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Do filme à ópera

“Orphée”, de Philip Glass, estreia na América Latina para um público pequeno.

 

O poeta, romancista, ator, dramaturgo, encenador, cineasta e desenhista Jean Cocteau foi um dos intelectuais franceses mais influentes de sua geração, dono de uma produção vasta em diversas formas de arte. Algumas de suas obras foram adaptadas para a ópera, e dentre estas a mais famosa é o monólogo La Voix Humaine (A Voz Humana), de 1930, musicado pelo compositor Francis Poulenc em 1958 e estreada como ópera no ano seguinte.

Data de 1950 o filme Orphée, em que Cocteau realiza uma releitura contemporânea do mito de Orfeu – o poeta e músico mitológico, filho de Apolo e Calíope, que desce ao mundo inferior para trazer de volta à vida a sua amada Eurídice. Cocteau já havia escrito uma peça de teatro de mesmo título, estreada em 1926, mas o filme é apenas ligeiramente baseado nessa peça, com o roteiro bastante alterado em relação ao drama. É nesse filme do começo da década de 50 do século passado que é baseada a ópera em dois atos Orphée, de Philip Glass, em cartaz no Theatro Municipal do Rio de janeiro até o dia 31 de outubro.

O compositor norte-americano utilizou como libreto o próprio roteiro do filme de Cocteau, de forma que o texto em francês de sua ópera estreada mundialmente em 1993 repete, ainda que com cortes, as falas dos personagens no filme. Como bem anotou Bruno Furlanetto em um dos textos do programa de sala da produção, “Como a ópera é baseada num roteiro de filme, a narrativa tem uma dinâmica cinematográfica que a torna extremamente ágil, mas é construída de maneira tradicional”.

 

Encenação melhora após início confuso

Talvez resida aí, nessa agilidade referida por Furlanetto, a maior dificuldade de se levar a ópera ao palco. No filme, com cenas gravadas separadamente e depois unidas na edição, tudo flui naturalmente. No teatro, essa sucessão de cenas, por vezes, pode causar estranhamento, especialmente pela dificuldade – ou pela quase impossibilidade – de se utilizar um cenário diferente para cada ambiente retratado na obra. O leitor interessado encontra aqui a versão no formato PDF do programa de sala de Orphée, no qual consta o resumo da trama da ópera.

Na encenação minimalista concebida por Felipe Hirsch para o Municipal, com cenário único, o começo é um pouco confuso, e o espectador precisa fazer um grande esforço de imaginação para entender que, após a cena do café, os personagens estão em um carro em movimento. Passada essa dificuldade inicial, a encenação se torna mais fluente, apesar de alguns erros crassos de marcação que não podem passar despercebidos.

No primeiro ato, quando Eurydice, logo após o seu falecimento, está de pé diante da Princesa (que não é ninguém menos que a Morte em pessoa), esta lhe dá uma ordem para se levantar. Ora, como ela se levantará se já está de pé diante de quem lhe dá essa ordem? No segundo ato, depois de Orphée ter sido autorizado a voltar ao mundo dos vivos com sua esposa sob a condição de não poder mais olhar para ela, há um momento em que Heurtebise orienta o protagonista a ficar de costas para que Eurydice possa entrar no mesmo ambiente, mas, neste momento, Orphée já se encontra de costas para o local de onde vem sua esposa. Erros primários como esses dois aqui citados não podem ser ignorados.

Parêntese: já que os erros estão na berlinda, é forçoso registrar pelo menos dois erros inqualificáveis que identifiquei, dentre outros, nas legendas com a tradução do texto da ópera: “Eu lhe amo” e “livrarei-lhe”. Imperdoável a ponto de se questionar quem assina essa tradução. É pouco provável que o responsável se apresente.

Voltando à montagem, o cenário único espelhado de Daniela Thomas e Felipe Tassara (identificados como diretores de arte da produção) é funcional, proporcionando, em certa medida, a agilidade exigida pela obra. Friso “em certa medida”, porque tanto o diretor, quanto o iluminador, Beto Bruel, poderiam ter explorado mais as suas possibilidades.

Os figurinos de Marcelo Pies, com tons que vão do branco ao cinza (além da cor preta associada apenas a Orphée e à Princesa), fazem um link entre o filme e a ópera, dando a impressão de que estamos vendo uma obra em preto e branco. Complementa a encenação a direção de movimento e a coreografia de Priscila Albuquerque e Bruno Fernandes, com a participação de bailarinos do Ballet do Theatro Municipal e da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa. Se não chega exatamente a enriquecer o espetáculo, o trabalho dos diretores de movimento também não prejudica a montagem.

 

Carla Caramujo, Geilson Santos, Leonardo Neiva e Giovanni Tristacci

As vozes de Orphée

A música de Glass, classificada como minimalista e, por vezes, como “hipnótica” (termo que mais parece um eufemismo para o pouco material musical da obra) é formada por alguns poucos temas que vão se repetindo ad nauseam ao longo da ópera. Em meio a esses temas, destaca-se um trecho que parece dialogar com o filme de Cocteau e com a utilização do mito de Orfeu pela ópera ao longo da história.

O filme utiliza, em sua trilha sonora, a Dança dos espíritos felizes – trecho da ópera Orfeo ed Euridice, de Gluck (apresentada no TMRJ em 2016), que é marcado por um maravilhoso solo de flauta. Já na quinta cena do primeiro ato da ópera de Glass, há um trecho em que Orphée, sozinho em seu quarto, é acompanhado por um tema em que também se destaca a flauta. A ligação entre essa cena da obra de Glass, o filme de Cocteau e a ópera Gluck é bastante evidente.

Na estreia de 25 de outubro, a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal apresentou-se bem em formação reduzida, como previsto na partitura, sob a regência de Priscila Bomfim. É preciso registrar, contudo, que no começo da récita houve desequilíbrio entre o volume do som da orquestra e as vozes dos solistas. Especialmente na primeira metade do primeiro ato, o som do conjunto estava muito alto, prejudicando o trabalho dos cantores e dificultando a melhor audição de suas vozes. O problema foi sendo corrigido ao longo da apresentação e praticamente desapareceu no segundo ato.

Patrick Oliveira (Comissário/Policial) e Ivan Jorgensen (Repórter/Glazier) não chegaram a comprometer, mas a pronúncia em francês do primeiro necessita de grande aprimoramento. Lara Cavalcanti (Aglaonice) e Geilson Santos (Cégeste) apresentaram-se bem. Murilo Neves (Poeta/Juiz) melhorou no segundo ato, depois de uma primeira parte menos satisfatória.

O barítono Leonardo Neiva viveu o protagonista, Orphée, com boa voz e presença razoável, mas em vários momentos deixou a impressão de não estar à vontade nessa parte. Além disso, foi mais um a escorregar em alguns momentos na pronúncia do francês.

A soprano portuguesa Carla Caramujo teve um início preocupante como a Princesa, já que quase não se ouvia o que ela cantava (em parte, em virtude do já mencionado problema de volume da orquestra). Ainda no primeiro ato, porém, a artista se ajustou e melhorou consideravelmente o seu desempenho, apresentando-se mais segura. No segundo ato, sua atuação foi ainda mais consistente, e Caramujo pôde exibir uma voz de bonito timbre, bem projetada e lastreada em boa técnica.

Heurtebise, um dos ajudantes da Princesa que se apaixona respeitosamente pela esposa de Orphée, foi muito bem interpretado pelo tenor Giovanni Tristacci. O artista exibiu uma presença ao mesmo tempo discreta, segura e inteligente. Sua técnica apurada, que lhe permite oferecer uma voz sempre bem projetada e bem timbrada, também contribuiu para uma excelente atuação.

Não menos excelente foi a atuação da soprano Ludmilla Bauerfeldt como a doce Eurydice. Dando vida à esposa que percebe o distanciamento do marido e que acaba morrendo pela vontade exclusiva da Princesa (que está apaixonada por Orphée), a soprano cantou oferecendo uma mistura exata de técnica e sentimento. Sua bela voz, de metal precioso, correu muito bem pelo auditório do início ao fim de sua participação. Não foi à toa que um dos momentos mais belos e gratificantes da estreia foi exatamente uma cena entre Heurtebise e Eurydice ainda no primeiro ato.

 

Leonardo Neiva e Ludmilla Bauerfeldt

Pouco público

A produção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para o Orphée de Philip Glass, apesar dos apontamentos acima registrados, merece (ou mereceria) muito a visita do público, mas o público carioca parece que não se empolgou com a obra de arte que a casa está lhe oferecendo, talvez com receio de que uma obra contemporânea como essa fosse dotada de música difícil de ser ouvida – o que definitivamente não é verdade.

Na estreia, deveria haver meia casa no Municipal, se tanto, e as informações de bastidores dão conta de que a venda de ingressos foi praticamente um fiasco. Cabe perguntar: o Municipal do Rio errou ao incluir Orphée em sua temporada? A resposta não é fácil, pois, em tese, não há erro algum. É função de qualquer teatro sério de ópera oferecer uma programação variada, com obras de diferentes períodos, incluindo obras contemporâneas e até mesmo, se possível, encomendas de novas obras.

O problema, na verdade, está no público carioca, e é preciso que todos (artistas, administradores, jornalistas, críticos e demais intervenientes) reconheçamos isso. O público carioca não é igual ao público paulistano, por exemplo. Quando se oferece ao paulistano uma ópera como Prism (estreada mundialmente ano passado), ou uma experimentação como Ritos de Perpassagem (composta e estreada este ano), respectivamente, no Theatro Municipal de São Paulo e no Theatro São Pedro, as casas ficam lotadas ou pelo menos recebem um bom público. No Rio isso não aconteceria, e está aí Orphée que não me deixa mentir.

O público de ópera no Rio de Janeiro me parece um tanto volátil, inconstante. Quando está empolgado, comparece mais; quando está desanimado, simplesmente desaparece. Somem-se a isso a crise financeira em que se atolou o país e, mais especificamente, o estado do Rio de Janeiro nos últimos anos; a oferta paupérrima de ópera por parte do TMRJ em 2017 e 2018; as várias trocas de “gestão” da casa a partir da saída de João Guilherme Ripper, que não levaram a lugar nenhum; e o que temos? Temos um público inconstante, desconfiado e que não é exatamente aberto ao novo.

Reconquistar um público desconfiado não é tarefa fácil. Atrair um público novo é tarefa ainda mais hercúlea, já que não existe programa sério de formação de plateia praticamente em lugar nenhum do país. É evidente que a direção da casa tem buscado, na medida das suas possibilidades, oferecer uma programação mais consistente este ano em relação àquelas de 2018 e 2017, mas parece ainda não ter encontrado uma boa estratégia de marketing para atingir e interessar um novo público.

Se a direção do Municipal acha que uma matéria de jornal publicada no dia da estreia é solução para alguma coisa, estamos todos mal parados. Aqui do meu cantinho, há muito tempo, bato em uma tecla: a estratégia de divulgação do Municipal do Rio é uma piada e só atinge o público de sempre – público este que, tudo indica, já não é o mesmo de cinco ou dez anos atrás, até porque as pessoas morrem, eventualmente se mudam para outras cidades, ou até mesmo se desinteressam, seja por que motivo for.

Urge que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro busque estratégias mais eficientes de divulgação das suas atividades e de atração de público. Fazer a mesma coisa que faz há 30 anos ou mais não está mais dando resultado.

E, para encerrar, uma coisa que me parece óbvia é que o público carioca de ópera só se interessará por obras como Orphée depois que estiver satisfeito com a oferta de repertório tradicional, e isso demanda pelo menos alguns anos de produção ininterrupta, já que a casa produz pouca coisa de ópera por ano. Há quanto tempo não se faz um Otello ou um Don Giovanni no Rio de Janeiro? Há quanto tempo o Municipal não monta uma ópera de Rossini diferente de O Barbeiro de Sevilha? Pois é.

 

Foto do post: cena da ópera. Fotos de Ana Clara Miranda.

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com