CríticaLateralÓperaRio de Janeiro

Em honra a Carlos Gomes

Vozes equilibradas, coro exuberante e belA�ssimo visual sA?o os destaques da produA�A?o carioca de Lo Schiavo.

 

Neste ano de 2016, nA?o sA? comemoramos os 180 anos de nascimento do mais importante compositor de A?peras das AmA�ricas, como sA?o lembrados tambA�m os 120 anos de sua morte. NA?o foi por acaso, portanto, que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro incluiu em sua programaA�A?o deste ano Lo Schiavo (O Escravo), A?pera em quatro atos de AntA?nio Carlos Gomes sobre libreto de Rodolfo Paravicini, com base em um argumento de Alfredo d’Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay.

Nada mais justo do que aproveitar a efemA�ride para voltar a encenar no nobre palco da CinelA?ndia, 16 anos depois, uma obra do mestre campineiro. A A?ltima A?pera de Gomes devidamente encenada no Municipal do Rio antes deste Schiavo fora Il Guarany, em 2000. E A� interessante notar tambA�m como esse fim de ano estA? bastante dedicado a Carlos Gomes, pois, alA�m desta produA�A?o carioca, o Municipal de SA?o Paulo apresentarA? Fosca a partir de 7 de dezembro, enquanto o PalA?cio das Artes, de Belo Horizonte, oferecerA? uma versA?o reduzida (?!) de Il Guarany a partir de 10 de novembro.

 

A obra

A gestaA�A?o de Lo Schiavo foi longa. O Visconde de Taunay, um abolicionista, esboA�ou a trama em 1880 (segundo http://afisenihusni.mhs.narotama.ac.id/2018/02/02/purchase-ralista-60/ Marcos da Cunha Lopes Virmond, no programa de sala) ou 1882 (segundo Lauro Machado Coelho, em A A�pera Italiana apA?s 1870), com um protagonista negro. Apoiador da causa, ainda que sem se engajar nela diretamente, Gomes levou a ideia para a ItA?lia, onde foi convencido de que trocar o protagonista de um negro para um A�ndio faria com que a obra fosse mais bem aceita pelo pA?blico europeu. No programa de sala, Lopes Virmond aprofunda a questA?o e ainda apresenta o resumo da trama original de Taunay (vale muito a leitura).

Com a mudanA�a da etnia do protagonista, foi-se buscar na HistA?ria do Brasil e em um poema de GonA�alves de MagalhA?es (A ConfederaA�A?o dos Tamoios) o fato histA?rico que serve de pano de fundo para a obra. IberA?, o protagonista escolhido, foi um personagem real: o tupinambA? AimberA?, um dos lA�deres da revolta, que teve o nome alterado na A?pera por questA�es fonA�ticas (saiba mais sobre a ConfederaA�A?o dos Tamoios). AlA�m dessas fontes, estudos indicam que a elaboraA�A?o do libreto baseou-se tambA�m em Les Danicheff, de Alexandre Dumas, filho.

A troca de um negro por um A�ndio fez com que o Visconde de Taunay solicitasse a retirada de seu nome do projeto a�� o que acabou nA?o acontecendo, e seu nome constou junto ao de Paravicini nas primeiras ediA�A�es, pela Casa Ricordi, do libreto e da reduA�A?o para canto e piano. Entre idas e vindas, a composiA�A?o de Lo Schiavo foi problemA?tica, incluindo uma disputa judicial entre o compositor e seu libretista italiano, que nA?o aceitou o fato de Gomes ter substituA�do, no segundo ato da A?pera, sua versA?o do Hino A� Liberdade pela de Francesco Giganti (ou Gigante, dependendo da fonte de pesquisa). Tendo perdido a batalha nos tribunais, e vendo cancelada a estreia da A?pera em Bolonha, restou a Carlos Gomes trazer sua nova obra para o Brasil.

Depois de uma campanha de arrecadaA�A?o de fundos, capitaneada pelo prA?prio imperador, D. Pedro II, a A?pera, dedicada A� princesa Isabel, estreou em 27 de setembro de 1889, sob a regA?ncia do prA?prio compositor, aqui mesmo no Rio de Janeiro no entA?o Theatro D. Pedro II.

Se Lo Schiavo nA?o chega a ser uma obra-prima, isso se deve principalmente ao libreto de Paravicini, que estA? longe de ser um exemplo do gA?nero e contA�m passagens um tanto confusas. Se, por outro lado, A� uma obra belA�ssima, isso se deve especialmente A� inspirada mA?sica de Carlos Gomes, que escreveu para ela algumas das mais belas pA?ginas que saA�ram de sua pena:

A?rias primorosas, como Quanto nascesti tu (AmA�rico), O ciel di Parahyba (Ilara) e Sogni da��amore (IberA?) expressam com maestria toda a verve lA�rica do compositor, ao mesmo tempo em que as passagens corais (e nA?o seria exagero algum afirmar que Lo Schiavo A� uma A?pera-coral) sA?o exemplos de construA�A?o melA?dica, harmA?nica e dramA?tica. Tudo conduzido por uma orquestraA�A?o em sua maior parte riquA�ssima, com especial destaque para o prelA?dio que inicia a obra e para o intermezzo do quarto ato: a magnA�fica Purchase Alvorada, talvez a mais bela e fascinante joia que Carlos Gomes tenha legado ao mundo.

ClA?udia Azevedo (sentada), Fernando Portari (de pA�), Adriane Queiroz e Rodolfo Giugliani (no chA?o)
ClA?udia Azevedo (sentada), Fernando Portari (de pA�), Adriane Queiroz e Rodolfo Giugliani (no chA?o)

 

A produA�A?o

A produA�A?o em cartaz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro atA� o dia 27 de outubro conta com uma encenaA�A?o visualmente belA�ssima assinada pelo diretor italiano Pier Franceso Maestrini, que aposta, junto com o cenA?grafo Juan Guillermo Nova, em uma ambientaA�A?o quase toda virtual, acrescida de alguns elementos que complementam os cenA?rios.

Se Maestrini acerta ao manter a A�poca original do libreto e ao dirigir com precisA?o tanto solistas, como coristas em uma eficiente movimentaA�A?o cA?nica, o espanhol Nova (escolhido pelo Movimento.com como o melhor cenA?grafo de 2015 por seu trabalho em Manon Lescaut, no Theatro Municipal de SA?o Paulo) ambienta bem as cenas da A?pera atA� o terceiro ato, criando imagens que lembram pinturas a�� a do primeiro ato claramente inspirada no famoso quadro A Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles.

O cenA?grafo, porA�m, erra a mA?o no ato final: a cena se coloca A�s margens da Guanabara, e nA?o com a baA�a ao fundo, como seria mais eficiente; durante a execuA�A?o da Alvorada, o amanhecer nA?o ocorre lentamente, mas de forma um tanto abrupta, jA? no final do intermezzo sinfA?nico; e logo apA?s o amanhecer, tudo escurece de novo, mais uma vez abruptamente. Exatamente por ser virtual, talvez esse cenA?rio do quarto ato possa ser alterado com mais facilidade para uma remontagem futura, quando tais ideias menos inspiradas poderiam ser corrigidas. AliA?s, houve uma pequena falha na projeA�A?o do cenA?rio do primeiro ato na rA�cita a que assisti (a segunda da temporada, no dia 23 de outubro), rapidamente corrigida pele equipe tA�cnica. Nada grave, mas o fato serviu para demonstrar o risco do cenA?rio virtual, que exige precisA?o cirA?rgica dos responsA?veis pela sua projeA�A?o.

Os figurinos de Alberto Spiazzi cumprem bem a sua funA�A?o em relaA�A?o aos homens e mulheres brancos, quando se apresentam belos e adequados, mas o figurinista caiu no velho clichA?, relativamente comum nas A?peras, de vestir A�ndios brasileiros como se fossem norte-americanos. A luz de FA?bio Retti dialoga bem com a linguagem dos cenA?rios virtuais, e a questA?o supracitada da ambientaA�A?o do A?ltimo ato parece dizer respeito mais ao cenA?grafo que ao iluminador.

AA�eficiente coreografia de JoA?o Wlamir foi bem defendida por integrantes do BalA� do Theatro Municipal e por alunos da Escola Estadual de DanA�a Maria Olenewa, com destaque para a participaA�A?o especial de uma das primeiras bailarinas da casa, Karen Mesquita.

A Orquestra SinfA?nica do Theatro Municipal, apesar de algumas passagens de afinaA�A?o imprecisa, ofereceu no geral uma boa performance, mostrando-se adequadamente expressiva no prelA?dio inicial e exuberante na Alvorada, o que nA?o A� pouca coisa. Roberto Duarte conduziu a A?pera utilizando-se de sua prA?pria revisA?o da partitura, abrindo os cortes tradicionais e apresentando ao pA?blico a obra completa de Carlos Gomes, em decisA?o mais do que acertada, que nA?o sei se foi do prA?prio regente ou da direA�A?o da Casa. Optando por tempos mais lentos em muitos momentos, o maestro valorizou com inteligA?ncia as melodias de Gomes, enquanto em outras passagens nA?o conseguiu controlar o volume do conjunto, que passou do ponto aqui e ali.

Em performance arrebatadora, o Coro do Theatro Municipal, preparado por JA�sus Figueiredo, foi responsA?vel por alguns dos melhores momentos da tarde/noite de domingo. Desde o coro de introduA�A?o, Oggi Imene qui prepara, passando pelo belA�ssimo finale creme Buy do segundo ato e pela exuberante cena da ConfederaA�A?o dos Tamoios no terceiro ato, atA� chegar ao desfecho da trama, o conjunto exibiu expressividade e sonoridade cativantes.

Membros do Coro do Municipal participaram como solistas em partes diminutas: Luiz Furiati, Ilem Vargas, FA?bio Belizallo e Luis Gustavo Farina (selvagens); Elizeu Batista (Botocudo), Celso Mariano (Arary), online Weber Duarte Cheap (CaiapA?), Geilson Santos (CarijA?), Pedro Gattuso (TapacoA?) e Ciro D’AraA?jo (TupinambA?); e, com maior destaque e boas participaA�A�es, Ricardo Tuttmann (Guaruco) e Pedro Olivero (GoitacA?). FlA?vio Mello, aluno da Academia de A�pera Bidu SayA?o, tambA�m esteve bem em sua curta participaA�A?o como Lion.

O baixo Saulo Javan esteve bem como o Conde Rodrigo, enquanto o barA�tono Leonardo PA?scoa destacou-se como o feitor Gianfera, em atuaA�A?o um tanto violenta e bastante crA�vel e com voz segura. A gaA?cha ClA?udia Azevedo, soprano ligeiro de tA�cnica apurada, defendeu com competA?ncia a parte da Condessa de Boissy em sua primeira A?pera encenada no Municipal do Rio (ela jA? atuara na casa em Il Turco in Italia em forma de concerto na programaA�A?o da extinta OSB A�pera & RepertA?rio). Sua linda e delicada voz foi encoberta pela orquestra aqui e ali, mas soou quase sempre muito bem, com destaque para o Hino A� Liberdade, Un astro splendido nel cielo appar.

Estreando no Municipal nesta produA�A?o, a excelente soprano paraense Adriane Queiroz, de notA?vel carreira internacional, deu vida A� Ilara, e exibiu ao pA?blico carioca seu belo timbre encorpado, com agudos generosos e graves sonoros. Esta belA�ssima artista, indicada pelo Movimento.com como melhor cantora por dois anos consecutivos (em 2014 por Mefistofele e em 2015 por Manon Lescaut), brilhou e encantou desde sua entrada (Segue e sorveglia i passi miei) e sua primeira cena e dueto com AmA�rico (Ah! Per pietA�). Seus melhores momentos, porA�m, ainda estavam por vir: as A?rias Purchase O ciel di Parahyba e Come serenamente, interpretadas com doA�ura e expressividade.

O tenor Fernando Portari viveu um AmA�rico impecA?vel, dominando o palco e exibindo sua voz cA?lida e expressiva. Destacou-se em todos os nA?meros de conjunto e, especialmente, em sua romanza do segundo ato, Quando nascesti tu, e no tenso dueto com o barA�tono no ato final, BenchA� le insegne Order , que evolui para um terceto com a intervenA�A?o da soprano.

Adriane Queiroz, Fernando Portari e Rodolfo Giuliani (de costas)
Adriane Queiroz, Fernando Portari e Rodolfo Giuliani (de costas)

 

O barA�tono Rodolfo Giugliani foi um IberA? exemplar, com voz robusta e potente, e com grande presenA�a. JA? em sua primeira intervenA�A?o, In aspra guerra, o artista disse a que veio, confirmando mais adiante a intensidade de sua atuaA�A?o de alto nA�vel em passagens como o dueto com a soprano no terceiro ato, Fra questi fior che adori, o monA?logo subsequente, Fragile cor di donna, atA� chegar A� A?ria Sogni da��amore no ato final. Giugliani cantou com a bravura do nobre guerreiro que A� IberA?, e certamente estA? vivendo no Rio de Janeiro um dos grandes momentos de sua carreira atA� aqui.

Fechada a conta, e descontados os poucos senA�es assinalados acima, Lo Schiavo destaca-se como uma das melhores e mais atraentes montagens da temporada lA�rica nacional deste ano, honrando a obra de AntA?nio Carlos Gomes.

A prA?xima e A?ltima A?pera da temporada lA�rica oficial do Theatro Municipal do Rio de Janeiro neste ano serA? JenA?fa, de LeoA? JanA?A?ek, com quatro rA�citas a partir de 18 de novembro.

 

Na foto do post, Adriane Queiroz A� esquerda.

Fotos: JA?lia RA?naiA�

 

Leia tambA�m a crA�tica de Sergio Casoy

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com