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Festival de Música de Câmara de Santa Fé

Acontecido no Novo México, este artigo é um complemento de outro já editado anteriormente.

Este Festival figura dentre os de mais alta qualidade nos Estados Unidos, bem como no contexto internacional, e é um dos que gozam do maior prestígio e estima. Neste ano, o Festival celebrou o seu quadragésimo aniversário. De 15 de julho a 20 de agosto, foram oferecidos trinta concertos, com mais de uma centena de obras do repertório, de Johann Sebastian Bach aos nossos dias.

Em cada ano, a direção do Festival convida um artista de relevo, para ser o artista-residente. Desta vez, a escolha recaiu sobre o regente Alan Gilbert, atual regente-titular da Filarmônica de Nova York, mas também violinista, violista e compositor. Embora jovem, Gilbert já vem precedido de larga experiência como regente-visitante de algumas das melhores orquestras norte-americanas e europeias. Como artista-residente deste Festival, teve a oportunidade de mostrar as várias facetas de sua personalidade artística. Sua vinculação com o Festival de Santa Fé vem de longa data. Muito antes de ser o nome internacional que é hoje, já participava do Festival como violinista e violista, atividades com as quais ele também participou neste ano.

Como regente, teve a oportunidade de reger obras de câmara, que ele raramente tem em Nova York, como regente da Filarmônica. Em Santa Fé, regeu as duas Sinfonias de Câmara, de Arnold Schönberg, e a Sonatina para instrumentos de sopro, de Richard Strauss, todas elas obras pouco conhecidas, mas de grande interesse. Já como violista, Gilbert integrou o Sexteto para cordas no.2, de Brahms. e, como violinista, o Octeto de Mendelssohn, junto com músicos do antigo Quarteto Guarneri. Graças também aos seus interesses interdisciplinares, ele participou  do simpósio sobre “A música, o cérebro, a medicina e o bem-estar: um diálogo científico”. Esse simpósio fez parte do Festival. A esse propósito, Gilbert declarou numa entrevista: “Eu espero aprender mais sobre este assunto do que eu tenho a oferecer“.

Para a celebração do seu aniversário, o Festival comissionou duas obras, e co-comissionou duas mais, para estreias no Novo México. As duas obras para estreia mundial foram “Neve e neve, para clarineta, viola e piano”, da compositora escocesa Helen Grime, nascida em 1981, e uma nova obra para clarineta, do compositor finlandês Magnus Lindberg, nascido em 1958.

“Neve e neve” é uma obra inspirada num poema de Ted Hughes. Embora não seja programática, as imagens de fragilidade e beleza, junto com a enigmática natureza da neve, ressoaram na imaginação da compositora, e estão presentes no resultado sonoro. A peça foi escrita em três movimentos, para execução ininterrupta. O material musical é rico e variado. O início da peça é um diálogo entre a clarineta e a viola. Os dois instrumentos formam um contraste com o piano. A música é calma e delicada, e o silêncio faz parte do seu clima. Mas há também passagens aceleradas, e inclui uma cadenza do piano. No final, os três instrumentos se encontram, para encerrar a peça com uma melodia.

O duo para clarineta e piano de Lindberg ecoa composições semelhantes de Franz Schubert, Alban Berg, Béla Bartok e Yannis Xenaxis. Esta obra é breve, mas intensa, e de alta virtuosidade.

Para estreia no Novo México, foram programados o Quarteto de Cordas no.2, de David Del Tredici, nascido na Califórnia, em 1927, e a “Chacona Perpétua”, de Aaron Jay Kernis, natural de Filadélfia, 1960. O quarteto de Del Tredici foi escrito em cinco movimentos disparatados, executados sem interrupção, conectados por interlúdios. Sua duração é de vinte minutos e a audiência consegue ouvi-lo como um só arco. O quarteto apresenta texturas de fuga, scherzo, romanza, fantasia e árias, e tem uma conclusão fantasmagórica.

A chacona de Kernis, em dois movimentos, é feita de variações. Os dois movimentos não são consecutivos: são paralelos. Um deles é composto de linhas simples, líricas, sendo o outro inquieto e de várias mutações. O material é trabalhado em fragmentos melódicos, e uma variedade de ritmos, numa sequência de harmonias, combinações e recombinações.

Ao longo dos trinta concertos, o público teve a oportunidade de vivenciar virtualmente toda a história da música de câmara. Dado o fato de que mais de uma centena de obras foram apresentadas, por uma variedade de músicos de muitos países, todos eles solistas altamente qualificados, não é possível, por razões práticas, comentar todos eles num só artigo. Mas é possível comentar os vários destaques. Senão, vejamos.

Um deles foi o espaço dado à música de Franz Schubert. Dele, foram ouvidos o Quinteto para cordas e piano, “A truta”, um grupo de Lieder do ciclo “Canto do cisne”, a sonata para piano em lá menor, D. 959, o Trio para piano e cordas D.898, e o quinteto para cordas em dó maior, D. 956.

Outro destaque, foi o dado à obra de Johann Sebastian Bach, do qual foram  ouvidos um bom número de cantatas, a partita para violino no.2, os concertos para piano nos. 1, 2, 4, 5 e 7, o concerto de Brandenburgo no.6, a Suite Inglesa no.2, e a sinfonia concertante em lá maior.

Outro compositor bem aquinhoado foi Johannes Brahms. De sua autoria, foram interpretados o Trio para piano no.2, o Trio para clarineta opus 1, o Sexteto para cordas no.2, e o Trio para corno opus 40.

Bem valorizada, foi a música francesa, representada por Gabriel Fauré (quarteto para piano no.1), César Frank (sonata para violino em lá maior, e o quinteto em fá menor para piano e cordas), Maurice Ravel (quarteto para cordas em fá maior), e Claude Debussy (Suite Bergamasque).

Dentre os modernos, Béla Bartok esteve bem representado, com a sonata para violino no.1, Contrastes Sz.111, e o duo para dois violinos Sz.98. O raramente tocado quinteto para piano opus 84, representou Edward Elgar. O quinteto para piano no.1 representou Ernst von Dohnanyi. O concerto da câmara para violino, piano e instrumentos de sopro, marcou a presença de Alban Berg. Um dos potos altos do Festival, foi a apresentação do Octeto de Igor Stravinsky, para flauta, clarineta, dois fagotes, duas trombetas e dois trombones, regido por Frédéric Chaslin, o titular da Orquestra da Ópera de Santa Fé, e as Três peças para clarineta, por Anthony McGill.

O Festival apresentou duas redescobertas de interesse, de dois compositores injustamente esquecidos: o quinteto para violino, clarineta, corno, violoncelo e piano, do tcheco Zdenek Fibich (1850-1900), e o quinteto para piano, da americana Amy Beach (1867-1944). Duas obras de belas harmonias, inspiradas melodias, lirismo e dramaticidade.

Como não podia deixar de ser, os compositores norte-americanos tiveram forte representação. Além dos já mencionados, foram incluídos, com obras representativas, Brad Mehidau, Oliver Knussen, Peter Lieberson, Marc Neikrug (que é também o diretor artístico do Festival), Ronald Stevenson, Louis W. Ballard, John Adams, e vários compositores da nova geração. além dos clássicos George Gershwin, Samuel Barber e Leonard Bernstein.

Antonio Vivaldi foi homenageado com uma noite especial, chamada “Vivaldi Espetacular”, quando foram interpretados cinco concertos de sua autoria, para uma variedade de instrumentos.

O Festival de 2013 já foi anunciado. Aqui ficam alguns destaques: a música de Gesualdo da Venosa, ciclos dedicados a Mozart e Schumann, música espanhola da época de Goya, música de compositores mexicanos contemporâneos, “Pierrot Lunaire”, de Arnold Schönberg, ciclos de Lieder de Schumann e Mahler, concertos dedicados à música de Händel, Tchaikovsky, Stravinsky e Shostakovitch, o Quarteto de Cordas de Shangai, e muito mais. O artista residente será o pianista Garrick Ohlssen.

O ponto mais alto do Festival de 2012 foi o concerto de encerramento, na noite de 20 de agosto, com a apresentação do ponto mais alto na história da música de câmara: o Trio para piano, violino e violoncelo D.898, e o Quinteto para cordas em dó menor, D.956, de Franz Schubert, interpretados pelo extraordinário Quarteto de Cordas de Tóquio, e dois músicos convidados.

Essa noite memorável foi, contudo, encerrada com uma nota de tristeza e melancolia: a direção do Festival tinha anunciado que este seria o concerto de despedida do Quarteto, depois do qual ele se dissolveria, decorridos quarenta e dois anos de atividades, em todos os continentes. Com o desaparecimento do Quarteto de Tóquio, desaparece o último grande, de seu gênero, desde a dissolução do Quarteto Húngaro e do Quarteto de Budapeste. Um após outro, foram dissolvidos o Quarteto Juilliard original, o Quarteto Amadeus, o Quarteto Guarneri, o Quarteto Pro-Arte, o Quarteto Stradivarius, e o Quarteto Italiano, todos eles igualmente memoráveis.

Resta-nos agora prestigiar e fruir os que ainda se apresentam, como o Quarteto Tácacs, o Quarteto Béla Bartok e o Quarteto Emerson, e de depositar um voto de confiança nos quartetos jovens que começam a despontar, dentre eles, o Quarteto de Shangai.

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.