Notícia

Festival de Viena 2012

Literalmente Semanas Festivas Vienenses, as Wiener Festwochen foram iniciadas em 1927.

Interrompidas durante a Segunda Guerra Mundial, foram reiniciadas em 1951 e têm lugar na capital austríaca, entre maio e junho, anualmente. Dada a sua abrangência, o Festival de Viena é hoje o maior encontro das artes, reunidas durante seis semanas numa só cidade. Verdadeira celebração, este evento, organizado pelo Departamento de Cultura da Prefeitura de Viena, oferece espetáculos de ópera, teatro, concertos, exposições de arte, cinema, dança, literatura, mesas redondas, encontro com artistas e mais. Suas linhas mestras consistem numa reaquilatação do passado, uma valorização do presente, uma antecipação do futuro.

Sob a orientação do Diretor Artístico Luc Bondy,  direção teatral de Stefanie Carp e a direção musical de Stéphane Lissner, o Festival de 2012 apresentou quase quarenta produções, de 11 de maio a 17 de junho, incluindo dez estreias mundiais, dez obras comissionadas e várias premieres europeias vindas de 24 países, num total de duzentas apresentações. A inauguração foi feita pelos sete finalistas do Concurso Musical de Jovens da Eurovisão, com novas obras para instrumentos de metais e percussão.

Duas produções de óperas marcaram o encontro do passado e do presente: uma nova visão da “Traviata”, de Verdi, no Theater an der Wien, sede do Festival, e a ópera “Quarteto”, do compositor italiano Luca Francesconi, na produção original de Milão, dirigida por Alex Ollé. Na concepção da diretora Deborah Warner, o destino de Violeta, na Traviata, é decidido por vontade própria: a perda consciente. Ambientada no presente, a morte da heroína não se dá, como tradicionalmente, numa pobre água-furtada, mas na sala de emergência de um hospital público. A soprano russa Irina Lungu, excelente também como atriz dramática, fez da noite um triunfo pessoal.

Luca Francesconi é hoje uma das grandes revelações no mundo da ópera. “Quarteto”, inspirada em “As relações perigosas”, de Choderlos de Laclos, é uma obra multimídia, com apenas dois personagens, que reinterpreta aquele clássico em termos de solidão, decepção, sado-masoquismo e mútua destruição do Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil. Ampliada por um sistema eletro-acústico, a música atinge alta dramaticidade tanto orquestral (Orquestra dell’Accademia del Teatro alla Scala), como vocal (Allison Cook e Robin Adams), numa escrita atonal.

As novas encenações da Ópera Estatal de Viena, apresentadas paralelamente ao Festival, se destacaram principalmente com “La Clemenza di Tito”, uma das últimas obras primas de Mozart, estrelada por Michael Schade e Elina Garanca, a mezzo-soprano sensação internacional hoje; “Arabella”, de Richard Strauss, com Renée Fleming; “Lucia di Lammermoor”, de Donizetti, com Diana Damrau, a soprano alemã em ascendência; “Roberto Devereux”, de Donizetti, com Edita Gruberova.

A Volksoper, equivalente vienense da Opéra Comique de Paris, contribuiu com duas novas produções: “O rapto do serralho”, de Mozart, e “Madame Pompadour”, de Leo Fall, uma opereta-paródia sobre o poder da influência sexual nas decisões políticas. Com cenários e figurinos deliberadamente kitsch, o espetáculo atinge seus propósitos, embora seja mais falado que cantado.

Os destaques da programação musical foram vários e de naturezas distintas. Por um lado, apresentações de música da Turquia, combinando Punk e ritmos tradicionais, cantos turco-curdos, ritmos balcânicos com inovações eletro-acústicas, além de apresentações etnográficas. Tudo isso no Bairro Número Dez, em torno da Viktor-Adler- Platz, que concentra atualmente uma grande população de imigrantes turcos.

Por outro lado, o Musikverein, a mais bela das salas de concerto da Europa, e a de melhor acústica, ofereceu o ciclo integral das sinfonias de Anton Bruckner, pela Staatskapelle Berlin, talvez a orquestra mais antiga da Europa, regida por Daniel Barenboim, numa empreitada monumental. Cada uma das sinfonias foi precedida por um concerto para piano e orquestra de Mozart, tendo como solista e regente o próprio Daniel Barenboim, portanto um ciclo paralelo, este também uma iniciativa de fôlego.

Também no Musikverein, uma apresentação memorável dos “Gurre-Lieder”, de Arnold Schönberg, com a Filarmônica de Viena, coros e solistas, sob a regência de Zubin Mehta. Outros concertos da Filarmônica, com música de Mozart, Schubert, Debussy, Schönberg e Bartók, reuniram regentes e solistas do quilate de Pierre Boulez, Riccar- do Muti e Daniel Barenboim. A Sächsische Staatskapelle Dresden, com Colin Davis, num programa Mozart, e a Sinfônica de Viena, com Fabio Luisi, coros, solistas e órgão, numa rara apresentação do “Livro de Sete Selos”, de Franz Schmidt. Some-se ainda muitas apresentações de música de câmara e recitais de piano e de canto, com especial destaque ao recital do barítono alemão Mathias Görne, num programa que reuniu canções de Shostakovitch e Lieder de Mahler, na Ópera lotada.

Na programação de cinema, é preciso mencionar as sete noites de cinema experimental, não-comercial, com novas produções de jovens cineastas independentes, que trabalham hoje na Áustria e em vários países europeus, na linha do Co-op de Londres, e de sua contrapartida de Nova York, ambos fundados em 1966. A divisa que definiu a jornada foi “Into the City/Gran Lux: do-it-yourself filmlabors and experimental cinematography from Europe”. Ao mesmo tempo, foram realizadas transmissões radiofônicas experimentais sob a epígrafe: “Paraísos artificiais: eu não sei para onde eu vou, mas vou tentar chegar ao reino”. Tema principal: a questão das drogas como contra-corrente na sociedade “mainstream”.

Outro setor básico do Festival é o teatro de prosa, que este ano ofereceu dez estreias mundiais em várias línguas. Numa co-produção do Festival e do Burgtheater, o teatro nacional austríaco criado no século XVIII, e tido como o templo da língua alemã  padrão, falada no palco, Luc Bondy dirigiu a nova peça de Peter Handke “Os belos dias de Aranjuez” (baseado numa frase do “Don Carlos’, de Schiller), onde um casal maduro discorre sobre a magia do primeiro momento do amor e da possível existência de  regras que regulem sua durabilidade. Outra peça comissionada em Viena foi “Mácula”, de Peter Hochgatterer, um texto sobre o que vemos, o que não vemos, e o que pensamos que vemos.

Foram substanciosas as contribuições de diversos países da América Latina. A coreógrafa argentina Constanza Macras, residente em Berlim, lançou um espetáculo que conjuga dança e drama, sobre os Roma, os ciganos da Europa Central que hoje, graças às facilidades garantidas pela União Europeia, se estabeleceram em todo o Continente, e mais além. Seu título é “Aberto para tudo” e reúne músicos, atores e dançarinos e aborda o racismo aberto de que são vítimas: uma jornada que nos revela uma cultura, e que nos obriga a mergulhar dentro de nós mesmos.

Lola Aria, autora e diretora, também argentina, levou “Melancolía y manifestaciónes”. Sua mãe a teve em 1976, quando a Junta Militar tomou o poder. Nisso, ela caiu numa depressão pós-parto, que dura até hoje. A peça indaga: quão política pode ser uma doença, e quão privado é o protesto?

“La vida después”, um espetáculo sobre a geração que faz teatro na Argentina, no Chile, no México e na Colômbia hoje, portanto na era que sucedeu às ditaduras militares, e fala de seus pais, mortos pela violência daqueles regimes. A apresentação foi seguida de tumultuados debates na sala de imprensa do festival.

“Villa+discurso”, do chileno Guillermo Calderón, apresenta três mulheres que têm de decidir como prestar homenagem à memória das vítimas de Pinochet, torturadas na hoje histórica Villa Grimaldi. Um dos dilemas expostos: a reconciliação é possível?

Do México, veio “Lagartixas esticadas ao sol/o som do incêndio”, uma peça-performance multimídia sobre as guerrilhas de 1950-1960 e suas vinculações vom o presente. Como é que se muda um país? Que formas pode assumir hoje a dissidência política? Baseado em exaustiva documentação, o espetáculo é um desafio às posturas de hoje.

Da Colômbia, veio a trilogia “La maldita vanidad/sobre alguns asuntos de familia”, de Jorge Hugo Marín, um texto hiper-realista que retrata a sociedade colombiana atual, e sua luta para superar a violência para-militar e a herança do cartel de drogas. A ação se passa numa festa, em Bogotá, que dura a noite inteira. E, ao longo das horas, desenrolam-se as contradições e as propostas.

A Inglaterra mandou ‘The Master and Margarita”, de Simon McBurney, baseada no romance homônimo de Michail Bulgakow, um dos grandes textos literários do século. Nessa sátira soviética, um escritor queima a sua novela, uma mulher vai e volta do inferno para salvar seu amante e Pôncio Pilato discute com Jesus sobre a natureza do valor da vida humana. Esse espetáculo se sobressaiu pela profundidade das proposições, pela inventividade da produção e pelo brilho dos atores. As apresentações foram feitas no Burgtheater.

A Hungria trouxe “Vergonha”, peça baseada no texto de J. M. Coetze, Prêmio Nobel de Literatura, que leva o público a olhar para os tópicos candentes da Europa pós-colonial de hoje e sua pretensa supremacia cultural.

Ariane Manouchkine e seu Théatre du Soleil representaram a França, com “Os naufragados da tresloucada esperança”, uma aventura que se passa durante a Primeira Guerra Mundial, onde um grupo de idealistas tenta adaptar para o cinema mudo a história de imigrantes europeus que estabeleceram uma comunidade na Tierra del Fuego. Uma obra prima de humor e inteligência sobre o fracasso de uma oportunidade. As alusões à Europa de hoje ficam muito claras, embora indiretas.

O Teatro do Congo presentou “A base da vertigem”, de Dieudonné Niangouna, uma peça furiosa e poderosa sobre os estragos causados pelo colonialismo francês e a explosiva história da guerra civil, vista através de dois irmãos, que  buscam suas raízes, em meio a um ardente desejo de pertencer. Um espetáculo inesquecível, de Brazzaville.

Da Austrália, o Back to Back Theatre de Melbourne trouxe “Ganesh versus the Third Reich”, uma peça sobre uma peça que está sendo encenada sobre o deus hindu Ganesh, com cabeça de elefante num corpo humano. Em viagem pela Alemanha nazista, Ganesh exige de Hitler a devolução do símbolo da suástica, que pertence às antigas tradições hidus.  O autor, Bruce Gladwin, cria um retorcido conto de fadas sobre o Holocausto, com ênfase na legitimidade do “Outro”. Um texto sarcástico sobre o poder absoluto.

A Suécia, a Finlândia e a Alemanha reunidas, apresentaram “Conte d’amour”, uma peça que investiga o lado sombrio e turvo do amor, de Markus Öhrn, uma investigação baseada no escândalo Josef Fritzl, o austríaco que manteve um incesto com sua filha. Visto como uma rebelião anti-patriarcal, o espetáculo foi montado numa garage subterrânea, local apropriado aos subterrâneos da existência, onde a ação se passa.

Com quatro atores e recursos de multimídia, o autor discursa sobre os limites extremos do amor romântico absoluto e da apropriação da propriedade privada: “Amar alguém e crer-se seu proprietário é roubar-lhe totalmente a liberdade“. O subtema principal da peça trata da interdependência asfixiante. Parte do público  não conseguiu suportar o impacto de texto e do espetáculo, e abandonou  a garage no meio da apresentação, que levou cinco horas, sem intervalo.

Um espetáculo notável, apresentado no antigo Cassino Militar de Viena, pelo Burgtheater, foi uma adaptação do primeiro livro de “Guerra e Paz”, de Tolstoy. Um espetáculo feito num vasto espaço horizontal, tendo como adereços principais muitas  cadeiras e muitas mesas, que nos devolve a obra prima da literatura russa em termos alegóricos sobre o binômio amor-política. Extremamente ágil e imaginoso, o espetáculo nos surpreende de cena para cena, em cinco horas de duração, com dois intervalos. A Associação Austríaca de  Críticos Teatrais conferiu-lhe o prêmio de melhor espetáculo do ano.

Todas as peças foram apresentadas com sobre-títulos em alemão, exceto as que eram faladas nesse idioma. Com poucas exceções, todas elas foram apresentados em espaços especialmente adaptados para o Festival, nas dependências da Feira de Viena no Prater e no Bairro dos Museus. Para informes sobre as demais peças apresentadas e para ver fotos dos espetáculos comentados. Cumpre acrescentar que, paralelamente ao Festival, todos os teatros da cidade continuaram suas apresentações da temporada, e bem assim também as salas de concertos, os concertos nos palácios antigos e a programação musical intensa  nas igrejas. Tudo isso reunido, forma um conjunto de apresentações, provavelmente sem igual na Europa.

O setor de artes plásticas também foi rico e variado, com mostras nacionais e internacionais, em virtualmente todos os museus da cidade, e em muitas galerias e centros de cultura. Merece destaque principal a celebração do sesquicentenário de nascimento de Gustav Klimt, um dos grandes mestres do modernismo austríaco, hoje admirado no mundo inteiro, principalmente pelos seus belos e expressivos retratos de belas e expressivas mulheres, executados num personalíssimo e inconfundível estilo, enriquecido por ornamentos geométricos e espirais, vazados em vivas cores, que o celebrizaram. Este foi e continuará sendo, nos próximos meses, o levantamento mais diversificado e abrangente da produção de Klimt em desenhos, gravuras, aquarelas, gouaches, telas, painéis e murais, suplementado por mostras documentais e fotográficas inéditas. Os principais museus de Viena integram esta celebração: o Kunsthistorisches Museum, o Museu Albertina, o Museu da Cidade de Viena, o Museu de Arte Moderna, o Museu da “Sezession” e o Museu da Fundação Leopold, além de galerias, bibliotecas e edifícios públicos, num tour-de-force sem precedentes.

Mereceu também relevo especial no Festival a celebração do sesquicentenário de nascimento do dramaturgo Arthur Schnitzler, e de sua obra prima, “Professor Bernhardi”, produzida pelo Burgtheater. Esta peça, hoje um clássico da dramaturgia de língua alemã, discorre sobre a desavença entre o médico diretor de uma importante clínica, o Professor Bernhardi, judeu, e  um padre que quer administrar os últimos sacramentos a uma paciente. O médico o impede de fazê-lo, por razões humanitárias, afirmando que a paciente ignora estar próxima da morte. A paciente morre sem receber  a extrema unção.

Numa cidade tão católica e tradicionalista, o texto, de grande complexidade política e social, desencadeou, dentro e fora do teatro, uma onda de anti-semitismo que envolveu todas as classes da sociedade austríaca, historicamente predisposta a esse forte preconceito. A peça, estreada em 1912, foi proibida depois da estreia e assim permaneceu até o final da monarquia dos Habsburgos.

Igualmente proscrita pelo nazi-fascismo austríaco, a peça só foi liberada e produzida em décadas recentes. Embora já seja um clássico, “Professor Bernhardi” não perdeu sua atualidade e continua tão perturbadora hoje quanto o foi em 1912. O espetáculo do Burgtheater contou com alguns dos melhores atores do teatro de língua alemã atuais, e sua concepção, numa cenografia toda branca, hospitalar, árida, com iluminação crua, entrecortada por um raio laser que atravessa toda a sala e incide sobre o palco, constituiu-se num acontecimento teatral de primeira grandeza, aplaudido em pé, e que fez justiça às grandes tradições do Burgtheater.

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.