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Dança Shiva em Washington

A noite de estreia também incluiu a Madhavi Mudgal Dance Company.

Em seu décimo ano consecutivo, a Dakshina/Daniel Phoenix Dance Company de Washington organizou o Festival de Outono das Artes da Índia, trazendo para  a Capital dos Estados Unidos dez dentre as melhores companhias de dança clássica  da Índia, apresentando duas companhias por espetáculo, durante cinco noites, em setembro.

Baseada em Washington,  a companhia organizadora do evento tem oferecido, ao longo dos anos, oportunidades únicas de vivenciar a dança como uma expressão em movimento, que liga as artes e as culturas. Em sânscrito, dakshina significa oferenda. Esta companhia tem-se debruçado sobre as muitas possibilidades da dança, vinculando às tradições indianas vários modelos norte-americanos, latinos e modernos em geral. Sempre trabalhando a dança como um sistema de comunicação que transcende as fronteiras, a cultura e o tempo, não apenas como uma forma de crescimento estético, a companhia também vê na dança um veículo de mudança social.

Além de uma apresentação da própria companhia, a noite de estreia também incluiu a Madhavi Mudgal Dance Company, que epitomiza a elegância e sofisticação que resultam da combinação da sensibilidade moderna com o antigo ethos da Índia oriental, da qual provém a arte da dança de Orissi. A bailarina cujo nome encabeça a companhia, tem pleno domínio dos aspectos ornamentais do estilo de Orissi, um dos mais antigos da Índia. Unindo poaturas delicadas e o ritmo dinâmico dos pés, os movimentos fluem escultóricos e líricos.

A expressividade evidencia a musicalidade desta modalidade de dança, caracterizada por movimentos em forma de S que os corpos das cinco bailarinas do conjunto descrevem. ao mesmo tempo em que a cabeça, o peito e o ventre executam movimentos independentes. O estilo multimilenar Odissi é geralmente dançado por mulheres, embora o seja também por “Gotipuas”, meninos vestidos como meninas, e que dançam como tais. Vários historiadores consideram Odissi como sendo a forma mais antiga de dança que sobreviveu nos milênios na Índia.

A segunda noite começou com um recital de Sitar por Alif Laila, numa linguagem musical de emoções profundas, expressas com serenidade:  a própria alma da música clássica da Ásia do Sul. Alif tem muitas gravações circulando no mercado internacional, feitas com os solistas de Tabla mais conceituados. Estas gravações são o paradigma de seu gênero.

Logo a seguir, Leela Samson e Sadanam Balakrishnan, ambos coreógrafos e dançarinos, apresentaram uma obra que descreve a vida terrestre de uma ninfa celestial, que se casa com um rei humano, do qual ela dolorosamente tem que se separar, quando o tempo de sua vida na terra expirar: uma alegoria da alma humana que se depara com a mortalidade física. A arte de Leela Samson foi descrita como um amálgama de carne, veludo e força de vontade. Seu corpo obedece ao comando de sua  mente, sem jamais perder o equilíbrio. Com uma perna suspensa em ângulo, enquanto os braços flutuam em claras articulações, Leela suspende o dedo indicador direito, com quem  indaga à eternidade. Numa fração de segundo imóvel, ela evoca a clássica escultura de Shiva Nataraja.

Balakrishnan e Samson reúnem duas formas de dança clássica indiana: Bhárata Natyam e Kathakali, dos quais eles hoje são os mestres supremos. Em Chennai, onde ensinam, eles mantêm a  Academia Kalakshetra, à beira do Oceano Índico, na Baía de Bengala. Por seus méritos artísticos, os dois são condecorados com a Ordem de Padma Shri, uma das mais prestigiosas naÍIndia.

Bhárata Nátyam é uma forma dançada por homens e mulheres na região de Tamil Nadu, e está associada, em suas origens, a práticas religiosas, como dança  templária hindu. As emoções são transmitidas pela expressão facial e pelos movimentos dos olhos. Esta forma é caracterizada pela graça, pela pureza e pela ternura.

Kathaki é uma forma do Norte da Índia. Suas origens se perdem nas tradições orais dos contadores de histórias nômades, combinadas com danças rituais templárias. Na era Mughal, de supremacia islâmica, (entre 1400 e 1800), Khatak também incorporou influências persas e turcas.

Kathakali provém do Estado de Kerala e é conhecida pela maquilagem elaborada, grandes máscaras usadas pelos dançarinos, e suas ricas indumentárias. Tradicionalmente, os espetáculos de Kathakali varavam a noite, narrando longos episódios. Hoje em dia, os espetáculos são abreviados.

A terceira noite trouxe apresentações de Anu Yadav e Lakshmi Babu, com especial destaque para a apresentação de Astad Deboo. Conhecido por combinar folclore,  formas tradicionais e estilos modernos com teatro, Deboo se apresenta como solista de obras que cobrem as grandes emoções humanas. Assim como Deboo tem larga experiência com Kathak e Kathakali, ele também estudou as técnicas de Martha Graham, Pina Bausch e da Comapnhia Pilobolus, além de outras experiências de dança no Japão e na Indonésia. Com tudo isso, porém, ele criou seu próprio estilo, que aproveita todas as suas experiências, fundidas numa experiência estética altamente pessoal, uma síntese de Oriente e Ocidente.

A quarta noite foi dividida entre a dança de Anuradha Nehru e a declamação de Gowri Koneswaran, na primeira parte, e a Companhia de Dença Sheejith Krishna, na segunda. Com presença carismática de palco, Krishna tem a habilidade de  representar com movimentos plásticos tanto o herói Lord Rama como o vilão Ravana do poema épico Ramayana. Em Washington, Krishna apresentou apenas um fragmento inspirado no Ramayana. Mas, na Índia, ele brilha no repertório Kalakshetra, representando os dois papéis na monumental série em seis partes do Ramayana inteiro.

Sua técnica impecável e seu ritmo preciso o celebrizaram na representação das emoções dos dois protagonistas. Ele é hoje um dos grandes  bailarinos Bhárata Nátyam, e sua atuação muito elaborada no teatro-dança. Neste Festival ele apresentou o tema “Confluência”, que narra a dança das águas, através dos ciclos da existência. A jornada das nuvens, das chuvas e dos rios se tornam  metáforas da criatividade e da dança do espírito humano, que se funde com a natureza. A companhia de Krishna é só de homens, em contraste com a  companhia de Madhevi Mudgal, que é só de mulheres.

A grande surpresa do Festival ficou reservada para a quinta e última noite, que foi a apresentação de Shanta e V. P. Dhenanjayan, pioneiros que criaram seu próprio estilo de Bhárata Nátyam, enraizado na tradição, e conhecidos por sua amplidão e profundidade. Shanta e V. P. dançam juntos há mais de 50 anos. Ele hoje tem 74 anos, e ela, 70, e são um verdadeiro milagre da força do espírito e da determinação artística. Ícones na Índia e no Exterior, eles mantêm uma academia rm Chennai, onde já formaram centenas de artistas. Suas realizações são lendárias e lhes valeram as mais altas condecorações.  Contrariamente à tradição ocidental, onde os dançarinos encerram suas carreiras geralmente cedo, o casal Dhenanjayan continua a criar, a inovar e a se apresentar em público, enquanto transmite seu legado às novas gerações.

Nesse espetáculo, eles representaram as várias encarnações de Shiva, servindo-se de vários episódios do poema épico Mahabhárata. Saídos do classicismo, eles abordam o novo, sem prejuízo da tradição. E o que perderam em agilidade física com a passagem do tempo, eles ganharam em expressividade do rosto e das mãos. Mas, os pés continuam lépidos, e o casal se complementa e se completa admiravelmente na arte. Durante mais de meio século eles iluminaram a tradição e permanência do Bhárata Nátyam, para a Índia e para o mundo. E continuam.

Todos os espetáculos do Festival foram apresentados no novo teatro Sidney Harman Hall, sede da Companhia de Teatro Shakespeare, e foram precedidos por apresentações de várias escolas de dança clássica indiana, que funcionam em Washington e em outras cidades nos Estados Unidos. Já está em elaboração a programação para o Festival de Outono das Artes da Índia de 2014.

Para ver fotos do Festival de 2013, acesse www.dakshina.org

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.