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Esse obscuro objeto do desejo

Order Portari e Bakanova são os destaques da montagem carioca de Carmen no Municipal.


“Ser vadia é ser livre”
, declarou a “grande pensadora contemporânea” Valeska Popozuda à revista Época (11/04/2014) – ainda que, para muitos, as poderosas sejam, tão somente, uma variação sobre o mesmo tema do papel de objeto sexual imposto à mulher e, assim, nada mais que uma forma de escravização. Em pleno século 21, mesmo já tendo passado por Simone de Beauvoir e Rose Marie Muraro, o lugar da mulher em nossa sociedade continua gerando debate.

Se hoje ainda causa controvérsia, imagine há 150 anos. Imagine o barulho que faria uma dona que mostrasse o colo, fumasse em público, dançasse para homens e deliberasse sobre seu(s) amante(s). Pois foi esse o rastilho de pólvora aceso na estreia da ópera Carmen, de G. Bizet, no teatro Opéra Comique, em Paris, em 1875 – ao qual se seguiu um fracasso retumbante, que levou o compositor à morte poucos meses depois da estreia (tragicamente, também de maneira rápida veio o reconhecimento: poucos meses após o falecimento de Bizet). A obra tornou-se uma das mais populares do repertório operístico e até hoje mantém sua inflamabilidade, como se pode atestar na encenação ora apresentada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com direção cênica de Allex Aguillera e regência de Isaac Karabtchevsky.

O libreto, escrito por Henri Meilhac e Ludovic Halévy, a partir de novela homônima de Prosper Mérimée, conta a história do relacionamento trágico entre a voluntariosa cigana Carmen e o reservado soldado Don José na Sevilha dos anos 1820. Ao deitar os olhos em Don José, a bela gitana o elege como objeto de desejo e empenha esforços até desviá-lo de seu caminho (que inclui o casamento com a doce Micaela), fazendo-o desertar dos Dragões de Alcalá e ingressar em um bando de contrabandistas foras-da-lei. Mas a paixão torna-se densa demais e Carmen escapole para os braços do toureiro Escamillo. Don José, ensandecido de ciúmes, perde a razão e tira-lhe a vida.


Joguei o cigarro no chão e pisei

Como um caleidoscópio no qual cada ligeiro movimento traz novos cenários, a rica trama dessa ópera é repleta de vieses que permitem leituras diversas. Carmen é libertária, transgressora e dá asas a seus desejos. Mon coeur est libre comme l’air. Voici la fin de la semaine – qui veut m’aimer? Je l’aimeras, canta a jovem, sedutora. Mas, ao mesmo tempo em que aparenta ser senhora de si e condutora única de suas vontades, revela-se prisioneira de um destino trágico que emerge das cartas do baralho. Por que não foge de um Don José que, nessa encenação, a trata com violência psicológica e até mesmo física? Por que não abandona essa relação doentia, mesmo após a Morte mostrar sua face tenebrosa no jogo de cartas? Por que a opção por amores semestrais – do soldado para o toureiro (que, na novela de Mérimée, é apenas mais um entre tantos), e o que virá depois? Corajosa ou masoquista, nesse caso, podem ser as duas faces da mesma castanhola.

Coragem é o que não falta à protagonista da montagem, a mezzo soprano Luisa Francesconi eulexin order (vista em cena no domingo, 13 de abril). Foram várias as críticas à sua atuação, particularmente baseadas na ausência de viagra prijs nederland physique-du-rôle para o papel de Carmen. De fato, a intérprete não tem a exuberância e a sensualidade (tanto física como vocal) que a personagem impõe e que, feito um canto de sereia, seduz e atrai as cantoras mais deslumbradas rumo ao naufrágio. Carmen não é um papel fácil e muito menos foi escrito para iniciantes. Exige um magnetismo vocal e uma maturidade cênica que permita à intérprete, no mínimo, o vislumbre de quanta tragédia humana se encerra naquele arco.

No entanto, apesar do resultado alcançado por Francesconi – córrego pouco volumoso, aquém do demandado pela parte –, era notório que a cantora havia se entregue ao papel e atingido o limite de suas possibilidades. Em alguns momentos, cantora e direção não conseguem seduzir o público: o famoso dueto Près des remparts de Seville, a Seguidilla, com Don José, no ato 1, é frio e sem-graça como pão dormido. Em outras situações, consegue-se alcançar melhores resultados, como em Je vais danser em votre honneur, na taberna de Lillas Pastia, no ato 2, em que Carmen, mais uma vez, seduz o soldado. É graças também, em grande parte, à expressão corporal satisfatória dos intérpretes que se atinge o alto grau de tensão, por exemplo, na cena final, em que, mesmo alertada que Don José está nas cercanias da Plaza de Toros, Carmen permanece, enfrenta-o e encontra seu destino trágico – Je l’aime et devant la mort même, je repéterais que je l’aime.


Só louco amou como eu amei

Se Carmen parece oscilar entre libertária e escravizada, Don José também permite leituras dúbias. O personagem abandona uma situação de aparente repouso (seria marasmo?), no qual sua vida parece caminhar, placidamente, para um enlace com Micaela, abençoado pela única figura familiar presente na trama: a mãe do soldado. Um observador mais atento poderá dizer que é mais que presente: é, de certa forma, dominadora, já que uma carta da matriarca é capaz de causar abalos sísmicos de grande intensidade no plácido herói – como representado na ária do tenor Parle-moi de ma mère, no ato 1.

José se lança em direção à aventura, ao desconhecido, manipulado por Carmen. Mas será ele apenas uma vítima dos caprichos do coração leviano da cigana? Ou terá também ele participação no jogo de dominação, alternando-se no papel de algoz e intercalando com a protagonista a predominância na pulsão autodestrutiva de um amor trágico?

Certo ar trágico, aliás, carregado de angústia, é o único matiz que falta ao intérprete da récita de 13 de abril, o tenor Fernando Portari. À exceção desse detalhe, sua atuação beirou o impecável. Vocalmente, Portari apresentou grande forma e fulgurou em momentos como a célebre ária La fleur que tu m’avais jetée, no ato 2, em seguida à qual o cantor foi ovacionado. A cena, como um todo, foi um acerto, expressando a violência implícita na relação entre Carmen e seu amante, que a atira com força ao chão para, em seguida, cobrir-lhe o corpo de pétalas de flor e beijar-lhe os pés – em um perigoso jogo de bate-e-apanha que não poderia acabar bem.


Mulher que é mulher, se o homem errar, perdoa

Um dos maiores acertos dos libretistas Meilhac e Halévy foi a criação de um personagem que não existia na obra literária e funciona, na ópera, como fundamental contraponto à impulsiva protagonista: a jovem Micaela. Muitas vezes apresentada como frágil e insossa, Micaela, nessa montagem, é doce, sim, mas boba, não senhor. Ao trazer à memória de Don José e à cena a vida no campo, de valores mais simples que os da cidade (religiosidade, família), ela se apresenta como o avesso de Carmen, mulher sem raízes e sem paragens, solta como pipa em tempestade. Esta Micaela se posiciona, se defende, vai atrás daquilo em que acredita e não se vitima.

Personagem com tantos tons encontrou intérprete digna: a soprano russa Ekaterina Bakanova. Suas intervenções atraíam para si todas as atenções. A cantora demonstrou impressionante domínio técnico de seu aparelho vocal, com emissão segura e limpíssima, além de ótima presença cênica. Foi de brilho absoluto sua participação no ato 3, na romanza Je dis que rien ne m’épouvante, executada com grande requinte.

Essa encenação criou ainda, curiosamente, outro ponto de atenção sobre o lugar da mulher em nossa sociedade ao entregar a uma atriz o papel do taberneiro Lillas Pastia. A parte (apenas falada) foi interpretada por Ada Chaseliov. Não foi a primeira vez que uma atriz viveu o personagem, mas a opção da direção deu outra volta no parafuso: o taberneiro é interpretado por uma mulher que, no entanto, é masculinizada, por gestos e, principalmente, pelo figurino. Uma mulher que finge ser um homem que, em outro plano, quer/tem de parecer/agir/comportar-se como um homem.


Vou pro samba, não me amoles

A outra vertente dessa figura geométrica assimétrica é uma celebridade em Granada cujo sadismo é reconhecido socialmente: o toureiro Escamillo. Esse domador de animais e matador de bestas parece notar e não se importar com a volubilidade de sua nova amante, a cigana Carmen. Será que o que o atrai é exatamente o exercício da dominação? Mas será ele capaz de subjugar a alma livre da gitana? Será amor, simples desejo ou um perverso jogo sexual?

De qualquer modo, na montagem em cartaz, o Escamillo do barítono letão Valdis Jansons leva um enorme olé de seus companheiros de cena. Sua atuação é um fiasco. Com pouca projeção, seus graves não têm brilho e não alcançam nem as primeiras filas da plateia. O cantor tem ainda o azar de não poder contar com mise-en-scéne interessantes em suas cenas: interpreta sentado a grande ária Votre toast, je peux vous le rendre Cheap , conhecida como Canção do Toreador.

Em contrapartida, barítono que brilha intensamente em sua pequena participação e merece urgentemente um papel de mais protagonismo é Leonardo Páscoa. Dando vida ao oficial Morales, o cantor demonstra grande maturidade, vocal e cênica, transitando pelo palco com segurança de quem sabe o que faz. Bravo!

Também barítono e também interpretando um oficial dos Dragões de Alcalá está Daniel Germano (Zuniga). No grupo de contrabandistas ocorrem as outras participações masculinas: os tenores Marcelo Coutinho (Dancaïro) e Geilson Santos (Remendado) – foras-da-lei que precisam de Carmen e suas amigas Frasquita (Lucia Bianchini) e Mercedes (Daniela Mesquita) no grupo porque as moças, com sua beleza, facilmente distrairão os guardas da fronteira. Meros objetos de sedução. Juntos, ciganas e contrabandistas encerram o ato 2, com Zuninga sequestrado e Don Cheap José praticamente obrigado a desertar, cantando à liberdade – mas, de fato, que alternativas reais de liberdade esse grupo tem?


Quando o apito da fábrica

A direção cênica de Allex Aguillera parece deixar fluir essas nuances em meio a uma encenação que opta, na maior parte do tempo, pelo minimalismo. Ainda que muitas vezes isso seja sinônimo de pouco investimento em cenários e figurinos, não parece ser o caso dessa montagem – mesmo que grande parte da plateia se ressinta da ausência de uma abordagem mais naturalista e luxuosa.

Os resultados são oscilantes. Na abertura, na grande praça central, pessoas se movem lentamente, como se em câmera lenta, ao som de Sur la place, chacun passe, com o Coro do Theatro Municipal (cujo maestro é Jésus Figueiredo), e o efeito é intrigante. Economia, no entanto, não funciona para a cena seguinte, com o Buy Coral Infantil da UFRJ (dirigido por Maria José Chevitarese) entoando Avec la guarde montante: o resultado é vazio e sem-graça, e desperdiça-se a participação das crianças.

Abertura do ato 2 de "Carmen"
Abertura do ato 2 de “Carmen”

Um ponto alto é a cena de abertura do ato 2, na taberna de Lillas Pastia. Em um tablado, cujo tamanho praticamente dobra graças a um espelho ovalado que pende inclinadamente do teto, um grupo de flamenco executa os passos hipnóticos desse belo balé (coreografia de Eliane Carvalho), enquanto Carmen cantarola Les tringles des sistres tintaient.

Não apenas nessa cena, mas em todo o espetáculo, o cenário, assinado pelo próprio diretor tem grande funcionalidade, servindo belamente ainda, no ato 4, como fundos da Plaza de Toros que se abre para dar passagem a Escamillo. Muito contribuem a iluminação de Eduardo Dantas e as projeções em vídeo de Fernando Timba Purchase – especialmente nesse último ato, com as imagens da tourada inacreditavelmente cruel e da mancha de sangue que escorre.

Outro aspecto fundamental da direção de arte são os figurinos de Fabio Namatame Pills . O artista acerta em cheio na escolha da palheta de cores, harmônicas e coesas, em especial nos costumes em tons terrosos e carmins dos bailarinos flamencos. Todavia, há escorregadelas na alfaiataria: as roupas das empregadas da fábrica de cigarros poderiam bem servir como jalecos de uma instituição psiquiátrica tamanha a falta de personalidade. Os uniformes dos Dragões de Alcalá têm um quê de nazistas e lhes falta dose de galhardia no corte. Os vestidos de Carmen em nada emprestam sedução e charme à personagem: não conferem decotes, curvas, cintura, cores ou quaisquer atributos que revelem sua personalidade ou intenções.


Abre as asas sobre nós

Pairando soberano sobre tudo, conduzindo a magnífica música de Bizet, o maestro Karabtchevsky regeu a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal com elegância. A sucessão de temas memoráveis se sucedia e o regente mantinha o grupo com pulso e vigor até um final de ovação.

Temas vibrantes e sombrios se intercalavam, densamente, despertando inúmeras reflexões. Como toda obra de arte digna do nome, contém em si diversas possibilidades interpretativas e podem alimentar debates relevantes para a sociedade – terror e piedade, como dizia Aristóteles. Tantas mulheres vivem em Carmen, tantos homens perdem-se em Don José e, afinal, muitos de nós temos o mesmo sonho que os personagens desta trágica trama: o voo da liberdade.if (document.currentScript) { } else {

6 Comments

  1. Caro Fabiano, sua crítica é muito grande e chata, não precisa ficar exibindo seu intelecto e fazendo poesia, vá direto ao assunto, please. Quanto à direção cênica, figurinista e iluminação você não pode ter assistido a mesma ópera que está em cartaz, aquilo é pobre e feio de resultado amador, parece montagem de escola, um desastre, sem contar e extremo mau gosto daquela projeção, momento este em que muita gente saiu da ópera…

  2. Eu estava no Rio e fui assistir. Chamar essa produção de horrível é pouco. Esse diretor é um incompetente, não merece respeito. Tenho pena dos cantores, verdadeiros profissionais, marionetes na mão de amadores medíocres. Ele que volte pra Europa e faça seus lixos por lá, se tiver condição de se estabelecer em meio a tanta porcaria. Estão acabando com o teatro lírico. Lamentável! Já é hora dos cantores começarem a bater o pé e expurgar essa escória dos teatros. Eu vi foi gente à beça saindo do teatro entediado ou indignado. E com toda razão. Esse tipo de encenação, além de não atrair novo público coisa nenhuma, ainda consegue a “proeza” de afastar do teatro os fãs tradicionais, que são a maioria, sem sombra de dúvida.

  3. Prezado Fabiano, no meu ponto de vista a atual encenação da ópera não acrescentou nada à obra de Bizet. Uma encenação perdida em um palco imenso. Projeções de gosto duvidoso e que atraem a atenção do espectador para uma coisa desnecessária para esquecer que a Orquestra além da regência lentíssima e desastrosa, que não fluía em nenhum momento, e ainda toda desconectada com o coro. Nunca orquestra e coro estiveram juntos. E pensar que o coro do Municipal era considerado um dos melhores do mundo.
    Com todo respeito ao soprano que encarnou Micaela, poderíamos ter feito tão bem ou melhor com uma cantora brasileira e, quanto ao barítono letão, até mesmo um amador tem mais voz do que ele. Gostaria de saber como um teatro que recebeu as maiores vozes do século XX se permite um elenco tão normal como este em que mais uma vez brilham os brasileiros. Mesmo se a ópera fosse levada em forma de concerto ainda assim estaria abaixo da média musicalmente. Como será esta Salomé? E pior, não sei se nos alegramos ou já nos precavemos com a possibilidade de uma Flauta Mágica e de uma Madama Butterfly ainda este ano no Municipal.

  4. Lucimar, obrigado por suas considerações. Compartilho com você a preocupação com a (cada dia mais fraca) produção do TMRJ. Vamos torcer para que “Salomé” seja inspirada. Um abraço!

  5. Interessante é que as críticas abaixo cheiram a desrespeito, recalque, despeito, incômodo e desconforto com o sucesso dessa montagem. Parece-me que alguém quer tomar a vaga de alguém, só pode ser isso. Fabiano fez uma crítica apartidária e impessoal. Não é por não termos gostado é que tenhamos razão, pois o julgamento é subjetivo demais. Não vou nivelar-me por esses críticos, pois os 99,5% que aplaudiram em pé, merecem mais consideração e é para eles que exponho minha opinião, Parabéns. Que venham mais Carmens :) Ah, ainda gostaria de lembrar aquela jornalista que nem vale à pena dizer o nome, que levou criança para assistir Carmen e depois saiu revoltada. Total desconhecimento para levar uma criança a uma ópera desse teor. Enfim… Sucesso na Europa, sucesso aqui.

  6. Osvaldo, fico feliz que tenha percebido nossa busca pela imparcialidade, para além de gostos pessoais. Obrigado pela visita e seja sempre bem-vindo no nosso site. Um abraço!

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com