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Do brilho da “Estrela” à terra arrasada

Enquanto jovens cantores defendem a ópera no palco do Theatro São Pedro, a casa é ameaçada de ser descaracterizada por uma absurda decisão de bastidores.

 

 

No último fim de semana, a Academia de Ópera do Theatro São Pedro e a Orquestra Jovem do teatro nos brindaram com um belo espetáculo: a ópera-bufa L’Étoile (A Estrela), do compositor francês Emmanuel Chabrier (1841-1894), mais conhecido por sua Rapsódia Espanha. Inédita em São Paulo, praticamente desconhecida, foi uma boa oportunidade para, na mesma noite, conhecer a obra e conferir o resultado do trabalho da academia do teatro.

 

O brilho da Estrela

Com libreto de Eugène Leterrier e Albert Vanloo, L’Étoile narra com bom humor a história do rei Ouf, que todos os anos comemorava seu aniversário com uma execução em praça pública. Com a proximidade da data, ele procurava um criminoso para a festa e acabou encontrando Lazuli, um vendedor. Lazuli havia acabado de se apaixonar perdidamente, à primeira vista, pela princesa Laoula, recém-chegada e destinada a ser esposa do rei.

Como havia perdido Laoula de vista e acreditava que não iria mais encontrá-la, Lazuli não estava de muito bom humor. Foi, portanto, fácil para o rei induzi-lo a desacatar a autoridade real (ainda mais sem saber que estava diante do rei). Siroco, o astrólogo, que – não só no Brasil, mas também na ópera-bufa – exercia grande influência sobre o governante, avisou ao rei que a sua sorte estava ligada à de Lazuli e que ele morreria 24h depois do vendedor. Evidentemente, o rei não só desistiu de executar Lazuli, como passou a zelar por ele. Após uma série de encontros e desencontros típicos do gênero, Ouf abriu mão de se casar com a princesa e permitiu que ela e Lazuli se unissem.

L’Étoile estreou em 1877, em Paris, no Théâtre des Bouffes-Parisiens, um teatro fundado duas décadas antes pelo compositor Jacques Offenbach (1819-1880) para a apresentação de óperas-bufas e operetas. Do começo ao fim, a influência das operetas de Offenbach é evidente. É especialmente curioso o momento em que Laoula conta sobre os tiros dirigidos a Lazuli quando estavam em um barco, tentando fugir.

Tanto a música, quanto o texto, com seus clicks e clacks, lembram a canção de Kleinzach, entoada por Hoffmann em Les Contes d’Hoffmann, a grande ópera de Offenbach que estreou em 1881. Embora bastante provável, não é possível cravar que dessa vez foi Chabrier que influenciou Offenbach: a composição de Les Contes se iniciou pouco antes da estreia de L’Étoile.

A obra foi apresentada com as árias mantidas em francês e os diálogos adaptados para o português. Com libreto pouco interessante, embora leve e bem-humorado, e diálogos extensos mesmo após os cortes promovidos pela direção de cena, L’Étoile se arrasta um pouco. Musicalmente, embora seja de digestão extremamente fácil e conserve o frescor das operetas francesas do fim do século XIX, é bastante elaborada harmônica e ritmicamente – conta-se, inclusive, que os membros da orquestra do Bouffes-Parisiens, habituados a peças simples, se assustaram ao receber a partitura de Chabrier.

 

O palácio de Ouf

 

Dois dos momentos musicalmente mais interessantes pertencem a Lazuli. O primeiro deles é Je suis Lazuli! Lazuli!, um delicioso rondó cheio de brilho no qual se saiu muito bem Fernanda Nagashima. Representou-lhe, porém, um desafio maior a bela e lírica romanza O petite étoile, na qual Lazuli queixa-se com sua estrela. Número mais conhecido da obra, que ganhou vida própria, é imerso em uma atmosfera sonhadora e tecnicamente mais complexo que o rondó anterior, com o qual contrasta.

Saíram-se também bastante bem, vocal e cenicamente, Laís Assunção, como a princesa Laoula, Mikael Coutinho, como o embaixador que a estava acompanhando juntamente com sua esposa, bem interpretada no sábado, 26 de outubro, por Cíntia Cunha (no domingo, Paulina Luciuk assumiu o papel). Cenicamente destacaram-se Eduardo Gutiérrez e Pedro Côrtes, o Rei Ouf e o astrólogo Siroco, respectivamente.

Foi bastante eficiente a encenação de Walter Neiva. A boa direção de atores deu fluência ao espetáculo. Com muitos textos falados, Neiva precisou buscar seu lado de diretor de teatro e ensinar aos jovens cantores a falarem no palco, a projetarem a voz também sem música, a atuarem enquanto pronunciavam um texto. Se uma ou outra palavra se perdeu, de modo geral o trabalho obteve êxito: foi possível compreender quase a totalidade do texto, inclusive os finais das frases, parte geralmente engolida nesse tipo de situação.

Os figurinos e os cenários foram aproveitados de produções anteriores do teatro, uma excelente prática que possibilita a reutilização desse material e a construção de uma cenografia compatível com as produções profissionais para as apresentações dos alunos da academia.

Embora L’Etoile seja, como disse Stravinsky, uma pequena obra-prima, a grande estrela da noite não foi a de Chabrier, mas o elenco da casa, sobretudo a Orquestra Jovem do Theatro São Pedro, que foi dirigida pelo maestro André dos Santos. O entrosamento entre os músicos e o regente já foi perceptível no momento em que este chegou ao fosso e foi calorosamente recebido pelos integrantes da orquestra, que batiam os pés.

A surpreendente sonoridade da orquestra, que conta com jovens entre 14 e 20 anos, confirmou tal entrosamento. A partitura que assustou a orquestra do Bouffes-Parisiens não foi problema para os jovens músicos orientados por um bom maestro, especialista em ópera. A música fluía, nos atingia com precisão, com dinâmica, com leveza, com todo o brilho da composição.

 

O elenco de L’Étoile

 

Terra arrasada

Era para ter sido um positivo fim de semana para o cenário operístico de São Paulo. Na sexta-feira, entrara em cartaz, no Teatro Sérgio Cardoso, a produção da Cia. Ópera São Paulo de Madama Butterfly, de Puccini. Com direção geral de Paulo Esper, cênica de Jorge Coli e musical de Abel Rocha, teve a soprano Marly Montoni no papel-título e Catarina Taira como Suzuki – e como elas se saíram bem!

Com casa absolutamente lotada na sexta e no domingo, muitas pessoas que foram ao teatro para ver ópera não conseguiram entrar, como relata Nelson Rubens Kunze em seu artigo “Madama Butterfly e o amor pela Ópera”, publicado no site da Revista Concerto: “uma pequena multidão se aglomerava na calçada. Diante das bilheterias, uma longa fila. Lá dentro, o teatro lotado. (…) creio que muita gente deve ter ficado do lado de fora. Público jovem, novo, diverso. Público que gosta de… ópera!” (o artigo completo pode ser lido aqui). No sábado e no domingo, foi a vez dos jovens do São Pedro brilharem através da Estrela de Chabrier.

Como dizem, alegria dura pouco. No próprio domingo, a dura realidade se impôs, minando qualquer fonte de esperança. Em matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo (confira-a aqui), foi noticiada a nova diretriz da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo para o Theatro São Pedro.

Logo no início da gestão de Sérgio Sá Leitão como secretário da cultura de São Paulo, chegou-me aos ouvidos o comentário de que ele achava o São Pedro “obsoleto”. Achei estranho, afinal, o secretário não era de São Paulo, havia acabado de chegar à cidade, não acompanhava a temporada lírica do São Pedro, nada sabia sobre a qualidade das produções lá apresentadas mesmo com verba reduzida. O que ele estaria considerando obsoleto?

No domingo, o mistério foi desvendado pela matéria do Estadão: em vez de quatro óperas, em 2020 o teatro fará duas óperas (Ariadne auf Naxos, de Richard Strauss e I Capuleti e i Montecchi, de Vincenzo Bellini) e dois musicais (West Side Story, de Leonard Bernstein, e Porgy and Bess, de George Gershwin). Obsoleto, portanto, é… produzir ópera! Pelo visto, para o secretário, moderníssimos são os velhos teatros da Broadway, apertados, com cadeiras gastas e assentos amolecidos pelo uso e pelo tempo, cheirando a pó, com som embolado e ensurdecedor.

É coisa obsoleta fazer com competência e qualidade uma ópera composta por Janáček em 1926, como O Caso Makropulos, que esteve em cartaz no São Pedro em 2019 e obteve grande sucesso, mas é moderno e popular produzir Porgy and Bess, praticamente contemporânea à ópera de Janáček, principalmente chamando aquela que é a primeira grande ópera americana de musical e, melhor ainda, utilizando o arranjo da Broadway.

É obsoleto, também, apresentar óperas compostas em 2019, como Ritos de Perpassagem, de Flo Menezes, apresentada recentemente, ou O Peru de Natal, de Leonardo Martinelli, que estará no palco em dezembro. Mas é moderno apresentar West Side Story, musical da década de 1950.

A ideia, segundo informações, é fazer um número maior de récitas dos musicais, algo entre vinte e trinta de cada. Aumentar o número de récitas já foi por nós defendido em função do sucesso de O Caso Makropulos e A Italiana em Argel, as obsoletas óperas que a ninguém interessam, mas que lotaram o teatro, sobretudo nos finais de semana.

O Theatro Municipal de São Paulo, que é maior que o São Pedro, realizou, no início do ano passado, em torno de quinze récitas de La Traviata, de Verdi, todas lotadas. O São Pedro, portanto, poderia perfeitamente mesclar as muito bem-vindas óperas menos executadas (que, é sempre bom insistir, têm atraído um bom público) com títulos mais populares, e fazer maior quantidade de récitas desses títulos do repertório padrão. Além da lotação garantida, seria instrutivo para os membros da academia, caso participassem.

Para piorar, na matéria, o secretário Sérgio de Sá Leitão declarou: “Como é um equipamento público e deve ser um espaço para todos, o teatro terá outras atrações, como o novo trabalho da São Paulo Companhia de Dança, concertos que vão celebrar os 250 anos de Beethoven, e ainda a abertura de editais que possibilitarão a ocupação por eventos como moda e gastronomia”.

O São Pedro não é o único equipamento público de São Paulo, mas é o único teatro de ópera que o estado mais rico da federação possui. E mais que isso, é um teatro que produz os espetáculos, e não apenas os hospeda. Abriga, ainda, uma orquestra e uma academia. Por que querer descaracterizá-lo? O secretário deveria se lembrar de que o Palácio dos Bandeirantes e a sede da Secretaria de Cultura também são equipamentos públicos e, segundo o seu raciocínio, também deveriam receber as mais variadas atividades e “ser espaços para todos”. Fora do universo populista, o que se espera de um equipamento público bem administrado é que seja utilizado de acordo com a finalidade para a qual foi projetado e/ou que tenha foco em sua atividade-fim.

No caso de um teatro de ópera, ele pode perfeitamente receber espetáculos de dança, sobretudo acompanhados pela orquestra no fosso, e concertos (como, aliás, já ocorre há anos no São Pedro!). A comemoração dos 250 anos de Beethoven é muito bem-vinda e a Sala São Paulo, que também é do Estado de São Paulo, programou com fartura concertos para 2020 nesse sentido. Se o secretário estivesse muito preocupado com Beethoven, teria percebido que a única grande obra que ficou faltando na programação da OSESP é Fidelio, por acaso uma ópera. Essa teria sido uma ótima proposta para o São Pedro participar efetivamente das comemorações.

Quanto a eventos de gastronomia e moda, é possível imaginar espaços mil vezes mais adequados que um teatro de ópera. Essa iniciativa representa uma utilização inadequada do espaço público, um desvio de sua finalidade. Isso sim descaracteriza e agride o equipamento público. Isso sim é má gestão, é um irresponsável populismo.

Da Santa Marcelina Cultura, Organização Social que administra o teatro, não se ouviu sequer uma palavra contrária a todas essas ideias. É inevitável a pergunta: a qualidade demonstrada pelos espetáculos do São Pedro é resultado da gestão da Santa Marcelina, ou foi alcançado graças aos esforços dos músicos e diretores, apesar do desinteresse da OS por ópera? Será que a Santa Marcelina acreditava no trabalho que estava realizando?

 

Fotos coletadas em redes sociais.

 

Fabiana Crepaldi
Doutora em Física pela Unicamp. Frequentadora assídua de óperas e concertos, tem se dedicado ao estudo da história da ópera. Traduziu para o português o libreto da ópera “Tres Sombreros de Copa”, de Ricardo Llorca. Já fez cursos de canto e de curta duração sobre ópera.