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Faleceu José Neistein grande colaborador do site

Nem lembro como, certo dia, recebo um email do José Neistein, perguntando se eu estaria interessado em alguns textos que ele pudesse enviar ao www.movimento.com e que tinham tudo a ver com as finalidades do site. Obviamente, pedi que enviasse um texto, para eu conhecer o pensamento que escrevia, e disse-lhe que o site não pagava nada aos seus colunistas e comentaristas, por não ter condição financeira para isso.

Quase imediatamente, recebi um email com um texto, frisando que enviava os textos sem nenhuma conotação financeira, mas sim porque gostava do site e achava que tinha algo a acrescentar. Pois bem, tinha muito a acrescentar… muito mesmo.

Assim, fui recebendo textos que demonstravam uma cultura diversificada, mas muito sólida, pelas observações que fazia a respeito dos acontecimentos com que nos brindava. Era uma maneira de estarmos cientes do que ocorria na Europa e nos Estados Unidos, em matéria de música clássica e outras artes.

Após muito tempo, acabamos por nos encontrar no Rio, para tomarmos uns chopes, nos conhecermos e trocarmos algumas ideias. Pois bem, ele nunca sequer tocou em assunto que dissesse respeito à sua carreira profissional ou aos vários cargos importantes que ocupou. Uma modéstia que só agora reconheço, mediante a biografia que o seu sobrinho compilou para prestar esta homenagem póstuma a uma pessoa brilhante, convencedora, gostosa de se conversar.

Suas colaborações foram intensas nos anos de 2012 e 2013. Depois, rarearam um pouco. O movimento.com se entristece, não só por perder esta fonte maravilhosa de informações e observações sempre próprias, mas principalmente por não podermos mais contar com essa presença, para mim “interneteira”. Para outras pessoas que lhe eram próximas fisicamente, certamente ficou uma lacuna talvez impossível de ser preenchida.

 

Uma nota em memória de José Neistein

Gabriel Neistein, julho de 2020

José Neistein foi uma dessas pessoas cuja passagem pelo mundo deixa um legado inestimável e enormes saudades. Sua trajetória de vida se entrelaçou com o desenvolvimento e difusão das Artes brasileiras no exterior por toda a segunda metade do século XX. Nascido em 1934, filho de imigrantes judeus tradicionais, passou sua infância e juventude no bairro do Bom Retiro, lugar que resguardou em suas raízes por toda a vida e onde morou nos seus últimos anos, em um apartamento imerso em livros e uma coleção de arte com peças das mais diversas origens, épocas e feituras.

Em sua juventude, esteve presente na primeira Bienal de São Paulo (1951), que ampliou seu horizonte para as Artes, rompendo um isolamento ainda provinciano. Enquanto estudava filosofia na USP, foi tido como uma brilhante promessa da crítica teatral paulistana, impulsionado por Décio de Almeida Prado e Maria José de Carvalho. Com Anatol Rosenfeld, estudou poesia e filosofia alemãs e, com Jacó Guinsburg, fascinou-se pela riqueza da literatura iídiche.

Após graduar-se em 1956, recebeu uma bolsa de estudos do governo austríaco para realizar um doutorado em Estética, na Universidade de Viena. Nesses anos em que residiu na Europa, tomou contato com as fontes culturais do ocidente e com as vanguardas europeias do pós guerra, dando continuidade à sua militância nas críticas das diversas Artes.

Seu distanciamento do Brasil, permitiu-lhe revisitar as contingências das produções artísticas e da etnografia brasileira sob uma perspectiva universal. Ainda durante seu doutorado em Viena, iniciou carreira no Itamaraty como difusor da Cultura brasileira em um contexto internacional, ministrando conferências por toda a Europa e Américas.

Em 1967, tornou-se adido cultural em Assunção, no Paraguai e, em 1970, foi transferido para os Estados Unidos onde fixou residência permanente. De 1970  a  2007, dirigiu o Brazilian-American Cultural Institute (BACI) em Washington DC, onde eram realizados em média oito mostras anuais de arte, cursos de português, concertos de música, seminários relacionadas à cultura e à literatura brasileira.

Durante as férias de julho, quando regressava ao Brasil, José mantinha contato direto com a cena local, visitando mostras e ateliers para compor sua programação anual. Dentre os artistas que Neistein levou ao BACI para expor, estão: Yolanda Mohalyi, Tomie Ohtake, Manabu Mabe, Axl Leskoschek, Martins de Porangaba, Mira Schendel, Nélson e Giselda Leirner, Ismael Nery, Emanoel Araújo, Marcelo Grassmann, Evandro Carlos Jardim, Maria Bonomi, Lívio Abramo, Renina Katz entre outros. Os textos curatoriais dessas mostras foram reunidos e publicados em 1981 no livro ‘Feitura das Artes’ pela Editora Perspectiva.

Em paralelo, José Neistein desenvolveu o trabalho de editor na Divisão Hispânica da Biblioteca do Congresso em Washington, que detêm o mais significativo acervo de livros e textos latino-americanos. De 1970  a  2019, redigiu anotações sobre a bibliografia inédita a respeito da arte e arquitetura brasileira.

Dessa elaboração primorosa e lapidada foram publicadas pela editora Kosmos mil e setecentas resenhas relativa à produção dos anos de 1970 até 1997 no livro: ‘A Arte no Brasil dos primórdios ao século vinte’, com prefácio de Aracy Amaral. Os mais de quinhentos apontamentos realizados nesses últimos vinte anos, que ainda não foram publicados no Brasil, consistem em um documento relevante para os estudos da historiografia da arte nacional, que serão publicados postumamente.

Quem conviveu com José, sabe da relação profunda que ele estabeleceu com suas referências plásticas, sonoras, dramáticas e literárias, transpostas para sua própria experiência de vida. Sua expressão oral e escrita traduziu em palavras objetivas toda uma dimensão subjetiva  interior, que conjugava a perspicácia de sua atenção aos detalhes com a sensibilidade de uma apreciação autêntica do mundo ao seu redor, revelando sua verdadeira arte de matizar conversas cotidianas com texturas sutis de sabedoria.

Um ser iluminado foi José Neistein, de abençoada memória, faleceu no sábado dia quatro de julho de 2020, deixando um vazio tão grande aos seus familiares e amigos quanto a extensão de seu legado para as Artes e Cultura Brasileira.

Textos publicados pelo movimento.com 

19.07.2011 –  https://movimento.com/cecile-licad-con…-a-jose-neistein/

10.09.2011 – https://movimento.com/festival-de-opera-de-santa-fe-2011/

30.09.2011 – https://movimento.com/o-anel-do-nibelu…a-de-s-francisco/

13.04.2012 – https://movimento.com/eugene-oneill-em-washington/

09.05.2012 – https://movimento.com/american-shakesp…ton-virginia-usa/

19.07.2012 – https://movimento.com/festival-de-viena-2012/

07.08.2012 – https://movimento.com/lincoln-center-festival-2012/

07.09.2012 – https://movimento.com/festival-de-opera-de-santa-fe-2012/

19.09.2012 – https://movimento.com/festival-de-musi…mara-de-santa-fe/

15.02.2013 – https://movimento.com/royal-opera-house-no-rio/

16.07.2013 – https://movimento.com/na-austria-a-sch…hwarzenberg-2013/

22.07.2013 – https://movimento.com/castleton-festival-2013/

28.07.2013 – https://movimento.com/festival-de-viena-2013/

04.08.2013 – https://movimento.com/o-templo-da-musi…ara-wigmore-hall/

10.09.2013 – https://movimento.com/festival-de-opera-de-santa-fe-2013/

26.09.2013 – https://movimento.com/festival-de-musi…novo-mexico-2013/

10.10.2013 – https://movimento.com/danca-shiva-em-washington/

07.07.2014 – https://movimento.com/numa-fazenda-da-…-cesar-de-handel/

14.10.2014 – https://movimento.com/festival-de-oper…novo-mexico-2014/

16.10.2014 – https://movimento.com/festival-de-musi…de-santa-fe-2014/

14.09.2015 – https://movimento.com/schubertiada-2015-em-schwarzenberg/

27.09.2015 – https://movimento.com/festival-de-opera-de-munique-2015/

13.08.2016 –   https://movimento.com/wolf-trap-opera/

27.08.2018 – https://movimento.com/stauton-music-festival-2018/

09.09.2019 – https://movimento.com/staunton-music-festival-2019/

 

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