Artigo

Concurso do Theatro Municipal RJ

Theatro Municipal do Rio de Janeiro terá concurso para seus Corpos Artísticos.

O www.movimento.com teve acesso a uma correspondência interna do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, segundo a qual o Governador do Estado, Sérgio Cabral Filho (sim, insisto no “Filho”, que muitos órgãos de imprensa não usam mais), autorizou a realização de concurso público para os Corpos Artísticos da instituição.  Os procedimentos para o concurso devem começar agora, passado o Carnaval.  No entanto, ainda não há data prevista para a divulgação do edital.

Como é de conhecimento geral, no fim de 2012 o Municipal foi bombardeado (muito justamente, diga-se de passagem) em todos os sérios órgãos de imprensa e nas redes sociais com pesadas críticas à sua programação artística – em especial à quantidade ridícula de óperas apresentadas – e à ausência de concurso para o Coro, o Ballet e a Orquestra Sinfônica da casa.

Aparentemente, o segundo problema citado já está em vias de solução, ainda que as regras do certame e a quantidade de vagas não tenham sido divulgadas (itens importantes para averiguarmos a seriedade e a eficácia do mesmo).

Já quanto à temporada 2013, só sei que a mesma também seria divulgada depois do Carnaval, mas não há data exata para isto acontecer.  O único espetáculo tornado público até o momento, inclusive com ingressos já à venda, é uma interessante Gala Royal Opera House, cujos detalhes podem ser verificados na página oficial do Theatro:

http://www.theatromunicipal.rj.gov.br/marco.html

 

Esclarecimentos

Esclareço alguns pontos abordados no artigo “Títulos infelizes, programações e desabamentos”:

1- O Theatro Municipal do Rio de Janeiro, assim como, por exemplo, o Municipal de São Paulo, o Amazonas de Manaus e o da Paz de Belém, é um teatro de ópera, ou seja, aquilo que os países de língua inglesa chamam de “opera house”, os franceses de “opéra” e os italianos de “teatro dell’opera”, independentemente do que se apresente nesses palcos (óperas, balés, concertos e até mesmo o que ali não se deveria apresentar).  O que costumeiramente chama-se de “teatro de ópera”, portanto, é o tradicional teatro com palco italiano, fosso para orquestra, acústica preparada para projeção vocal sem amplificação, plateia, balcões e/ou camarotes etc., etc.  Se assim não for,  teremos que canada pharmacy 24 mudar o nome de The Royal Opera House, Opéra, Teatro dell’Opera di Roma, e de tantos outros que, embora tenham “ópera” no nome, também apresentam seus balés, concertos etc. e tal.

Daí o título por mim utilizado em recente artigo, “Karabtchevsky e Neschling assumem as óperas de Rio e São Paulo”, onde também quis ressaltar a importância da ópera tanto para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, como para o Municipal de São Paulo.  Cada título de ópera apresentado nesses teatros é levado ao palco, em média, por cinco récitas, enquanto cerca de 90% dos concertos apresentados são integrados por programas tocados em público uma única vez.  Pouquíssimos são os concertos com mais de uma apresentação com o mesmo programa.

OBSERVAÇÃO: É possível argumentar que a denominação “Teatro Municipal”, utilizada no Brasil, derive daquela italiana “Teatro Comunale”.  Mas vejamos, neste caso, como se define, por exemplo, em sua página na internet, o Teatro Comunale di Bologna:

Il fuoco che nel 1745 distrusse l’allora Teatro Malvezzi di Bologna, tutto in legno, dà inizio alla storia del teatro d’opera bolognese.  (Tradução: O fogo que em 1745 destruiu o então Teatro Malvezzi de Bolonha, todo feito em madeira, dá início à história do teatro de ópera bolonhês).  Definitivo, não?  Fonte:

http://www.tcbo.it/index.php?id=301

2- Devemos ainda atentar para o seguinte: se a temporada de concertos como um todo no Rio de Janeiro (incluindo aí as temporadas de instituições artísticas terceiras que também utilizam o palco do Theatro Municipal, como OSB, OPES e Dell’Arte) foi de bom nível, e a temporada de balé foi minimamente aceitável, isso não isenta o Theatro Municipal de cumprir adequadamente a sua função precípua perante a sociedade, que é exatamente apresentar uma temporada decente e digna de óperas.  Portanto, se o problema está aqui, nas óperas, é aqui que devemos nos deter, cobrando da instituição que cumpra, dentre outras coisas, o seu dever cultural.

Bastante sensatas são as palavras do leitor Alexandre Nóbrega, segundo o qual “Realmente tivemos diversas programações ano passado no Municipal e bons espetáculos, ainda que os melhores não tenham sido produzidos pelo teatro.  Ainda assim, creio que há muito a se fazer para termos uma temporada condizente com o prestigiado Theatro Municipal”.

Ressalte-se, ainda, que, como já deixei claro mais de uma vez, o problema verificado até o momento nas temporadas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro está nas altas esferas, está onde as grandes decisões são tomadas.  O Diretor Artístico tem que trabalhar com a verba que lhe é oferecida e, até onde sei, ainda não aprendeu a fazer milagres.

Repito, aqui, parte da resposta que enviei a uma leitora do meu supracitado artigo: “Sem me aprofundar muito, tenho informações segundo as quais uma ópera custa atualmente entre R$ 800 mil e R$ 1,5 milhão, dependendo da ópera, da reputação dos solistas, se são nacionais ou internacionais e ainda da quantidade de récitas, cenários, figurinos, e demais profissionais envolvidos. Um balé custa entre R$ 500 mil e R$ 600 mil (se for reposição), ou aproximadamente R$ 1 milhão (se for uma produção nova). Calculando por alto, ou seja, pelos valores máximos acima mencionados, uma temporada de 6 óperas (todas produções novas) e 5 balés (sendo duas produções novas e três reposições) custaria aproximadamente R$ 13 milhões – isso sem considerar que alguma ópera também poderia ser uma reposição, ou haver permutas com outros teatros – o que diminuiria os custos. Também poder-se-iam diminuir os custos se houvesse isenção de impostos a produções culturais.

Para o Estado que gasta quase R$ 1 bilhão com a reforma do Maracanã (que é importante, vamos deixar bem claro), uma temporada de um teatro como o Municipal, com a sua importância histórica e cultural, custar R$ 13 milhões é uma verdadeira bagatela, principalmente se considerarmos que o Municipal, por sua exposição, deveria dar o exemplo, e não servir de chacota, como serviu em 2012. Além disso, o patrocínio privado poderia, claro, melhorar ainda mais a suposta temporada acima. É importante ressaltar que a conta acima leva em consideração apenas o investimento do Estado na temporada artística do Municipal, sem contar as verbas de manutenção, pagamento de salários, etc, coisas que devem ser pagas com ou sem temporada.

Por fim, cabe destacar que a conta não considerou eventuais concertos da OSTM, mas, embora eu seja a favor de concertos em que a OSTM poderia brilhar sozinha ou ao lado do Coro do Municipal, convenhamos que se o Theatro montasse seis óperas e cinco balés, nem precisaria de concertos avulsos, já que a função precípua do Municipal é montar óperas e balés”.

Encerro definitivamente: se o Estado não tem R$ 13 milhões para investir na temporada artística do Municipal, que se feche o Estado.  Vão lá ver quanto esse mesmo Estado gastou com propagandas institucionais no ano eleitoral que foi 2012…

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6 Comments

  1. Impossível admitir o futebol com cultura. É um esporte natural em povo subdesenvolvido. Sabemos que o Theatro Municipal foi construído para a finalidade precípua de música erudita. Sempre tivemos temporadas, tanto a nacional como a internacional. A dotação orçamentária era oriunda de governos integrados por homens de cultura que concebiam nas artes um patamar existente na Europa. Verdadeiramente, o maestro Heitor Villa Lobos, no governo de Getúlio Vargas deu ênfase à cultura musical no Brasil, quando elaborou o movimento dos corais e ensino obrigatório de música nas escolas. No canto orfeônico, os alunos aprendiam rudimentos de música, etc.
    O futebol é um esporte baseado na habilidade dos pés enquanto a cultura é basicamente constituída no ensino primário. Temos o diferencial de que as vocações decairam muito ante o valor que os músicos percebem e a falta de incentivo dado pelo Estado, minado por políticos aculturados e corruptos que relegam os profissionais da arte. Por outro lado, os meios de comunicação, dedicam-se à pornografia sexual inserida em novelas de conteúdo nocivo e exploração da sexualidade.

  2. Olá Leonardo,só peço licença para discordar de um único ponto.

    Os concertos para a OSTM, não podem ser considerados, apenas como preenchimento de programação.
    A partitura sinfônica é muito importante para o desenvolvimento da própria orquestra; e é necessária para o músico.
    A orquestra, quando toca no palco, aprimora outros atributos, que dentro do fosso não são possíveis.
    A própria partitura, diferenciada entre óperas, ballets e concertos, já é de uma importância enorme para o músico.
    Enquanto nas óperas e ballets a orquestra assume o acompanhamento; na música sinfônica, ela é a solista.
    Quantitativo diferenciado, sonoridade, dificuldades musicais da própria partitura; tudo isso são atributos necessários para o desenvolvimento individual e do conjunto.
    Quero muito que a OSTM tenha em sua temporada, mais concertos; onde ela possa mostrar mais seu potencial e aumentar os desafios do próprio músico.
    Grande abraço.

  3. Leonardo, mil desculpas!!!
    Na ânsia de respaldar a OSTM, acabei por esquecer de te agradecer e elogiar o excelente artigo.

    Perdão.
    Bjs

  4. Sr. Guy, obrigado por seu comentário. Creio ser perda de tempo discutir com o futebol, modalidade de esporte e entretetimento na maioria dos países do mundo, inclusive em praticamente todas as nações europeias e até nos Estados Unidos (que por décadas ignorou o esporte, preferindo sempre o basquete, beisebol e o futebol americano). Não entendi seu comentário sobre ser um esporte natural de povo subdesenvolvido, tendo em vista que foi inventado pelos ingleses, nos quais desperta avassaladoras paixões até hoje. A Inglaterra possui também uma das ligas mais ricas do mundo e, como todos sabemos, o país é bastante desenvolvido.

    Já quando o senhor fala dos políticos brasileiros da atualiade, estamos totalmente de acordo. É impressionante como não se salva unzinho que seja.

    Jesuína, reconheço que, da forma como ficou escrito acima, meu texto dê a entender que os concertos seriam apenas um detalhe para a OSTM, e é óbvio que não o são. São, sim, muito importantes como você bem destacou.

    Eu reproduzi uma resposta que tinha enviado a uma leitora de outro artigo, no qual o objetivo principal era mostrar que o custo de uma temporada minimamente digna não era tão exorbitante assim. Como não tinha em mãos os dados de quanto custa, em média, um concerto da OSTM, fiz a conta somente com o custo das óperas e dos balés, e ao chegar ao resultado da conta, o que eu quis dizer foi que, mesmo sem considerar os concertos, já estaria de bom tamanho uma temporada como a que supostamente apresentei em termos quantitativos, e principalmente levando em conta que a ópera sempre foi o ponto fraco do teatro nesses mesmos termos quantitativos.

    Agradeço por seu comentário e por chamar minha atenção para o fato de que o texto não expôs o que eu realmente penso a respeito da importância dos concertos para a OSTM, dando inclusive a entender que minha opinião é contrária aos concertos. Fique tranquila, pois não é. Sou totalmente a favor dos concertos.

  5. Oi, Leonardo, seu artigo é ótimo.
    Sou sabedora da sua paixão pela música clássica e em nenhum momento me passou pela cabeça, que você pensaria de outra forma.
    Minha intenção foi deixar registrada a importância dos concertos sinfônicos, para uma orquestra de “acompanhamento”.
    De qualquer forma, seu comentário, dissipa qualquer dúvida, para os desavisados.
    Obrigada.

  6. Sr. Guy, o senhor precisa rever seus conceitos de Natureza e de Cultura. Dizer que o futebol é uma atividade “natural” só por envolver habilidade com os pés significa afirmar que já se nasce sabendo jogar bola, e que este não se trata de um saber adquirido. Futebol envolve regras, códigos, símbolos, raciocínio espacial, condicionamento e equilíbrio corporal, etc… – e até mesmo a habilidade para praticá-lo precisa ser adquirida. Será que o senhor considera que dirigir automóveis também é “natural”? Péssima a sua comparação nesse sentido. Praticamente tudo é cultural, é aquisição, constituição recíproca de sujeito sobre objeto e vice-versa, numa relação interminável. Se o senhor gosta mais de música erudita do que de futebol, são outros quinhentos. Mas não se medem nem se comparam culturas, porque elas não são quantificáveis.

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com