurizio Pollini, Till Fellner,rRudolf Buchbinder, Arcadi Volodos e Georg Nigel. No Musikverein, Matthias Goesne, com Christian Eschenbach ao piano, ofereceram os três grandes ciclos de Lieder de Schubert: “Die schöne Müllerin”, “Winterreise” e “Schwanengesang”.

A ópera celebrou o bicentenário de nascimento de Richard Wagner, com novas produções de “Götterdämmerung”, “Die Walküre”, e “Tristan und Isolde”, com os maiores cantores wagnerianos de hoje.

Uma novidade de destaque, foi a incorporação da Ópera de Câmara de Viena ao Theater an der Wien, embora aquela continue atuando em sua sede própria, no centro histórico de Viena. Na programação de 2013, estão sendo apresentadas “La cambiale di matrimonio”, de Rossini, “Verkehr mit Gespenstern”, de Bose, “La Bohème”, de Puccini, “Curlew River/The Prodigal Son”, de Britten, e “Orlando”, de Händel, o grande sucesso durante o Festival. Para a temporada de outubro deste ano a julho de 2014, estão previstas “Semiramide”, de Händel, “La cenerentola”, de Rossini, “Mare Nostrum”, de Mauricio Kagel, “La Clemenza di Tito”, de Mozart, e “Punch and Judy”, de Birtwistle. A Kammeroper é subsidiada pela Prefeitura de Viena.

A programação geral para o Festival de Viena de 2014 será anunciada no primeiro trimestre do ano novo.

 

Para mais informações, acessem http://www.wiener%20festwochen.at/ 

Para mais informações, acessem http://www.festwochen.at/

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.