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Festival de Ópera de Santa Fé, Novo México – 2014

Fundada em 1957, a Ópera de Santa Fé tem apresentado, óperas do repertório consagrado e estreias mundiais e americanas.


Em sua temporada de 2014, fora apresentadas, em junho, julho e agosto, “Carmen”, de Bizet, “Don Pasquale”, de Donizetti, “Fidelio”, de Beethoven, “O Empresário”, de Mozart”, e “O Rouxinol,” de Stravinsky, num só espetáculo,  e a estreia americana de “Dr. Sun Yar-Sen”, de Huang Ruo.

Consagrada mundialmente, “Carmen” é sempre uma renovada experiência, graças à força mítica de sua protagonista, a voluntariosa, imprevisível, independente, obstinada  e volúvel jovem cigana, que a tudo e a todos desafia, em busca de um amor, nunca saciado. Nesta atual produção, o diretor Stephen Lawless transformou o contexto espanhol numa ambientação mexicana, junto à fronteira com os Estados Unidos. Essa metamorfose em nada beneficiou a intenção e o temperamento  originais da obra. Pelo contrário, ela diminuiu o impacto emocional do submundo cigano da cultura espanhola, tirando de Carmen seu caráter medular obstinado, diluindo-o em sua mexicanização provinciana, além de deturpar a natureza brejeira das operárias da fábrica de cigarros, colegas de Carmen, transformando-as em prostitutas.

No mais, a excelente soprano Ana María Martinez não possui, em medida suficiente, o registro vocal grave de mezzo-soprano, voz para a qual o papel-título foi criado, embora sua atuação dramática fosse convincente. Dito isso, a produção tem boas qualidades que a recomendam. Joyce El-Khoury brilhou como Micaela, a jovem camponesa, namorada de Don José, que não consegue persuadi-lo a voltar às suas raízes, e retomar a vida pacata anterior.

O tenor Roberto de Biasio é bom ator, e seu maleável timbre de voz deu a Don José a difícil combinação de um temperamento lírico e de um destino trágico. O barítono Kostas Smoriginas tem voz forte e bem projetada, essencial para o papel, mas não tem a desenvoltura afirmativa que faz um bom toureiro Escamillo.

A regência de Rory Macdonald acentuou o brilho orquestral da partitura de Bizet, e se constituiu num dos pontos altos da noite. Susanne Sheston regeu os coros com alta competência, e sua integração na movimentação de massas contribuiu para a agilidade do espetáculo.

A boa qualidade dos cenários de Benoit Dugardin e dos figurinos de Jorge Jara foram um desperdício no contexto de uma produção de problemática orientação.

 

A estória de “Don Pasquale”, que remonta à antiguidade clássica, reaparece na commedia dell’arte, e vem até os tempos modernos: trata-se de um velho que quer uma esposa jovem. Geralmente não dá certo. E o riso é o melhor remédio. Portanto, uma estória de sempre, e sempre atual. O diretor Laurent Pelly, com imaginação e senso de humor, tirou o melhor partido de todas as situações. Andrew Shore, como o solteirão Don Pasquale, embora já quase sem voz, roubou a noite, graças aos seus excepcionais dotes histriônicos de comediante.

A soprano Laura Tatulescu, a jovem viúva cobiçada por Don Pasquale, tem domínio vocal de coloratura, está bem embasada na tradição do bel canto, e é ótima comediante. Sopa no mel, pois o tenor Alek Schrader, o rejeitado sobrinho de Don Pasquale, que acaba se casando com Norina, completa o trio central. Menos ator e mais cantor, ele esteve à altura de seus colegas.

Co-produzido  com o Gran Teatre del Liceu, de Barcelona, este ótimo espetáculo contou c  os funcionais cenários de Chantal Thomas, os figurinos acertados de Laurent Pelly, a regência entusiasta de Corrado Rovaris e a iluminação criativa de Duana Schuler. Uma noite de leveza, ironia e boas gargalhadas.

 

“Carmen” não foi o único desacerto da temporada. “Fidelio” também foi, e de modo ainda mais infeliz e desastrado. Em busca de originalidade forçada, e traindo a intenção de Beethoven e seu libretista Joseph von Sonnleithner, o diretor Stephen Wadsworth decidiu estabelecer a ação num campo de concentração nazista. Desse erro básico, decorreram todos os demais.

Na ação original, Florestan desapareceu há dois anos, injustamente aprisionado por razões políticas, pelo seu inimigo pessoal Pizarro. Leonora, mulher de Florestan, disfarçada como rapaz, consegue emprego na prisão, na qualidade de aprendiz de Rocco, o carcereiro, e, através de peripécias, consegue libertar seu marido e os demais prisioneiros injustiçados.

A ópera de Beethoven trata de uma injustiça pessoal arbitrária, e do poder redentor do amor conjugal. Como se sabe, os campos de concentração nazistas aprisionaram e assassinaram milhões de vítimas do preconceito racial e cultural, e sua ação devastador continuou nos sobreviventes e seus descendentes, e nos perturba até hoje.

Não me parece oportuno entrar em pormenores da produção, mesmo quando acertados, pois o erro fundamental da concepção é um insulto à memória das vítimas do Holocausto, e suplanta todas as boas qualidades vocais e orquestrais do espetáculo. Façamos votos de que a direção da Santa Fe Opera não caia em tentações semelhantes no futuro, em nome de uma originalidade artística altamente duvidosa.

 

A premiere americana de “Dr. Sun Yat-Sen” foi, praticamente, uma estreia mundial, porque esta versão sofreu muitas modificações com relação àquela da estreia em Hong-Kong, em 2011. Baseada em fatos históricos, a ópera de Huang Ruo, com texto de Candace Mui-ngam Chong tem por tema a vida do líder político chinês que conseguiu derrubar a corrupta Dinastia Qing, e estabelecer a República da China, da qual foi o seu presidente, até sua morte, em 1925.

Na primeira parte, a ação é política e teórica, algo formal e hierática. Mas a segunda parte trata da vida pessoal do Dr. Sun e de seu segundo casamento, com a jovem e bela Soong Ching-Ling, filha de um de seus aliados revolucionários, que o considerou traidor, mas que reconheceu seus méritos anos mais tarde. Essa colisão de vida amorosa com realidade política, resultou num drama de alta tensão. O regime Qing é representado por uma pantomima dançada. No final, a liderança do Dr. Sun é reconhecida, e uma gigantesca estátua do herói surge em cena, e é venerada pelas multidões. Um verdadeiro culto de personalidade, que me parece contradizer os ideais liberais do Dr. Sun.

A música sintetiza tradições ocidentais e orientais. Ela é tonal, mas usa dissonâncias e quartos de tom. Nos cenários de Allen Moyer predominam estruturas de bambus. Os figurinos de James Schuette se inspiram na moda sino-europeia da época. A coreografia de Sean Curran está muito integrada na ação. A iluminação de Christopher Akerind capta os vários climas da ação. E os coros, que representam o povo chinês, têm a excelente mão de Susanne Sheston.

A grande revelação da noite foi o jovem tenor americano Joseph Dennis, aprendiz estagiário da Ópera de Santa Fé, que substituiu com poucos ensaios o tenor chinês originalmente contratado, e que cancelou  seu compromisso à última hora, por razões políticas. Além de ter memorizado o texto em mandarim e cantonês, Joseph Dennis interpretou o Dr. Sun com boa voz de tenor lírico, com fôlego de tenor heroico. Ele é ator de recursos, e tem presença cênica. Uma auspiciosa estreia de carreira. Dos demais cantores, destacam-se Rebecca Witty, como a primeira mulher, camponesa, do Dr. Sun, Corine Winters, como Soong, e Gong Dong-Jian, como o revolucionário Charlie Soong.

Contribuições decisivas: a direção dinâmica da ação e o sutil tratamento psicológico dos protagonistas (James Robinson), e a excelente regência de Carolyn Kuan, que dominou plenamente os desafios da complexa partitura.
Mas o ponto alto da temporada foi a apresentação conjunta de “O Empresário”, de Mozart, e “O Rouxinol”, de Stravinsky. A ópera de Mozart é uma obra circunstancial de juventude, e perdeu muito de seu interesse, na forma original. Mas, nas mãos hábeis de Ranjit Bolt ela foi adaptada para servir de veículo e introdução à ópera de Stravinsky.

“O Empresário” trata de intrigas teatrais entre duas primadonas, rivais irreconciliáveis, e suas pressões sobre o empresário. Este, por sua vez, consegue convencê-las de que, nas artes do espetáculo, somente a harmonia entre  os artistas participantes é capaz de resultar em trabalho produtivo e criativo.

As primadonas decidem tentar, e o resultado foi “O Rouxinol”, criado nos anos 1920 por uma troupe russa em Paris. Numa corte chinesa, o imperador e seus súditos se preparam para ouvir o canto do rouxinol. Emocionado com o canto do pássaro, o imperador lhe oferece uma recompensa em ouro. Nisso, três emissários japoneses entram, e oferecem ao imperador um rouxinol mecânico. Impressionado com a engenhosa máquina, o imperador expulsa do império o rouxinol natural, e nomeia o rouxinol mecânico como o “cantor mor’ da corte.

No ato seguinte, o imperador está em seu leito de morte, e se vê atormentado pelos seus erros e pelos seus fantasmas. Nisso, o rouxinol rejeitado volta, e deslumbra a Morte com o seu canto. A Morte lhe pede que continue, mas o rouxinol concorda, na condição de que a Morte se vá, e deixe o imperador continuar sua missão. A Morte acede, e o imperador nomeia o rouxinol como o novo “cantor mor”. O rouxinol rejeita a nomeação, e diz que as lágrimas do imperador lhe são uma recompensa suficiente. E promete, daí para a frente, vir cantar todas as noites, até o sol raiar.

A produção desta obra prima de Stravinsky resultou na noite mais perfeita e mais brilhante do Festival de Santa Fé, onde direção cênica, vozes, orquestra, cenários, figurinos, iluminação, coreografia, projeções, coros e adereços se conjugaram num raro momento de arte, poesia, enlevo e beleza, fechando o Festival de 2014 com chave de ouro.

Para informações sobre o elenco e a produção deste e dos demais espetáculos, acesse press@santafeopera.org

A temporada de 2015 já foi anunciada, com as seguintes produções: “A filha do regimento”, de Donizetti, “La finta giardiniera”, de Mozart, “Salomé”, de Richard Strauss, “Rigoletto”, de Verdi, e a estreia mudial de “Cold Mountain”, de Jeniffer Higdon. As récitas serão em junho, julho e agosto. Serão oferecidos também dois programas extensos, em noites diferentes, de produções de cenas de óperas por aprendizes estagiários da Ópera de Santa Fé.

 

JOSÉ NEISTEIN

Washington, D.C.

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.