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Festival de Música de Câmara de Santa Fé – 2014

Em sua 42a.edição, o Festival apresentou, de 30 de junho a 25 de agosto, 41 concertos, e 4 concertos para a juventude.


Foram quase 80 músicos, entre instrumentistas, cantores e conjuntos, que executaram mais de uma centena de obras, das quais quarenta foram apresentadas pela primeira vez no Festival. Além disso, foram oferecidas obras comissionadas e co-comissionadas, de autoria de Julian Anderson, Brett Dean e Lowell Liebermann.

Este ano, teve como artista-residente Yefim Bronfman, que se apresentou em duas grandes obras de câmara e um recital. Nascido na União Soviética, no território que é hoje o Uzbequistão, Bronfman estudou em Israel e em Nova York, onde reside há anos. Graças à sua alta virtuosidade e à intensidade de suas interpretações vigorosas de obras de fôlego, Bronfman é hoje um nome internacional.

Outras atrações incluíram os seis concertos de Brandenburgo, de Johann Sebastian Bach, bem como algumas das obras primas finais de Beethoven, dentre elas os trios “Fantasma” e “Arquiduque”, o “Quateto para o fim dos tempos”, de Olivier Messiaen, recitais de piano de Joseph Kalichstein, Jon Nakamatsu e Benjamin Hochman e o Quarteto de Cordas no. 3, “Velhos Tempos”, de Mark O’Connor.

Teve continuidade o Projeto Jovens Compositores de Quartetos de Cordas, com novas composições de Tonia Ko e Ryan Chase. Este projeto se caracteriza por workshops abertos ao público, onde os quartetos, ainda inéditos, são trabalhados e debatidos por conjuntos profissionais, com a presença de editores, com vista a possíveis publicações, bem como de empresários, com vistas a apresentações profissionais em outras cidades, e, eventualmente, gravações comerciais.

Vale a pena tecer alguns comentários sobre os compositores comissionados.

Brett Dean nasceu na Austrália, em 1961, mora na Alemanha desde 1984, e é violista na Filarmônica de Berlim. Muitas vezes premiado, inclusive pela UNESCO, teve também anteriormente comissionadas obras pelas Filarmônicas de Los Angeles, Estocolmo e Berlim, e pelas Sinfônicas de Sidney, Melbourne, BBC, e pela Concertgebow de Amsterdão.

Seu comissionado Quarteto para cordas no. 2, que acaba de estrear, inclui uma voz de soprano, e tem por título “E certa vez eu interpretei Ofélia”, com texto de Matthew Jocelyn, baseado em Shakespeare. O texto incorpora falas da própria Ofélia e os insultos que lhe são feitos por Hamlet, e pelo seu próprio pai, Polonius.

Esta obra é, de fato, uma suíte de cinco movimentos curtos, tocados sem interrupção, e memoraliza as impressões subjetivas do compositor, com respeito à personalidade de Ofélia e seu drama, ao se refugiar na alienação. A voz da soprano, em diálogo com os instrumentos de corda, se constitui numa metáfora musical da passagem angelical de Ofélia pela vida.


Lowell Liebermann
(Nova York, 1961), é um compositor vivo dos mais interpretados e gravados nos Estados Unidos. O “New York Times” se refere a ele como sendo um tradicionalista que é também um inovador. Com mais de uma centena de obras compostas em todos os gêneros, inclusive a ópera, obras suas já foram interpretadas pela Filarmônica de Nova York, e pelas Sinfônicas de Montréal, Dallas e Baltimore, e pela Orquestra de Filadélfia, sob vários regentes notáveis e solistas de nomeada.

Sua obra comissionada pelo Festival de Santa Fé é um ciclo de canções de arte chamado “As Quatro Estações Opus 123”. As cinco canções do ciclo estão baseadas em poemas de Edna Saint Vincent Millay, escritos na década de 1920, que tratam do amor, da vida e da morte. O ciclo foi interpretado por Sasha Cooke, mezzo-soprano; David Shifrin, clarineta; Ida Kavafian, violino; Steven Tenenbom, viola; Peter Stumpf, violoncelo; e Lowell Liebermann, piano.

 

Julian Anderson nasceu em Londres, em 1967. Foi professor de composição no Royal College of Music, na Harvard University, e na Guildhall School. Como compositor, recebeu comissionamentos da BBC, da filarmônica de Londres, e da English National Opera, que acaba de estrear sua ópera “Os Tebanos”, baseada na trilogia de Édipo, de Sófocles.

O Festival de Santa Fé o comissionou para compor um quarteto de cordas, para o qual Anderson se inspirou em canções alemãs de Natal. Para realizar esta obra, ele pesquisou fontes publicadas em várias regiões da Alemanha, de 1500 a 1750, num total de mais de 300 canções. Esta obra explora melodias de várias daquelas canções, mas não é música programática. As melodias ecoam através de texturas instrumentais, nos ritmos, e nos estados de espírito. São ao todo sete movimentos, em que os arcos trabalham nas cordas verticalmente, em vez de tocá-las horizontalmente, como é natural. Disso, resultou uma sonoridade especial. O título é “Quarteto de Cordas no. 2, 300 canções de Natal”, e foi dedicado ao Quarteto de Cordas Arditti. Julian Anderson é detentor do “Prêmio Grammophone”

 

Mark O’Connor nasceu em Seattle, USA, em 1961. Ganhou vários “Prêmios Grammy” como violinista/compositor, com obras clássicas, folk e jazz. Domina vários estilos e gêneros musicais, e tem gravado para a Sony e diversas outras companhias internacionais. Ele se notabilizou como continuador de uma antiga tradição popular americana de execução virtuosística do violino, e, como tal, é conhecido no mundo inteiro,

Seu Quarteto de Cordas no.3 “Old Times” foi composto para celebrar o quarto centenário da história americana, e se inspira nos pioneiros europeus que se estabeleceram no país, no início do século XVII, bem como na beleza natural do Vale do Rio Hudson e dos Apalaches. E na maneira de tocar o violino, como nos “Velhos Tempos”. Sua família está intimamente ligada a esta tradição. O’Connor usa ritmos e harmonias característicos, desta tradição, e cria um verdadeiro mosaico de impressões daquele ambiente, e de seu passado histórico. O fraseado, contudo, recebe um tratamento contemporâneo, tanto no estilo como na sonoridade, embora o resultado final seja muito informado por aquelas tradições.

Um dos pontos mais altos do Festival, foi a execução do memorável “Quarteto para o fim dos tempos”, de Olivier Messiaen (1908-1992), composto entre 1940 e 1941, período em que o notável compositor francês foi prisioneiro de guerra dos alemães, na Silésia, em condições brutais, sujeito a todas as provações, inclusive a fome

Este quarteto, uma das grandes obras primas da música contemporânea, se inspira nos versos do capítulo 10 do livro bíblico “A Revelação de São João”, e faz uso de uma variedade de técnicas que extrapolam a experiência habitual do tempo, a começar pelo primeiro movimento, a “Liturgia de cristal”, por exemplo, onde o piano repete uma sequência de 17 valores rítmicos, desenvolvidos em 29 acordes, enquanto o violoncelo executa um motivo de cinco notas, num padrão de 15 valores. Este é apenas um exemplo, dentre a gama complexa de técnicas empregadas por Messiaen.

De fervorosa inspiração mística, dentro da tradição católica, os títulos dos movimentos dão uma ideia da amplidão e do alcance da obra: Liturgia de cristal; Vocalize para um Anjo que anuncia o Fim dos Tempos; Abismo dos pássaros; Interlúdio; Louvor à Eternidade de Jesus; Dança do furor, para sete trombetas;  Arco-íris para o Anjo que anuncia o Fim dos Tempos; Louvor à Imortalidade de Jesus. A vigorosa e sutil execução do quarteto esteve a cargo de Jennifer Gilbert, violino; Eric Kim, violoncelo; Carol McGonnell, clarineta; Ran Dank, piano. Uma noite insuperável.

O programa do Festival de 2015 acaba de ser anunciado, com os seguintes destaques: Alan Gilbert, regente da Filarmônica de Nova York, voltará a ser o artista-residente, e deverá reger “Dos Canyons às Estrelas”, de Olivier Messiaen, escrita para 46 instrumentos.

Outra obra complexa anunciada é a Serenata no.10, de Mozart. A programação inclui quartetos para cordas, de Beethoven, trios de Haydn, o quarteto “Rosamunde”, de Schubert, os quartetos para piano e o quarteto para clarineta, de Brahms, o quinteto para cordas, de Béla Bartok, quartetos de Chausson e Smetana, as “Variações Goldberg”, de Bach, e recitais de vários solistas de porte internacional Estão previstas também estreias de várias obras comissionadas, assim como estreias mundiais.  Terá prosseguimento o Projeto Jovens Compositores de Quartetos de Cordas, e muito, muito mais.

Para mais informações sobre a totalidade do Festiva deste ano, acesse no Google Santa Fe Chamber Music Festival 2014

O Festival de Música de Câmara de Santa Fé, Novo México, é dos mais ricos e variados que se possa encontrar hoje em dia, graças à sua natureza antológica e à excelência de suas execuções.

JOSÉ NEISTEIN
Washington, D.C.
Outubro de 2014

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.