CD/DVDCrítica

Cordas bem amarradas

Duo Santoro lança delicado CD com obras de compositores brasileiros.
CD “Bem Brasileiro”

São as sutilezas que os diferenciam. Um tem o cabelo mais curto, o outro caminha de maneira mais engraçada. Um tem o aperto de mão mais firme, o outro é um pouco mais tímido. Um ri sem reservas, o outro é mais afetuoso. A vida dos irmãos gêmeos Ricardo e Paulo Santoro é assim: cheia de sutilezas marcantes. Essa mesma característica marca a trajetória de mais de duas décadas em que atuam como violoncelistas, tocando no Duo Santoro ou nas orquestras das quais participam. Os artistas lançam seu primeiro CD, Bem Brasileiro, fruto de paciência e maturidade, e trabalho também repleto de sutilezas.

No dia 28 de maio, às 20h30, no Espaço Tom Jobim, no Rio de Janeiro, o Duo Santoro promove recital de lançamento desse primeiro disco, interpretando obras que integram o repertório da gravação. Os ingressos custam R$ 10 (inteira) e o Espaço Tom Jobim fica na Rua Jardim Botânico, no 1.008, no Jardim Botânico.

O título do CD – Bem Brasileiro – foi extraído de uma frase de Heitor Villa-Lobos: “Sim, sou brasileiro. Na minha música deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil”. O ufanismo da afirmação não ofusca a beleza multicolorida das melodias e harmonias das obras que integram o álbum, que, não por acaso, é aberto com uma das mais célebres composições desse gigante nacional: O Trenzinho do Caipira, em interessante adaptação para dois cellos feita pelo próprio duo.

Outros importantes compositores brasileiros integram o repertório. A Modinha, de Francisco Mignone, é suave e melancólica. Do mineiro Ernani Aguiar estão presentes, na íntegra, os Seis Duetos, obra escrita em 1985 e reunida pela primeira vez em sua forma integral. O pianista Osvaldo Lacerda está representado por seu malemolente Choro Seresteiro. A seleção ainda tem A 7° Folha do Diário de um Saci, de Edmundo Villani-Côrtes, inspirada no folclore brasileiro e carregada no sotaque nordestino; as delicadas partes de Três Temas do Folclore, do contrabaixista Ricardo Medeiros; e Cantiga e Desafio, do carioca João Guilherme Ripper, obra de pena dramática e elegante, interpretada com as mesmas características.

Mesmo não sendo nativos, alguns brasileiros naturalizados têm presentes no CD composições que refletem verde e amarelo. É o caso do Choro, do polonês Waldemar Szpilman, peça ritmada e quase bachiana que mescla influências eruditas e populares. Do alemão Ernst Mahle estão os Três Duetos Modais, escritos em 1974. O argentino José Alberto Kaplan homenageia Ernesto Nazareth em sua obra Nazareteando, composta especialmente para o Duo Santoro, que a interpreta com alegria e ginga.

Os irmãos gravaram ainda outras peças escritas para suas cordas. Em três movimentos, a obra Duo, do mineiro radicado no Rio de Janeiro Alexandre Schubert, é interpretada com densidade e vigor. O álbum encerra-se com Bis, de Sérgio Roberto de Oliveira, composta em 2012 especialmente para este CD e dedicada ao Duo Santoro.

Com direção artística do contrabaixista Sandrino Santoro, pai dos gêmeos e seu primeiro professor, e produzido por Sérgio Roberto de Oliveira – indicado ao Grammy Latino 2012 pela produção do CD Prelúdio 21 – Quarteto de Cordas, o disco Bem Brasileiro reúne obras de compositores brasileiros do século 20 e contemporâneos, formando um mosaico de ritmos e sensações no qual fica impresso o talento dos irmãos no violoncelo.

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com