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Encenação de “Otello” não convence no Municipal de São Paulo

Tenor americano e barítono brasileiro (que cantará em breve na Arena de Verona) são os destaques.


Otello, ópera em quatro atos de Giuseppe Verdi sobre libreto de Arrigo Boito, com base na tragédia homônima de William Shakespeare, abriu na última quinta-feira a Temporada Lírica 2015 do Theatro Municipal de São Paulo. O leitor encontra um pequeno resumo sobre a gênese da obra e considerações sobre seu libreto e sua música erythromycin no script clicando aqui.

Muito se esperava da concepção do renomado encenador Giancarlo del Monaco, mas a decepção com sua versão para a obra-prima de Verdi, em cartaz no Municipal paulistano até 27 de março, é tão grande quanto a expectativa gerada por sua presença na principal casa lírica brasileira. Em sua montagem, o diretor prefere abandonar qualquer resquício de realismo, e transporta a ação para o “universo”, buscando enfatizar as relações humanas.

A realização desta ideia no palco não se concretiza de modo satisfatório e o que temos é uma montagem visualmente cansativa, que por mais de duas horas (descontando-se os dois intervalos) exibe ao fundo do palco projeções de imagens um tanto repetitivas de planetas, estrelas e outros corpos celestes (a cargo do videoartista zyban cost south africa Mattia Diomedi), tendo por único cenário (de Pills William Orlandi) três rampas que, ao longo da noite, movimentam-se de forma que uma ou duas fique(m) um pouco acima da(s) outra(s).

Dessa forma, há um grande espaço vazio no palco, que é preenchido apenas pelos cantores/atores. O trabalho de direção de del Monaco, no entanto, não alcança uma ação cênica que faça o espectador se esquecer do resto, e o resultado final é bastante insatisfatório. O grau demasiado de abstração exigido pela montagem pode ser resumido numa passagem do quarto ato, quando Desdemona ouve um barulho e Emilia lhe diz que foi só o vento: vento no vácuo do espaço? Este é só um exemplo dentre tantos.

A atual produção paulistana é complementada pela luz pouco inspirada de Wolfgang von Zoubek e pelos figurinos de Pasquale Grossi. Em defesa da luz de Zoubek, projetada em um ambiente sempre muito escuro, poder-se-ia dizer que não havia mesmo muito o que fazer dentro da concepção criada pelo encenador. Sobre os figurinos de Grossi, além de serem bastante feios de modo geral (fazendo menção a um futurismo estilo “Matrix”), paira ainda o pecado mortal de vestir a “prima donna” com os trajes menos inspirados que eu já tenha visto em quase 20 anos de presença constante em nossos teatros de ópera.

Diante de tudo isso, foi impossível não realizar mentalmente uma comparação entre a atual montagem e a produção da mesma ópera que, poucos meses antes, em setembro de 2014, eu vira no Theatro da Paz, em Belém. Na ocasião, a produção capitaneada por http://iraqitradeunions.org/?p=9660 Mauro Wrona, ainda que não contasse com um tenor à altura do protagonista, obteve um resultado cênico muito mais eficiente.

Se há também coisas positivas neste Otello, elas se encontram exclusivamente na interpretação musical, como se pôde perceber na récita de estreia, em 12 de março. Em curta participação, o Coro Infantojuvenil da Escola Municipal de Música, preparado por Regina Kinjo, esteve bem, assim como o Purchase Coro Lírico Municipal, este preparado por Bruno Facio Purchase . Já a Orquestra Sinfônica Municipal, sob a sensível condução de seu titular, John Neschling, demonstrou clara insegurança no começo da récita, mas no fim do primeiro ato se mostrava bem mais consistente, e assim se manteve muito bem até o fim da récita.

Dentre os solistas, que sofreram com a falta de sustentação acústica no palco pela ausência de cenários de verdade, Rogério Nunes (Arauto), Leonardo Pace (Montano) e Giovanni Tristacci (Roderigo) não comprometeram. O baixo Felipe Bou teve dificuldades nas passagens mais graves de Lodovico, enquanto a mezzosoprano Ana Lucia Benedetti foi uma muito boa Emilia.

O tenor romeno Marius Brenciu foi um Cassio vocalmente comum, e não justificou sua vinda de tão longe. A soprano croata Lana Kos compôs uma Desdemona correta, e cresceu ao longo da récita, atingindo seu melhor momento na tocante Ave Maria do último ato.

O barítono Rodrigo Esteves reviveu em São Paulo o excelente Iago que interpretara em Belém em 2014, ainda que sua atuação anterior tenha sido mais consistente cenicamente, enquanto em São Paulo o artista ficou preso às ideias não muito inspiradas da direção. Vocalmente, grandes momentos como o Credo e o dueto final do segundo ato valorizaram sua performance.

Otello talvez seja, em nossos dias, o personagem para o qual seja mais difícil encontrar cantores capazes de interpretá-lo, especialmente pela cor e pela pasta vocais exigidas pela partitura do grande mestre. Tendo sempre isso em mente, o tenor norte-americano Gregory Kunde até que deu muito boa conta de sua terrível parte. Mesmo sem ser perfeito, Kunde atinge momentos de grande valor, como no dueto do fim do primeiro ato com Desdemona (Già nella notte densa), no dueto com Iago que encerra o segundo ato e em toda sua participação no quarto ato. Uma bela performance.

Se a atual produção de Otello teve os seus problemas, como relatado acima, isso em nada diminui o interesse pela Temporada Lírica 2015 do Theatro Municipal de São Paulo. Vale lembrar que 2014 também havia começado com um cheap beconase Trovatore Purchase muito mal dirigido cenicamente, mas depois disso a temporada cresceu bastante.

A próxima produção lírica do Municipal paulistano, com récitas entre 22 de abril e 02 de maio, será o programa duplo Ainadamar (de Osvaldo Golijov) e Um Homem Só (de Mozart Camargo Guarnieri).


Rodrigo Esteves na Arena de Verona

Um dos mais completos cantores líricos brasileiros em atividade, o barítono Rodrigo Esteves, que também participará em São Paulo do programa duplo supracitado, fará sua estreia na Arena de Verona na próxima temporada de verão do célebre palco italiano. Esteves interpretará Scarpia, o terrível vilão da Tosca, nos dias 26 de junho, 8 e 11 de julho, numa produção assinada por Hugo de Ana.


O Otello do TMSP nos cinemas

Em breve serão divulgadas mais informações: a récita do dia 24 da produção paulistana de Otello terá transmissão em vários cinemas. Aguardemos os detalhes.

 

Foto do post, de Heloísa Ballarini: Gregory Kunde e Rodrigo Esteves.document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);

4 Comments

  1. Uma pena esta interpretação de Otello, maçante, sem figurinos apropriados, estilo Matrix, onde não se distinguiam os personagens (tirando Desdemona e Ludovico-também pobres em criatividade),e verdadeiramente cansativo sem os cenários tão característicos neste gênero.Tempo e dinheiro perdidos…sinto pelos artistas do espetáculo….impossível divertir-se……

  2. Olá Leonardo, assisti à última récita e confesso que fiquei extasiado ao final do primeiro ato. A sensação de estar em uma nave espacial, em um tempo futuro, onde as emoções seriam as mesmas daquelas do imaginário de Shakespeare, foi indescritível para mim. Achei tudo muito bonito. Mas infelizmente, nos atos seguintes, o fato de não ter sido introduzida nenhuma nova ideia tornou o espetáculo monótono. De repente, um outro ato poderia ser ambientado em um planeta no qual teria chegado a nave (permito-me aqui exercitar minha imaginação de espectador). Os solistas estavam excelentes! Talvez, por ser a última e 9a récita, todos estavam muito bem entrosados e com suas vozes bem aquecidas e imersas nos papéis. Lana Kos e Gregory foram tocantes no dueto de amor do primeiro ato e em todo o último ato. No entanto, o posicionamento deles na lateral do palco na cena final roubou muito da dramaticidade. Gostei da iluminação, principalmente aquela avermelhada ao final, quando Otello comete seu crime, fazendo alusão a um Sol infernal. Faltou um ou outro elemento cênico, mas, para mim, foi um Otello que valeu muito a pena.

    Grande abraço e até o próximo espetáculo!

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com