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Festival de Ópera de Santa Fé 2012

Em sua 56a. edição, a Ópera de Santa Fé produziu e apresentou, em julho e agosto, cinco óperas, num total de quarenta noites.

Foram elas: “Tosca”, de Puccini, “Os pescadores de pérolas”, de Bizet, “Maometto II”, de Rossini, “Arabella”, de Richard Strauss, e “Rei Roger”, de Karol Szymanowski.

Numa visão cênica moderna e despojada, Stephen Barrow criou uma “Tosca” que evolui numa cenografia feita de tablados inclinados, concebida por Yannis Thavoris. A ação foi atualizada, e o ritmo, agilizado. O momento histórico napoleônico do original foi transformado numa Itália da era fascista, onde acontece a política e a corrupção sexual. O libreto de Giacosa e Ilica, baseado na peça de Victorien Sardou, passou, portanto, por uma metamorfose.

Um desafio, sem dúvida. Os três atos têm lugar em estruturas arquitetônicas simples. A suntuosa Igreja de Sant’Andrea della Valle do primeiro ato é vista como uma plataforma, cujo piso é coberto pela grande pintura,  emoldurada, do retrato de Maria Madalena, no qual Mario Cavaradossi trabalha atualmente.

Todas as personagens da ação inevitavelmente pisam sobre o retrato, que mais parece um gigantesco tapete. Obviamente uma heresia, proposital e atrevida. O escritório do Barão Scarpia, no Palácio Farnese, da imponência tradicional vira um cubículo, onde Tosca é encurralada, e o assassinato de Scarpia é feito dentro desse espaço asfixiante. Ainda fugindo da tradição, Tosca não lhe pousa um crucifixo ao peito, nem acende duas velas à sua cabeceira, mas o arrasta para dentro de um closet, a fim de ocultar o corpo de delito. E o fuzilamento de Cavaradossi é feito sobre uma plataforma, emoldurada como no primeiro ato.

Finalmente, o suicídio de Tosca não tem como fundo o Castelo de Sant’Angelo, mas sim a cúpula da Igreja de São Pedro, do Vaticano.

Apesar de todas essas transformações, o impacto dramático nada perde, continua intacto, graças a uma marcação ágil e inventiva, com franco predomínio do relacionamento fascinante e complexo entre Tosca e Scarpia. O relacionamento romântico entre Tosca e Mário passa a um segundo plano. Entretanto, os figurinos de Duane Schuler são de época. A regência de Frédéric Chaslin valorizou os metais, o que aumentou ainda mais a dramaticidade. O desempenho excelente de Tosca e Mário esteve a cargo dos jovens Amanda Echalaz e Andrew Richards.

Mas o ponto alto do espetáculo foi o Scarpia de Thomas Hampson, o maior barítono americano hoje, e um dos grandes da cena mundial: físico imponente, força de grande ator, voz de ataque seguro e modulado. Sua consagração se deu da seguinte forma: ao mesmo tempo que o público, ao final, vaiava a personagem canalha, também aplaudia em pé o grande artista.

Raramente encenada, mas nem por isso menos bela, “Os pescadores de pérolas” é uma ópera do jovem Georges Bizet, que a compôs em poucos meses, aos 24 anos. Cheia de invenção melódica e com um fascinante enredo exótico, a ação se passa no Ceilão antigo. O texto, escrito por Eugène Cormon e Michel Carré quando o orientalismo começava a ser a coqueluche da época, tem o impacto do romantismo, embora as personagens não tenham individualidades bem delineadas e consistentes. Na estreia, a crítica atacou a obra (inclusive Chabrier), mas Berlioz a defendeu por sua originalidade.

Dois amigos, jovens, amam a mesma mulher. Com isso, acaba a amizade e nasce o ódio. A jovem é sacerdotisa num templo hindu, e fez votos de castidade, que ela rompe, entregando-se a um deles, aquele que não tinha poder político. Mas o outro, acaba perdoando e facilitando a fuga dos amantes. O dueto do tenor e do barítono, “Au fond du temple saint” é um dos mais belos em toda a história da ópera francesa, e Christopher Magiero e Eric Cutler estiveram à altura. Nicole Cabell, a soprano que fez Leila, a sacerdotisa do templo de Brahma, tem a voz límpida e um temperamento apaixonado, e, com isso, sobressaiu.

A obra é toda cheia de paixão juvenil, e a direção de Lee Klakeley soube acentuar essa dimensão. O regente, Emmanuel Villaume, de boa tradição francesa, tirou da partitura o melhor partido nos ritmos e na coloração sonora. Os cenários de Jean-Marie Pussiant e os figurinos de Brigitte Reiffenstuel acrescentaram a necessária ambientação da natureza exuberante e do luxo asiático. O coro, sob a responsabilidade de Susanne Sheston, brilhou.

 

Há dois séculos, as plateias de opera têm aplaudido sem cessar as óperas cômicas de Giocachino Rossini, “O barbeiro de Sevilha”, “Um turco na Itália” e “A italiana  em Argélia”, principalmente. Mas essas mesmas plateias, e boa parte da crítica, têm castigado e subestimado o outro lado da obra de Rossini, o lado sério, dramático, frequentemente acusando essas obras de desinteressantes e enfadonhas. Pois bem, a Ópera de Santa Fé acaba de provar o contrário, com a encenação de “Maometto II”.

Estreada em 1820, no Teatro San Carlo, de Nápoles, com algum êxito, ela, depois, caiu no ostracismo dos séculos. Esta re-estreia mundial foi baseada na edição crítica preparada pelo musicólogo e músico holandês Hans Schelleves, e, graças à direção inteligente e inspirada de David Alden, e a uma orquestra fulgurante, regida por Frédéric Charlin, e de um grupo de seis cantores bel canto, com altos dotes de coloratura, tornou-se um sucesso instantâneo, mundial. As apresentações recentes atraíram as atenções de espectadores e críticos de muitos países, e é provável que esta obra venha a ser produzida por outras companhias.

O entrecho se passa na cidade veneziana  de Negroponte, sitiada pelas forças de Maomé II, que subjugou o Império Bizantino ao domínio turco. A cidade é defendida pela população bizantina, cujo chefe, Erisso, prometeu a mão de sua filha Anna a Calbo, que não sabe que ela ama um nobre de Corinto, o qual, por sua vez, é, ninguém menos que o Sultão Maomé II. Filha devota,  Anna tenta suicídio,  a menos que o sultão liberte ambos, seu pai e seu noivo. O sultão consente e promete a Anna uma vida feliz e luxuosa, se ela se casar com ele. Anna recusa, ao ver sua pátria humilhada, mas usa o selo que Maomé lhe deu como prova de amor, para facilitar a fuga de seu pai e de Calbo. Erisso consegue vencer Maomé, que se dá conta da traição de Anna, que admite sua culpa, e se trespassa com um punhal ao pé do túmulo de sua mãe, logo após se casar com Calbo, como era desejo do pai.

A ação transcorre numa torrente de árias, duetos e tercetos de grande musicalidade e dramaticidade, que se emendam sem recitativos, não dando ao público a oportunidade de aplaudir e de interromper o curso da ação com os aplausos. Essas qualidades fazem as três horas do espetáculo passarem com interesse crescente, de forma inconsútil, numa linha vertiginosa e ininterrupta de coloratura. Luca Pisarani, o baixo-barítono venezuelano (Maometto) e a soprano americana Leah Crocetto (Anna), dominam o espetáculo. Mas o elenco todo foi impecável. O coro, regido por Susanne Sheston, fez intervenções poderosas. A regência de Frédéric Chaslin extraiu toda a riqueza da esfusiante partitura de Rossini, sem trégua.

 

“Arabella” foi a última colaboração entre Richard Strauss e Hugo von Hofmannsthal. Escrita no final da década de 1920, à véspera do crash da Bolsa de Nova York, a ação se situa em Viena, nos anos 1880, depois do crash da Bolsa de Viena, quando muitas famílias se arruinaram, enquanto outras enriqueceram. Arabella é filha de uma família aristocrática falida, e seu pai a quer casar com um latifundiário próspero da Croácia, que garantirá o futuro dela e o da família. Arabella, bela e cortejada por muitos. se apaixona verdadeiramente pelo candidato imposto pelo seu pai, mas é vítima de uma intriga que a compromete moralmente, quase desfazendo o casamento em vista. Finalmente, a intriga se desfaz, e Arabella e Mandryka olham confiantes para o futuro.

Esta comédia agridoce pleiteia o anátema: a corrida pelo dinheiro e pelo status distorce o que há de real e autêntico nas relações humanas? A argúcia dos diálogos do libreto e o lirismo arrebatador da música de Strauss fazem de “Arabella” o canto de cisne da belle époque. A direção de Tim Albery, conjugada com os cenários de Tobias Hoheisel e os figurinos de David Finn reconstituem o esplendor do fin-de-siècle vienense, com inusitada propriedade, sobretudo na grande cena do baile do segundo ato. Mas o que sobressai é a sutileza irresistível da voz e da atuação da soprano Erin Wall no papel título, secundade pelo charme rural do Mandryka de Mark Delovan, excelente barítono e ator. Mas o grande elenco merece louvor, pela alta qualidade das vozes e da atuação. Menção especial seja feita ao coro, regido por Susanne Sheston.

 

Mas a grande revelação do Festival foi o “Rei Roger”, ópera de Karel Szymanowski, estreada em Varsóvia em 1926, e praticamente esquecida desde então. Redescoberta pelo Teatre del Liceo de Barcelona, e apresentada no Festival de Bregenz, na Áustria, em 2009, da qual existe um DVD no mercado, esta obra prima começa agora a fazer merecida carreira internacional. O Libreto de Iwaszkiewicz e Szymanowski evoca o Rei Rogério, monarca bizantino da Sicília no século XII, e a ação começa na Capela Palatina de Palermo, onde a corte e o alto clero estão reunidos em torno do Rei Roger e da Rainha Roxana.

Fala-se de um simples pastor que tem perturbado as massa com a promessa de um novo reino, elevado e espiritual, oposto ao luxo decadente daquele que se conhece no mundo. A elite sente-se ameaçada e exige a morte do subversivo pastor. Ele é trazido à presença do Rei. Sua substância e seu carisma seduzem a Rainha. O Rei tenta fazer-lhe justiça, mas está inclinado a mandá-lo ao cadafalso. Pouco a pouco, porém, o Rei sucumbe ao poder espiritual do pastor e decide humilhar-se, e buscar, como peregrino, a sua honesta verdade. Depois dos excessos de uma inesperada Noite de Valpurgis organizada pelo pastor, a Rainha volta a se apaixonar pelo Rei, agora em sua nova autenticidade, restaurada sua consciência. O próprio pastor começa a duvidar de suas verdades dogmáticas.

Trata-se de uma ópera inusitada, incomum, em virtude de seus conteúdos filosóficos, teológicos, éticos e existenciais, mas também pela recolocação do universo dos sentidos num contexto mais amplo.

Liderado no papel-título por Mariusz Kwiecien, um dos grandes tenores da atualidade, e secundado por Erin Marley como Roxana, e William Burden como o pastor, e cantado no original polonês, com sobretítulos em inglês e espanhol, o espetáculo concebido por Stephen Wadsworth, que vai do esplendor bizantino ao deserto ascético, tomou o público e a crítica de assalto. Um espetáculo memorável, vazado numa música forte, expressiva e colorida, de uma obra superior, da qual ainda muito se falará.

 

Como tem acontecido  desde a sua fundação, a Ópera de Santa Fé apresentou dois espetáculos de aprendizes, num total de vinte cenas de várias óperas, dando a dezenas de jovens cantores, diretores, cenógrafos, figurinistas, e a um exército de técnicos, a oportunidade de apresentarem ao público seus promissores talentos. Serão eles os astros e as estrelas de amanhã.

A temporada de 2013 já foi anunciada, com as seguintes óperas: de Offenbach, “A Grã-Duquesa de Gerolstein”; de Verdi, “La Traviata”; de Mozart, “As bodas de Fígaro”; de Rossini, “La Donna del Lago”, e de Theodore Morrison, “Oscar”, baseada na vida de Oscar Wilde. Uma estreia mundial.

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.