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Festival de Ópera de Santa Fé 2013

As produções reuniram cantores de renome internacional e talentos emergentes.

Fiel à sua tradição de apresentar obras raramente encenadas e  estreias mundiais, ao lado de obras de repertório consagradas, a Ópera de Santa Fé apresentou, em sua temporada de 2013, sua 57a. edição, As Bodas de Fígaro”, de Mozart, “La Traviata”, de Verdi, “La Donna del Lago”, de Rossini, “A Grã-Duquesa de Gérolstein”, de Offenbach, e “Oscar”, de Theodore Morrison, uma estreia mundial.

A ópera é um gênero em constante desenvolvimento. Mas, apesar das novas ideias e de novas correntes, as obras primas de sempre continuam no centro do repertório. E, nesta temporada, elas se destacaram. Baseada na peça teatral,de Beaumarchais, “As Bodas de Fígaro”, com música de Mozart e libreto de Lorenzo da Ponte, continua moderna, decorridos 230 anos desde sua estreia. O jogo dialético-político-sociopsicológico entre os aristocráticos patrões plutocráticos e os serviçais conscientes, alertas e críticos, sem cuja mão de obra os patrões não conseguem manter seu  frívolo trem de vida, continua crocante como sempre. O Conde de Almaviva, em seu laser enfatuado, cobiça Susana, a noiva de Fígaro, ambos seus empregados: Susana é a camareira, e Fígaro o factotum. A Condessa, por sua vez, negligenciada por seu marido, sucumbe à sedução do jovem e ardente Cherubino. Descoberto este romance ilícito, o lascivo conde quer vingança, mas tem o rabo preso. Depois de muita confusão e artimanhas, todos voltam à vida conjugal lícita, que a sociedade deles espera.

Esta criação máxima de Mozart foi ambientada pelo diretor Bruce Donnell no período em que a ação se passa, com móveis, adereços, perucas, lustres, prataria e indumentária dentro do estilo do final do século XVIII, marcando, assim, as diferenças de classes. Zachary Nelson foi um Fígaro pícaro e perspicaz, de forte e maleável barítono.  Daniel Okulitch, o Conde, é bom ator, mas sua voz ainda pede maturação. Lisette Oropesa nos deu uma Susana brejeira, com seu soprano-ligeiro e sua desenvoltura.  Susanna Phillips, a Condessa, frisou muito bem a intensidade dramática do papel. O Cherubino de Emily Fons se afirmou com muita técnica vocal e jovialidade histriônica. Ótimos os demais integrantes do elenco. Cenários e figurinos de John Brown imaginosos e elegantes, em seus muitos detalhes. A regência de John Nelson extraiu todo o brilho da partitura. Uma produção harmoniosa, que funcionou com a precisão de um relógio suíço.

Preocupado em dar a “La Traviata” um tratamento atemporal e ambientado na modernidade, segundo desejo da direção, a cenografia de Chantal Thomas, feita de muitos cubos grandes, desordenados e superpostos deu à produção um aspecto confuso e atravancado, prejudicando, assim, com a conivência do diretor Laurent Pelly, o resultado final da produção, agravada pela deficiente atuação do desafinado jovem barítono Roland Wood, muito imaturo ainda no papel de Giorgio Germont, pai do protagonista Alfredo. Contudo, a produção contou com duas excelentes vozes: a da soprano Brenda Rae, no papel-título de Violeta Valéry, e o tenor Michael Fabiano, como Alfredo Germont. Os dois souberam dar dramaticidade e beleza vocal à comovente história de amor contada e cantada na inspirada obra prima de Verdi, baseada na novela de Alexandre Dumas Filho,

“A dama das camélias”. O tema da mulher decaída, redimida por um grande amor, mas destruída pela impiedade social e pela fatal doença, poucas vezes atingiu, na história da ópera, o nível de verdade e beleza trágica que Verdi conseguiu em “La Traviata”, verdade e beleza que nem os cubos atravancados desta produção conseguiram diminuir. Menção especial seja feita a Jennifer Panara, como Flora, e Jonathan Michie, como o Barão Douphol, e a regência, cheia de vitalidade, de Leo Hussain.

Raramente produzida, “La Donna del Lago”, baseada no poena “The Lady of the Lake”, de Sir Walter Scott, cuja ação se passa na Escócia, em 1819, narra a história de Elena Douglas, que passeia pelos campos, e se depara com o Rei James, disfarçado em Uberto. Ela lhe oferece hospitalidade, e o Rei se dá conta de que o pai dela é um dos seus adversários. Ela ama Malcolm, mas seu pai exige que ela se case com Rodrigo. Os três são apaixonados pela bela Elena. Nisso, a Escócia entra em guerra. O Rei oferece proteção e amor a Elena, mas ela o rejeita. Rodrigo ouve o diálogo e quer matar Uberto. Malcolm reaparece e se confronta com Rodrigo. Elena, que recebeu um anel do Rei, faz uso dele  para salvar seu pai, Rodrigp e Malcolm. Só então ela percebe que Uberto é o Rei, que perdoa a todos. Finalmente, Elena se casa com Malcolm, e a paz é restaurada na Escócia.

Nessa mescla de identidade secreta, política, guerra e amor, no libreto algo elementar de A. L. Tottola, Rossini criou um veículo excepcional para a mezzo-soprano protagonista. E Joyce DiDonato, hoje um dos grandes nomes internacionais em evidência, faz pleno uso dele, e emerge como a grande cantora rossiniana atual. Com voz forte, afinada, técnica incomum e excepcional coloratura, ela é o centro e a razão de ser do espetáculo, secundada por excelente elenco, onde todos os cantores possuem rica coloratura e criativa ornamentação vocal. Vigorosa atuação dos coros e da orquestra, sob a regência de Stephen Lord. Cenários e figurinos de Kevin Knight, inspirados nas  tradições escocesas. Direção competente de Paul Curran. Este espetáculo será apresentado na Metropolitan Opera de Nova York, sua co-produtora, na temporada de 2015.

Estreada em Paris, em 1867, com libreto de Meilhac e Halévy, a opereta de Jacques Offenbach, “A Grã-Duquesa de Gérolstein”, é uma farsa militaresca, onde uma grã-duquesa teutônica autoritária se apaixona perdidamente por um réles soldado do exército sob seu comando. Mas, o soldado já tem noiva, e rejeita a grã-duquesa, que, despeitada e furiosa, tenta  destruí-lo. A sinceridade do soldado, porém, a desarma, e, depois  de muitas peripécias ela o perdoa, e, de bom humor, se conforma em perdê-lo para uma simples plebeia, Naqueles anos, a animosidade entre a França e a Alemanha nacionalista, sequiosa de unificação e supremacia, era intensa, e a opereta provocou os ânimos patrióticos franceses, e acabou tendo problemas com a censura. Em 1870 eclodiu a Guerra Franco-Prussiana, com resultados desastrosos.

Embora não seja das melhores obras de Offenbach, esta opereta tem belas melodias, algumas grande árias, dá boas oportunidades aos coros militares, e é um grande veículo para a protagonista. A grande mezzo-soprano americana Susan Graham, um nome internacional nos circuitos da ópera, faz excelente uso de sua agilidade vocal e de seus dotes histriônicos, e monopolizou o espetáculo. Esta produção, visualmente esfuziante, com cenários e uniformes militares muito coloridos se beneficiou da direção inventiva de Lee Blakeley e da coreografia de Peggy Hickey, que valorizou a movimentação dos batalhões, transformando os coros de militares em bailarinos, com ótimos resultados. A orquestra, regida por Emmanuel Villaume, explorou com verve os ritmos acelerados e as melodias borbulhantes da partitura. Atacada pela crítica austera, a produção foi, contudo, um retumbante sucesso de público.

Baseada em citações do escritor Oscar Wilde, e de alguns de seus contemporâneos, Theodore Morrison escreveu o libeto, de parceria com John Cox, e compôs a música de “Oscar”, a estreia mundial deste ano da Ópera de Santa Fé, que co-comissionou e coproduziu a ópera, de parceria com a Ópera de Filadélfia. Centrada nas catastróficas consequências da paixão de Oscar Wilde pelo jovem Lord Alfred Douglas, a ópera evidencia a animosidade entre Lord Alfred e seu pai, o Marquês de Queensberry, que publicamente reprova o relacionamento de Wilde com o seu filho, em virtude de sua base sexual. Lord Alfred força Wilde a processar o Marquês por difamação, esperando, com isso, destruir o seu pai.

Mas, Queensberry ganhou o processo, e a desgraça recaiu sobre Oscar, que foi condenado a dois anos de prisão e trabalhos forçados, por “grossa indecência”… No primeiro ato, Oscar aguarda o processo. No segundo, Oscar é desmoralizado pelo sarcasmo dos carcereiros, e descobre os vários níveis de sofrimento. Rejeitado por uma comunidade cristã, onde Oscar quis se refugiar, depois de cumprida sua pena, Wilde se exila em Paris, onde morreu pouco depois, pobre, doente  e ostracizado.

O Autor optou por encerrar a ópera com Wilde reabilitado e glorificado pela eternidade, num final celebratório, presidido por Walt Whitman, que entra na história não se sabe como. A meu ver, a opção não foi feliz.  Creio que o Autor perdeu uma oportunidade única de criar uma ópera verdadeiramente grande em suas dimensões trágicas, e uma oportunidade de denunciar a justiça vitoriana, hipócrita e politicamente comprometida, e a crueldade dos preconceitos sociais. Apesar disso, a ópera é excelente, prende a atenção do começo ao fim, e tem uma cena central brilhante no tribunal, onde o juiz e os jurados são apresentados e atuam como fantoches. Uma sátira feita com grande verve.

A obra foi criada para o grande contratenor de nossos dias, David Daniels. que deu uma interpretação vocal e dramática pungente. O papel de Lord Alfred não é cantado nem falado: é dançado, a exemplo do que Benjamin Britten já tinha feito em sua ópera “Morte em Veneza”, com o personagem Tadzio. Elenco impecável, produção inteligente e dinâmica, concepção visual  real e surreal. Regência segura de Evan Rogistar de uma partitura que combina música tonal com elementos atonais

Como faz todos os anos, a companhia ofereceu dois espetáculos de aprendizes, com a produção de uma variedade de cenas de óperas, englobando cantores, diretores, produtores, cenógrafos, figurinistas, iluminadores,  e técnicos de cena. O fundador da Ópera de Santa Fé, John Crosby, um visionário, teve consciência, desde o início, de que é preciso treinar as novas gerações de aspirantes, e de lhes dar as primeiras oportunidades. Esta tradição é mantida até hoje, com programação de crescente diversificação. Tive a oportunidade de assistir a um dos excelentes programas, com cenas de Don Giovanni, Béatrice et Bénédict,, Don Pasquale, Carmen, Le Comte Ory, Ariodante, Falstaff, e Boulevard Solitude, (de Werner Henze).

A OSF acaba de anunciar sua temporada de 2014: Carmen, Don Pasquale, Fidélio, O Empresário (Mozart), O Rouxinol (Stravinsky), e uma estreia americana: Dr.Sun Yat-Sen, do compositor sino-americano Huang Ruo.

Paralelamente ao Festival de Ópera, a companhia, juntamente com a Santa Fé Concert Association, ofereceu um Festival da Canção de Arte, com recitais de Christine Brewer, Paul Appleby, Michael Fabiano, Jake Heggie (compositor e pianista, com vários cantores), e um recital Wagner, com Hilde Melton e Brandon Jovanovich, um festival de alta qualidade artística, sempre com lotações esgotadas.

 

JOSÉ NEISTEIN
Washington, D.C.

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.