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Crônicas operísticas

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Os ingressos para Samson et Dalila

Raphael Cilento foi um grande conhecedor e colecionador de vídeos de óperas. Em VHS, o homem era imbatível, tinha mais de duas mil óperas. Muitas delas eram no sistema PAL europeu, inacessível para a maioria dos brasileiros da época. Muitas das raridades de meu acervo devo a ele. Muito do que aprendi foi com ele. Seu Verdi Opera Club dos anos 80 foi um sucesso de público.

Um dia em sua casa, eu comentava orgulhoso sobre a excelente gravação da ópera Samson et Dalila de Saint-Saëns com o  tenor John Vicker e mezzo Shirley Verret a que acabara de assistir. Cilento dá um sorriso e me conta a aventura  prosaica que passara, em Londres, por causa dessa ópera.

Estava ele e sua amada esposa na terra da rainha na época da apresentação de Samson et Dalila. Lembro que no ano de 1981 não existia internet, celular e nem a Madona fazia sucesso. Cilento corre para a bilheteria do famoso teatro londrino, Royal Opera House, Covent Garden, suporta na fila o frio e a chuva da capital inglesa por eternas 3 horas. Com apenas três pessoas a sua frente vê decepcionado a placa de ingressos esgotados.

Cilento não se dá por vencido, roda a baiana londrina. Faz um escarcel, ameça chamar a Scotland Yard , diz que vai até a rainha se for preciso. Argumenta na bilheteria que veio do Brasil só pra assistir à ópera. A frieza do bilheteiro é gélida e bem britânica, ingressos esgotados e porta fechada na cara.

Um senhor inglês ouve todo o quiproquó, sensibiliza-se com o brasileiro maluco e oferece seus dois únicos ingressos, o problema é o lugar, a galeria. Ruim com eles , pior sem eles. Cilento compra os ingressos do prestativo cidadão, assiste com sua esposa à récita da galeria e tem uma bela história pra contar.

Eu, como não tinha idade nem dinheiro para estar em Londres em 1981, assisti a Samson et Dalila em DVD e comentei os melhores lances para o blog  de Ópera e Ballet:
a produção nos remete à época bíblica, cenários  e figurinos lembram a África e o Oriente Médio. Direção correta, clássica. O balé é brega com figurinos e coreografia carregada, mas fazem seu dever, mostrar um bacanal.

O forte do DVD são as vozes. Verret está no auge, sua voz possante tem um brilho e cor perfeitas para a Dalila, mas não é só de voz que se faz uma grande Dalila, sua atuação dramática é excelente. Seduz Sansão com olhares maliciosos, encanta, enfeitiça o pobre coitado com gestos e toques que chamam para o sexo.

Vicers fez fama como tenor wagneriano, tira de letra Sansão. Faz um personagem abatido, sempre em dúvida se fica com Dalila ou segue lutando com  seu povo. Sua voz é pura potência, escura, agudos fáceis com grande projeção. Com grande voz, aliada a uma grande atuação, faz um Sansão perfeito.

A orquestra do Royal Opera House regida or Colin Davis faz uma boa performance. Destaque as madeiras, impecáveis. Tempos corretos aliados a boa regência ajudam muito a obra. Outro destaque que não pode deixar de ser citado é o barítono é John Tomlinson, vozeirão com graves escuros.

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Ali Hassan Ayache
Bacharel em Geografia pela USP. Apreciador de ópera, balé e música clássica. Ativo no meio musical, mantém o blog http://verdi.zip.net/. Escreve críticas, divulga eventos, entrevista personalidades e resenha óperas e balés em DVD.