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Festival de Música de Santa Fé – Novo México 2013

As obras de Mozart e Schumann foram interpretadas por músicos de excepcionais qualidades.

Em sua 41a. edição, o Festival de Música de Câmara de Santa Fé contou com o consagrado pianista Garrick Ohlsson, como artista residente, e ofereceu, de 14 de julho a 19 de agosto, quarenta concertos, que passaram em revista o essencial da história da música de câmara, e incluiu algumas estreias mundiais, com obras de jovens compositores, especialmente comissionadas pelo Festival.

No contexto do grande evento, foi oferecido um mini festival, chamado “Anos Admiráveis”, constituído de quatro concertos que celebraram os gênios de Carlo Gesualdo, Wolfgang Amadeus Mozart, Robert Schumann, e Johann Sebastian Bach, do qual Samuel Baron fez um arranjo especial para quarteto de cordas da “Arte da Fuga”. O mini festival incluiu também um projeto sobre “Reflexão e Revolução: Música da Época de Goya”, bem como quatro recitais de jovens pianistas.

Três quartetos de cordas de jovens compositores tiveram suas estreias, além de obras comissionadas de dois compositores franceses contemporâneos, Marc-André Dalbavie e Thierry Lancino.

A estreia dos quartetos de três jovens compositores serviu também de workshop para jovens compositores e instrumentistas, no processo de aperfeiçoamento dos três quartetos em pauta. Compostos por Elizabeth Ogonek, David Hertzberg e Reena Esmail, os quartetos foram executados pelo FLUX Quartet, um quarteto de cordas profissional, de ampla experiência. Ao final de cada execução, as obras foram debatidas pelos músicos, pelos compositores e pelo mentor, Marc Neikrug, o diretor artístico do Festival.

Com sugestões de modificações e aperfeiçoamento das obras executadas, as obras foram reapresentadas, antes de serem impressas pelos editores, que também estavam presentes. Esta experiência deu certo e deverá ser repetida no Festival de 2014, com novos quartetos de outros jovens compositores, aos quais será oferecida oportunidade semelhante. Oportunidade única, diga-se de passagem.

A presença de Mozart no mini festival foi marcada pela apresentação de seus quatro trios para piano e cordas, cada um deles em noites diferentes. Compostos entre 1786 e 1788, seus trios evidenciam o brilho e o grande domínio desse gênero, pelo gênio de Salzburgo.

Robert Schumann compôs seus dois quartetos para cordas, seu quarteto e o quinteto para piano e cordas no inspirado ano de 1842. Estas joias da música de câmara, empapadas de lirismo e paixão, estão entre as que melhor definiram o movimento romântico.

As obras de Mozart e Schumann foram interpretadas por músicos de excepcionais qualidades: os violinistas Ida Kavsfian e William Preucit, os violoncelistas Eric Kim e Peter Wiley, a pianista Anne-Marie McDermott e o excelente Quarteto de Cordas Orion.

Carlo Gesualdo, Príncipe de Venosa, o gênio da polifonia vocal, compôs seus madrigais para quatro vozes há 400 anos, e eles continuam a surpreender o ouvinte até hoje, com suas harmonias, seus ritmos inesperados, seu fraseado inusitado. Nunca houve, na história da música, nada igual, nem antes nem depois. Sob a regência de Joshua Habermann, Diretor Artístico do Coral do Deserto, de Santa Fé, mais de vinte madrigais de Gesualdo foram cantados a quatro vozes por doze cantores, selecionados dentre os dois últimos livros do compositor, o quinto e o sexto, de forma sensível, sutil, exemplar. O ano milagroso de Gesualdo foi 1611.

Numa entrevista, Habermann declarou: “Antes de cantar, os vocalistas devem ouvir o tom dentro de seus ouvidos mentais, porque Gesualdo nos leva a caminhos inesperados. Por causa disso, os cantores devem interiorizar um labirinto muito complexo de harmonias mutáveis. É nesse constante jogo do esperado e do inesperado que encontramos as delícias de cantar e de ouvir  a música de Gesualdo“.

O compositor francês Marc-André Dalbavie, várias vezes premiado, é um nome de proa dentre os compositores franceses de hoje. Formado no Conservatório de Paris, ele tem várias de suas composições sinfônicas nos repertórios da Filarmônica de Berlim, da Royal Concertgebow de Amsterdan, e das orquestras de Chicago, Filadélfia e Cleveland. Dele, os Festivais de Santa Fé e La Jolla (Califórnia) comissionaram o Quarteto para Piano e Cordas, que acaba de estrear com grande sucesso.

Num texto introdutório, Dalbavie afirmou que é difícil escrever música de câmara, porque, à diferença da música sinfônica e da ópera, o som de um quarteto, por exemplo, provém da densidade da expressão e das relações entre os músicos e os instrumentos, e é, por isso, transparente; quase nu. Neste quarteto para piano, por causa da viola, há dois grupos: o piano e as cordas. A viola oscila entre os agudos do violino e os graves do violoncelo, e cria um fluxo contínuo que une as cordas e rejeita o piano. Integrar o piano no contexto das cordas foi o principal problema a ser resolvido.

Dalbavie trabalhou também anteriormente com sons eletrônicos e com a música de computadores e recursos acústicos. Ele compôs também uma ópera sobre o madrigalista “Gesualdo”, para a Ópera de Zurique, e trabalha atualmente numa ópera nova, comissionada pelo Festival de Salzburgo, que deverá ser estreada em agosto de 2014. Seu refúgio predileto para compor é uma casa de fazenda do século XV, no interior da França.

Do outro compositor francês, Thierry Lancino (1954), o Festival de Santa Fé comissionou um quarteto de cordas, que o Autor chama de “Anjos em Queda”, inspirado no poema “De Sibila para uma criança”, da poetisa russa Marina Tsvetaeva (1892-1941). O plano harmônico do quarteto se baseia nas emoções oriundas do nascimento e da  morte de uma criança;

Criança, agarra-te ao meu peito
Nascer é uma queda nas horas.
. . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . .
Mas teu despertar, aquilo que o mundo chama de
Morte, é uma queda no firmamento…

Diz Lancino: “Com o Quarteto “Anjos em Queda” eu experienciei algo único: embora as emoções já estivessem na música, o objeto dessas emoções veio depois. Com a fusão da música e da emoção, nada poderá separar uma da outra. Eu imagino a queda, como se a gravidade fosse suspensa, como uma queda no espaço, em movimento lento. Eu dedico o meu quarteto às crianças caídas.

Formado pelo Conservatório de Paris, Lancino trabalhou durante anos, pesquisando sons sintéticos de computadores, fol alvo de muitos prêmios, e ensinou em universidades americanas e europeias. Hoje, trabalha numa linha lírica, colorida, livre, ousada, espiritual. Suas obras têm sido comissionadas por importantes festivais europeus e norte-americanos. Atualmente, mora em Nova York.

Ao longo do Festival de Música de Câmara de Santa Fé deste ano, setenta músicos, entre instrumentistas e cantores, ofereceram seus talentos na interpretação de mais de uma centena de obras, das mais antigas às mais atuais, setenta das quais foram apresentadas no Festival pela primeira vez em sua história.

A programação para o Festival de 2014 acaba de ser anunciada em suas linhas gerais. O artista-residente será o pianista Yefim Bronfman, que dará um recital e participará de várias apresentações de câmara. Dentre os destaques, contam os seis concertos de Brandenburgo, de Bach, sonatas de Beethoven,  o “Harmonicus Blacksmith”, de Händel, o Octeto de Schubert, trios, quartetos e quintetos de Mozart, Beethoven, Brahms, Tschaikovsky, Dvorak, Martinu e Shostakovich, e o seminal “Quarteto para o Fim dos Tempos”, de Olivier Messiaen. A “Paixão Refletida”, de Marc Neikrog, o Diretor Artístico do Festival, será interpretada ao piano por Yefim Bronfman. Estão anunciados também recitais dos pianistas Haochen Zhang, Kyril Gerstein e Alessio Bax, da mezzo-soprano Sasha Cooke (com as cantatas “Arianna a Naxos”, de Haydn, e “La Lucrezia”, de Händel, e os quartetos de cordas Dover, Orion, Johannes e FLUX, vários dos instrumentistas veteranos do Festival, e estreias mundiais de obras comissionadas de Julian Anderson, Brett Dean e Lowell Liebermann.

O Festival é um sociedade civil de benefício público, sem fins lucrativos,  tem uma diretoria eleita, um conselho consultivo e a administração.  Além do movimento de bilheteria, o Festival é mantido por um Fundo de Garantia, para o qual contribuem agências governamentais, fundações, corporações e doadores individuais, e conta com a ajuda de um exército de voluntários. O Festival mantém programas educativos e de concertos para a juventude, nas escolas.

 

JOSÉ NEISTEIN
Washington, D.C.

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.