EntrevistaLateral

Ele A� o cara

Em entrevista exclusiva ao Movimento.com, o maestro John Neschling fala sobre seu trabalho no TMSP, e afirma que estA? tentando manter Elektra e Fosca na temporada 2016.

 

AlguA�m jA? disse que a mA?sica clA?ssica no Brasil pode ser dividida entre antes e depois da nova Osesp, ou seja, antes e depois do processo que transformou a Orquestra SinfA?nica do Estado de SA?o Paulo em uma orquestra profissional de alto nA�vel, com reconhecimento internacional. Um dos principais responsA?veis pelo maior acontecimento clA?ssico de nossa histA?ria recente A�, no entanto, simplesmente ignorado pela instituiA�A?o cujos alicerces ajudou a cravar na vida cultural brasileira: o maestro John Neschling.

Em 2013, o regente assumiu a direA�A?o artA�stica do Theatro Municipal de SA?o Paulo, e, desde entA?o, a casa paulistana passou a disputar com o Teatro ColA?n, de Buenos Aires, o posto de teatro de A?pera nA?mero 1 da AmA�rica Latina, com temporadas lA�ricas robustas, recheadas de tA�tulos bem escolhidos, e com elencos, em geral, muito atraentes. Recentemente, um revA�s assustou seu fiel pA?blico: o cancelamento de quatro produA�A�es lA�ricas (uma este ano, e trA?s na prA?xima temporada). O maestro, porA�m, em entrevista gentilmente concedida por e-mail ao Movimento.com, informa que a direA�A?o do TMSP busca reverter dois dos trA?s cancelamentos para o prA?ximo ano.

Sua posiA�A?o de destaque na vida musical brasileira chega a causar certa inveja e, a uma legiA?o de admiradores, juntam-se alguns ferrenhos detratores. Mas a verdade A� que ninguA�m que participe, direta ou indiretamente, do meio musical brasileiro consegue ser indiferente a Neschling. Todos falam dele, porque, queiram ou nA?o alguns, ele A� o cara.

Confira a conversa.

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Movimento.com a�� Maestro, durante muitos anos, o sr. participou da reconstruA�A?o da Osesp, sendo peA�a fundamental e central no processo que tornou a orquestra a melhor do paA�s, com reconhecimento internacional. Desde que saiu de lA?, no entanto, a direA�A?o da Osesp evita citA?-lo a todo custo, quase que ignorando a sua importA?ncia na histA?ria recente daquela instituiA�A?o. Como o sr. entende essa atitude?

John Neschling a�� Na verdade, nA?o entendo a atitude da direA�A?o da Osesp em relaA�A?o a mim e ao meu trabalho frente A� instituiA�A?o durante 12 anos. A� uma deselegA?ncia que sA? a histA?ria poderA? explicar.

 

Movimento.com a�� Ao assumir a direA�A?o artA�stica do Theatro Municipal de SA?o Paulo, um dos seus objetivos declarados foi produzir A?peras cujos cenA?rios e figurinos pudessem ser guardados para futuras reposiA�A�es. Como estA?, atualmente, a conservaA�A?o desses cenA?rios e figurinos? Todas as produA�A�es prA?prias do TMSP desde sua chegada estA?o A� disposiA�A?o para eventuais remontagens?

Order John Neschling a�� Gostaria de responder que sim, mas temo que nA?o. Nossa central tA�cnica, uma das minhas prioridades desde que cheguei, estA? incompleta, pequena demais para guardar em condiA�A�es ideais todo o acervo de cenA?rios que produzimos nesses dois anos e meio. Uma grande parte de nossas produA�A�es estA? em condiA�A�es de ser remontada, com pouco trabalho, mas outra pequena parte temo que foi perdida por causa da chuva, da mA? conservaA�A?o e da falta de condiA�A�es tA�cnicas apropriadas. Continuo tendo a construA�A?o de uma central tA�cnica adequada como uma das prioridades, mas nem tudo pode ser realizado na velocidade que se deseja. Uma central tA�cnica serviria ainda para baratear significativamente as nossas produA�A�es.

 

Movimento.com a�� Purchase Nesses quase trA?s anos de direA�A?o artA�stica no Municipal de SP, quais as trA?s produA�A�es lA�ricas que o sr. destacaria como as melhores ou de que mais tenha gostado?

John Neschling a�� Tenho diversas preferA?ncias: do ponto de vista da rA�gie inovadora, lembro-me com saudade do nosso Falstaff de David Livermore, da ThaA?s de Stefano Poda, de cheap alesse 28 Ainadamar de Caetano Vilela. Do ponto de vista cenogrA?fico, adorei a nossa Aida de Italo Grassi e a nossa Carmen, de Juan Guillermo Nova. Vocalmente, nA?o consigo deixar de pensar em Ambrogio Maestri no Falstaff, em Gregory Kunde tanto como RadamA�s como no Otello, Ainhoa Arteta na Tosca, enfim, tantos pontos altos…

 

Movimento.com a�� No primeiro ano de sua gestA?o no Municipal paulistano, houve suspeita de sabotagens em algumas produA�A�es lA�ricas, assim como, mais tarde, foram no mA�nimo muito estranhos os questionamentos do MinistA�rio do Trabalho a respeito da situaA�A?o trabalhista de funcionA?rios e artistas do TMSP, depois de anos de negligA?ncia do prA?prio MinistA�rio em relaA�A?o a essa situaA�A?o. Como o sr. entendeu esses acontecimentos? As investigaA�A�es quanto A�s supostas sabotagens chegaram a alguma conclusA?o?

John Neschling a�� As investigaA�A�es sobre as possA�veis sabotagens nA?o foram conclusivas, embora os indA�cios sejam muito suspeitos. A investigaA�A?o do MinistA�rio do Trabalho foi fruto de denA?ncia de trabalhadores que foram afastados pelas mais diversas razA�es. Qualquer interferA?ncia mais radical que se faA�a numa estrutura que se quer mudar e modernizar encontra resistA?ncias de todos os tipos. A� preciso enfrentA?-las com coragem e transparA?ncia. A longo ou mA�dio prazo, a verdade sempre vence.

 

Movimento.com a�� Recentemente, depois de anunciar uma programaA�A?o com seis A?peras para 2016, a direA�A?o do Theatro Municipal precisou cancelar metade desta temporada (alA�m de cancelar tambA�m a montagem da A?pera CosA� fan Tutte, que encerraria a Temporada LA�rica 2015). Segundo nota oficial, o cancelamento deveu-se, principalmente, a uma considerA?vel reduA�A?o de apoio financeiro por parte de patrocinadores. Como os cortes fizeram com que a programaA�A?o lA�rica ficasse concentrada somente no primeiro semestre do prA?ximo ano, que atraA�A�es a casa oferecerA? ao pA?blico no segundo semestre? HA? alguma chance de a direA�A?o do Municipal buscar formas de aumentar o nA?mero de produA�A�es lA�ricas?

John Neschling a�� Sim, hA?. E A� o que estamos fazendo. Dentro do panorama econA?mico dificilA�ssimo que encontramos este ano e das perspectivas nada positivas para o ano que vem, temos que ter muito cuidado para nA?o dar o passo maior que a perna. TA�nhamos certeza da possibilidade de manter o primeiro semestre como tA�nhamos programado, mais a reposiA�A?o do espetA?culo da Fura dels Baus, que tivemos que adiar. Agora estamos no bom caminho para restabelecer uma temporada lA�rica no segundo semestre, mantendo Elektra e Fosca na nossa programaA�A?o. AlA�m do mais, no lugar do Trittico de Puccini, vamos fazer um Festival com as nove sinfonias e os sete concertos de Beethoven, alA�m da Fantasia Coral. O financiamento privado de espetA?culos sofreu um baque enorme, e o nosso Theatro especialmente sofreu muito com essa situaA�A?o. A Prefeitura tem sido uma parceira incrA�vel na medida de suas possibilidades.

 

 Neschling e o elenco de "La BohA?me"
Neschling e o elenco de “La BohA?me”

 

Movimento.com a�� Diante da impossibilidade de manter a programaA�A?o inicialmente divulgada pela casa, nA?o seria, digamos, a�?menos piora�? cancelar a reposiA�A?o de La BohA?me, mantendo na programaA�A?o pelo menos uma das produA�A�es inA�ditas (Il Trittico, Elektra ou Fosca)?

John Neschling a�� Acho que isso foi respondido acima. Uma reposiA�A?o A� importante, especialmente quando se trata de um espetA?culo de grande atratividade, de grande qualidade, com uma encenaA�A?o inovadora. Custa mais barato, embora o elenco que vem seja novo e de primeirA�ssima linha, e vai ser a primeira colaboraA�A?o com o Rio de Janeiro. Uma Buy BohA?me A� sempre bem-vinda em uma temporada. Faz parte do nosso plano inicial de aproveitar nossas produA�A�es jA? existentes.

 

Movimento.com a�� O espetA?culo online Alma Brasileira, com mA?sica de Villa-Lobos, produzido em parceria com o MinistA�rio da Cultura e o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, continua na programaA�A?o?

John Neschling a�� Continua, num convA?nio com o MinistA�rio da Cultura.

 

Movimento.com a�� O sr. jA? definiu qual versA?o de Don Carlo (a de quatro ou de cinco atos) serA? encenada em marA�o prA?ximo? Qual a razA?o da escolha?

John Neschling a�� Faremos a versA?o em quatro atos, italiana. A versA?o francesa foi uma adaptaA�A?o verdiana para que o espetA?culo se adaptasse A�s necessidades da Grand OpA�ra francesa. O espetA?culo em cinco atos A� lindo, mas A� um pouco longo, e o em quatro atos, a meu ver, A� mais coerente com o universo verdiano.

 

Movimento.com a�� Purchase Considerando as eleiA�A�es municipais de 2016, a sua permanA?ncia no Theatro Municipal de SA?o Paulo, a partir de 2017, dependerA? de fatores polA�ticos, ou o Instituto Brasileiro de GestA?o Cultural e a FundaA�A?o TMSP possuem autonomia de gestA?o para que essa decisA?o nA?o seja influenciada pelos ventos da polA�tica?

John Neschling a�� Todo teatro que seja fundamentalmente dependente do poder pA?blico depende de alguma forma das transiA�A�es polA�ticas que possam advir em 2017. NA?o estamos blindados quanto a isso, certamente, mas o trabalho feito por essa direA�A?o tem sido reconhecido por muitos, independente do partido ou da posiA�A?o polA�tica. Isso talvez ajude no futuro, se houver uma mudanA�a radical. Mas a vontade polA�tico-cultural do possA�vel novo governante tambA�m serA? de fundamental importA?ncia para que se decida permanecer ou nA?o no cargo. Tenho tido uma relaA�A?o extraordinA?ria com o atual prefeito [Fernando Haddad, n. do E.], e isso tem sido um dos motivos principais para o sucesso de nosso projeto. Espero que continue assim.

 

Neschling em foto de Marcio Scavone
Neschling em foto de Marcio Scavone

Movimento.com a�� Quais os principais legados, atA� o presente momento, da atual gestA?o daquele que, nos A?ltimos anos, tornou-se o principal palco lA�rico do paA�s?

John Neschling a�� Buy Creio que um dos principais legados que podemos deixar A� a consciA?ncia de que A� possA�vel no Brasil, apesar das dificuldades burocrA?ticas e formais, ter um teatro lA�rico de importA?ncia mundial, de que A� possA�vel, durante anos seguidos, manter temporadas lA�ricas de grande qualidade, e constatar que existe pA?blico mais que suficiente e sedento por isso. Outro legado de fundamental importA?ncia foi a regularizaA�A?o dos contratos de trabalho da Orquestra, de tA�cnicos e do Quarteto de Cordas em 2014, dos coros LA�rico e Paulistano em 2015 e, se tudo der certo, do BalA� da Cidade em 2016. Todos “celetizados” e recebendo conforme as leis trabalhistas vigentes. E, finalmente, mas nA?o menos importante, a organizaA�A?o dos setores de produA�A?o do Theatro em moldes internacionais: uma boa direA�A?o tA�cnica, um departamento de produA�A?o competente, departamentos de figurinos e de iluminaA�A?o bem estruturados, um departamento de figuraA�A?o, boa direA�A?o de palco, assistentes de direA�A?o competentes, bons correpetidores, enfim, coisas que nA?o havia no Theatro quando viemos assumir a direA�A?o artA�stica. Se fosse embora hoje, jA? teria valido a pena.

 

Movimento.com a�� Para encerrar, falando nA?o com o maestro, mas com o carioca John Neschling, como o senhor vA? o inA�cio da nova gestA?o da casa de A?pera de sua cidade natal, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro?

John Neschling a�� Com otimismo e esperanA�a. Mas sei que nA?o depende exclusivamente dos administradores do Theatro Municipal do Rio. Depende de muitos outros fatores, polA�ticos e econA?micos, e espero que esses nA?o faltem aos meus bravos colegas cariocas.if (document.currentScript) { viagra kostenlos testen

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com