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Entre erros e acertos, um Gershwin bem cantado

Principais solistas se destacam em produção mineira de Porgy & Bess.

Ópera ou musical? Alguma coisa no meio do caminho entre ambos, talvez? Para este autor trata-se de uma verdadeira ópera – e que ópera! No fundo, o que realmente importa é que Porgy & Bess é uma obra-prima em três atos e nove cenas de George Gershwin, sobre libreto de Edwin DuBose Heyward e Ira Gershwin, com base no romance Porgy, do primeiro libretista. E, mais importante ainda nestes tempos de vacas magras para a ópera no Brasil, está em cartaz até 31 de outubro no Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

Foi em 1926 que George Gershwin pensou em transformar o romance de Heyward em ópera. Da ideia até o início do trabalho, com o começo da confecção do libreto por parte do próprio romancista, passaram-se sete anos. Somente em 1933, portanto, uma das joias líricas do século 20 começou a nascer. O compositor chegou a fazer várias visitas a Charleston, na Carolina do Sul, para conhecer melhor o ambiente em que vivia a população negra retratada no romance original, chegando inclusive a estudar o comportamento e a música da parte mais pobre da comunidade local.

Mais adiante, o irmão do compositor, Ira Gershwin, juntou-se ao projeto, ajudando Heyward a completar o libreto. Ambos escreveram números tanto separadamente, como a quatro mãos. É de Ira, por exemplo, o texto das duas árias de Sporting Life (It ain’t necessarily so e There’s a boat dat’s leavin’), enquanto da pena de Heyward saíram a célebre Summertime e a dramática My man’s gone now. Juntos, escreveram a ária de Porgy, I got plenty o’ nutting, e aquela que se tornaria uma das passagens mais fascinantes da ópera, o maravilhoso dueto Bess, you is my woman now. Os libretistas optaram por utilizar em várias passagens um dialeto que refletiria a linguagem informal e o jeito de falar daquelas pessoas. A cidade de “New York”, por exemplo, é chamada de “Noo York” online .

Depois de uma apresentação inicial em um teatro de Boston, a ópera estreou para valer em 10 de outubro de 1935 no Alvin Theater, de Nova York, onde teve mais de 120 récitas. Gershwin escreveu uma música saborosa, dotada de melodias cativantes e ritmos variados. Esta música ora tem caráter folclórico, ora bebe da fonte do spiritual ou do jazz, mas sempre com originalidade. Algumas características de musicais tipicamente norte-americanos também se fazem presentes, e talvez seja por isso que até hoje persista a polêmica sobre se a obra seria uma ópera ou um musical. A orquestração destaca-se pela riqueza e pelo belo colorido, e o compositor utiliza-se de Leitmotive (motivos condutores) para unificar o drama na música.

A construção psicológica dos personagens também merece nota: podemos acompanhar a evolução de Porgy como homem, através do amor que Bess lhe desperta, ao passo que vemos Bess tentar mudar de vida, para decair em seguida, vencida pela sua própria natureza e pelo vício da cocaína. E não só: Sporting Life e Crow seguem linhas bem definidas, cada qual um vilão à sua maneira: este de caráter mais dominador e violento, enquanto aquele assume um ar mais leve, através de seu cinismo exacerbado, exercendo uma violência de caráter psicológico. E até personagens secundários como Serena, Clara, Maria, Jake e Peter são muito bem delineados, assumindo cada qual uma personalidade musical marcante. O coro também tem parte importante, seja acompanhando os solistas, seja quando expressa os sentimentos da coletividade. O leitor interessado encontra aqui um resumo da trama em espanhol.


Falta de coesão dramática
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A produção em cartaz no Palácio das Artes é em geral atraente, apesar de alguns senões. Os dois primeiros pontos negativos que chamam a atenção são um intervalo no meio do segundo ato e o excesso de cortes de passagens musicais – tudo isso, ao que tudo indica, para que a obra não resulte tão longa e seja dado somente um intervalo, com cada uma das duas partes da noite tendo aproximadamente a mesma duração. Tais decisões podem ser creditadas conjuntamente, e até prova em contrário, aos diretores (cênico e musical) da montagem.

Para ficar em apenas alguns exemplos, a ária de Jake no primeiro ato, A woman is a sometime thing Purchase , e o terceto de Porgy, Maria e Serena no ato final, Oh, Bess, oh where’s my Bess, estão parcialmente cortados. Já a ária do abutre (Buzzard keep on flyin’ over), de Porgy, e o coro em que todos saem de casa com suas melhores roupas para um piquenique (Oh, I can’t sit down), ambos da primeira cena do segundo ato, simplesmente não são interpretados. Além disso, com o já citado intervalo único, a primeira parte da noite conta com todo o primeiro ato e a primeira cena do segundo ato. Depois do intervalo são apresentadas as três cenas restantes do segundo ato e ainda o ato derradeiro.

É pena que, depois de uma Norma que só sofreu cortes de tradição, o Palácio das Artes volte a insistir em cortar mais substancialmente uma ópera, como já aconteceu no ano passado. Exceto por cortes de tradição, é difícil defender tesouradas em passagens musicais em nome de um suposto enfado do público, que ficaria “cansado” em obras muito longas. Curioso que nunca percebo isso quando vou a Belo Horizonte, que tem um dos públicos mais variados (sobretudo em termos etários) e verdadeiramente interessados em ópera do país, e que tem por hábito não arredar o pé da casa enquanto a ópera não termina.

O diretor Fernando Bicudo opta por transportar a ação, no tempo e no espaço, para uma comunidade pobre brasileira nos tempos atuais. Não vi problema algum em trazer a contemporaneidade para a cena, mas sim no confronto entre a realidade brasileira e detalhes do libreto. Referências à colheita do algodão, a tempestades em setembro e a Nova York enfraquecem o elo do texto com o Brasil. Creio que, se a ação fosse situada nos Estados Unidos de hoje em dia, funcionaria muito melhor, até em virtude dos crescentes casos de intolerância racial naquele país que vêm sendo noticiados nos últimos anos.

Há ainda um problema claro de continuidade entre a primeira e a segunda cenas do segundo ato (que, como já antecipado, foram divididas por um intervalo): quando sai de casa para o piquenique, subindo as escadas do cenário, Bess está com um vestido escuro, e quando a vemos na reunião recreativa da comunidade, já está com um vestido rosa. Onde ela trocou de roupa? Na rua? Todos esses detalhes, por mínimos que possam parecer, prejudicam a coesão dramática da obra. De positivo, ressalte-se o trabalho de Bicudo na direção dos solistas.

Descontados os apontamentos acima, e considerando que os demais profissionais da equipe de criação partiram da concepção da direção, os dois cenários de Desirée Bastos servem bem à produção, com destaque para o cenário principal, usado praticamente durante toda a ópera, que ambienta com riqueza de detalhes o pátio de uma mansão invadida pelos atuais moradores, remetendo às construções precárias e/ou mal acabadas de uma favela brasileira, mas que não dispensam, por exemplo, uma antena de “gatonet”. Já o cenário da cena do piquenique conta com um belíssimo trabalho de grafitagem, retratando artistas brasileiros.

Senti a falta de pelo menos mais um cenário, que poderia ser usado tanto para a cena em que todos estão se escondendo da tempestade em uma das habitações humildes (é um tanto incongruente se refugiar de uma tempestade em um pátio), quanto para a cena do velório. Apesar desta observação, é importante registrar que a estreia da cenógrafa em uma produção profissional de ópera foi bastante positiva, especialmente quando lembramos que pouquíssimos cenógrafos brasileiros têm se destacado nos últimos anos em nossas produções. Já aguardo, curioso, o próximo trabalho da profissional.

Os figurinos de Sayonara Lopes para os solistas são adequados à proposta da encenação. Até mesmo o figurino vermelho de Bess, que em um primeiro momento talvez possa parecer um tanto exagerado, no fim das contas se mostra de acordo com a natureza da personagem. Já os figurinos do coro e dos bailarinos, com o auxílio da caracterização de Lázaro Lambertucci, são muitos deles propositalmente caricatos, com o objetivo, talvez, de lembrar a forma preconceituosa com que muitas vezes são vistas as figuras de uma comunidade pobre por quem as observa de fora.

A iluminação de Pedro Pederneiras, por outro lado, oscila entre momentos mais e menos inspirados. A cena final, por exemplo, poderia ser mais bem resolvida. A coreografia de Cristiano Reis para a Cia. de Dança Palácio das Artes explora com inteligência danças de ritmos americanos e brasileiros.

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Cantores se destacam

Luiz-Ottavio Faria como Porgy

Na estreia de 21 de outubro, O Coral Infantojuvenil Cefart Purchase , preparado por Tiago Ferreira e Elisete Xavier, esteve bem na sua curta intervenção. O Coral Lírico de Minas Gerais, por sua vez preparado por http://counsellingforyourpeaceofmind.com.au/2018/02/02/buy-silvitra-online/ Lara Tanaka, apresentou-se sempre muito bem, especialmente quando acompanhava os solistas em suas árias, realçando e valorizando o resultado dessas peças musicais. A Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, exceto por alguns poucos desencontros, esteve bem sob a regência atenta de Sílvio Viegas, que trabalhou com cuidado as constantes mudanças rítmicas da obra. Pianista da cena inicial, Emerson Oliveira (Jasbo Brow) demonstrou grande musicalidade.

Nas partes faladas, os atores Luciano Luppi (coronel/policial) e, especialmente, Henrique Luppi (Al, um detetive), foram bem convincentes. Nas pequenas partes cantadas, apenas Carlos Átila (Robbins/vendedor de caranguejos) deixou a desejar, sobretudo por conta de um timbre bastante desfavorável. antibiotic cheap Andreia de Paula (amiga de Serena) e Antônio Marcos Batista (Jim e agente funerário) estiveram bem, assim como Lucas Viana (Peter). A soprano Indaiara Patrocínio (Annie/Lilly/vendedora de morangos) exibiu um lindo timbre cantando lindamente o pregão da vendedora. E o tenor Lucas Damasceno (Mingo/Nelson), também dono de um belo timbre, demonstrou ter uma voz bastante promissora.

Nas partes secundárias, mas com importância na trama, o barítono Cristiano Rocha (Jake) demonstrou carecer de maior segurança e melhor afinação. Falta-lhe ainda uma pasta baritonal mais convincente, tanto que, na canção de ninar às avessas e machista do primeiro ato, A woman is a sometime thing, quem acabou se destacando mais foi o conjunto coral. O cantor saiu-se um pouco melhor na canção marinheira do segundo ato, Oh, I’m agoin’ out to the Blackfish banks. A experiente soprano Eliseth Gomes teve ótima atuação cênica como a carola Serena, viúva de Robbins. Sua grande ária da cena do velório, My man’s gone now, teve rendimento apenas razoável, com certa dificuldade de projeção na região média. Já na oração do segundo ato, Oh, doctor Jesus, a artista ofereceu uma interpretação vocal bastante expressiva.

A mezzosoprano Juliana Taino demonstrou grande desenvoltura como Maria, a dona de um boteco. Sua voz sempre equilibrada tem qualidades que merecem ser exploradas, tanto que, no seu grande momento, I hates yo’ struttin’ style, quando sua personagem demonstra seu asco pelo traficante Sporting Life, a artista magnetizou o público. Outra bela surpresa foi a soprano Nabila Dandara (Clara), responsável por interpretar a irresistível Summertime Pills no começo da ópera. A artista disse logo a que veio, exibindo uma voz segura, afinação precisa e um belíssimo timbre: tal qual a mezzosoprano, um nome a se observar.

Os dois vilões foram muito bem defendidos na produção mineira. O barítono Michel de Souza, que ouvi pela primeira vez e que desenvolve sua carreira no exterior (recentemente foi o Ping, de Turandot, na Royal Opera, em Londres), foi um excelente Crow. O personagem tem dois grandes momentos: a cena e o dueto com Bess, You know very well dis Crow/What you want wid Bess?, que foram eletrizantes; e sua ária, infelizmente parcialmente cortada, A red-headed woman makes. O artista exibiu uma bela pasta baritonal, excelente projeção e domínio de cena. Sua carreira deve ser acompanhada com muita atenção.

Não creio ser exagero dizer que o tenor Pills Geilson Santos encontrou no traficante Sporting Life o grande personagem de sua carreira até aqui. Cenicamente, sua interpretação foi imaculada, através de gestos, posturas, movimentos e expressões. Vocalmente, sua segunda ária, There’s a boat dat’s leavin’ (quando tenta convencer Bess a segui-lo até Nova York e consegue fazer com que ela volte a consumir drogas), talvez não tenha sido tão perfeita quanto a primeira, mas ainda assim foi um grande momento musical. A primeira ária, It ain’t necessarily so, na cena do piquenique, quando comenta cinicamente passagens da Bíblia, foi cantada e dançada com brilho. Aqui, acompanhado pelo coro e integrado à coreografia dos bailarinos, o artista exerceu o seu direito de roubar a cena: foi um dos grandes momentos da noite, senão o maior, com direito a merecidíssimos aplausos entusiasmados em cena aberta.

Coube à soprano Marly Montoni a responsabilidade de dar vida à prostituta Bess, e a artista o fez com ótima presença cênica e equilíbrio vocal. Tanto em seu spiritual do primeiro ato, Oh, the train is at the station (The Promise’ Lan’), quanto nos dois duetos com Porgy, os belíssimos Bess, you is my woman now e I loves you, Porgy, a soprano exibiu um belíssimo timbre escuro, excelente afinação, ótima projeção e emissão equilibrada em todas as regiões de seu registro. No já citado e eletrizante dueto com Crow, sua entrega à cena foi de arrepiar: ela simplesmente era Bess naquele momento, subjugada por sua natureza libertina e pelo desejo nela despertado pela virilidade de Crow.

Geilson Santos (como Spoletta, em Tosca, no Rio de Janeiro) e, especialmente, Marly Montoni (como Abigaille, em Nabucco, em São Paulo) vinham de trabalhos menos satisfatórios, que resultaram em uma série de críticas desfavoráveis. Ambos souberam agarrar a chance que tiveram de dar a volta por cima. Não é com mimimi, como certos artistas fazem por aí, que se revertem críticas mais duras. É no palco, e somente no palco, que a reviravolta pode se dar em grande estilo. Foi o que aconteceu em Belo Horizonte.

Por fim, o experiente baixo carioca, de importante carreira internacional, Luiz-Ottavio Faria deu vida a um Porgy irrepreensível. Com sua voz poderosa, sempre bem projetada e de timbre marcante, e ainda com seu exímio senso de estilo, o artista dominou suas principais cenas. Em sua performance, é possível notar o amadurecimento do personagem, da alegria expressa em Oh, I got plenty o’ nuttin’, passando pelos dois duetos de amor com Bess, até chegar ao ato derradeiro, quando ele percebe que sua amada se foi, enganada pelo traficante. Não se deixando abater, ele decide procurá-la onde quer que ela esteja: Oh Lawd, I’m on my way. Os nobres sentimentos experimentados pelo simples mendigo foram expressos sempre em alto nível por um de nossos cantores mais completos.

No fim das contas, entre erros e acertos, tivemos em Belo Horizonte um Gershwin bem cantado. Isso, somado à dificuldade de se montar uma ópera como esta, ainda sob direitos autorais e que demanda uma grande quantidade de cantores negros (ainda minoria na nossa lírica), fez valer a iniciativa da escolha deste belíssimo título. E tudo isso com um elenco totalmente nacional, mesclando vozes mais experientes com outras tantas bastante promissoras. É a diferença que faz um bom escalador de elencos.

 

Fotos de Paulo Lacerda/FCS. Na imagem do post: Geilson Santos, Marly Montoni e Juliana Taíno.

 
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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com