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Cinderella na Terra do Nunca

Tecnicamente vistoso, musical de Rodgers e Hammerstein dirigido por Möeller e Botelho não define seu público-alvo.

 

A história é clássica: a moça bonita de alma nobre que vive subjugada pela madrasta má vai ao baile do príncipe, por quem se apaixona, e perde um sapatinho de cristal na saída. Já foi história chinesa dos tempos antes de Cristo, narrativa oral na Itália medieval e conto dos irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm, e do francês Charles Perrault. Inspirou ainda ópera, balé, show no gelo, fantoche, filme, desenho animado e musical da Broadway –  espetáculo que, em português, virou Cinderella, o Musical.

Na Terra de Tio Sam, essa célebre história ganhou uma versão musical para a TV (estrelada por Julie Andrews), em 1957, com canções dos renomados Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, e chegou à Broadway em 2013, arrebatando o Prêmio Tony de melhor figurino (de William Ivey Long); o Drama Desk Awards de figurino, atriz em musical (Laura Osnes) e orquestração (Danny Trobb); e ainda o Outer Critics Awards de figurino. O laureado espetáculo ganhou versão em português e estreou em São Paulo.

Ainda que tão cercada de prestígio, esta Cinderella brasileira sofre de certa Síndrome de Peter Pan: não quer crescer. Mesmo aparentemente direcionada a adultos (em São Paulo, as sessões de quintas e sextas estendiam-se até quase meia-noite), o espetáculo atinge mais diretamente a criançada (que lutava para manter-se acordada na sessão de 13 de maio de 2016, à qual o Movimento.com compareceu). Sem definir ao certo o público ao qual de dirige, não empolga os maiores e acaba por fatigar os pequenos.

O início do espetáculo, e em alguns momentos no decorrer da apresentação, é marcado por impressionantes efeitos especiais em 3-D: ogros, dragões e outros truques da varinha de condão parecem ganhar vida com os belos efeitos de iluminação (efeitos da produtora paulista Maze FX e iluminação de Maneco Quinderé). O cenário de Rogério Falcão é funcional e eficiente. Carol Lobato desenhou figurinos coloridos e bastante vistosos (perfeitos para encher os olhos da criançada), e, em alguns casos, com surpreendentes soluções para mudanças em pleno palco: o surgimento do vestido de baile de Cinderela é de cair o queixo.

A versão para português do experiente Claudio Botelho é correta e fluente, ainda que não inspirada. Charles Möeller, na direção, aparentemente segue a encenação norte-americana, sem suas habituais soluções cênicas ágeis e criativas. Nas canções, mesmo com a qualidade dos múiscos dirigidos por Carlos Bauzys, há poucos momentos realmente empolgantes, como o é o ensemble Noite Azul, com Cinderela, Madrasta e as irmãs. A coreografia de Alonso Barros é pouco elaborada. Resta saber o quanto estes comprovadamente talentosos artistas realmente puderam criar nesta encenação.

Bianca Tadini e Bruno Narchi (foto de Leo Aversa)
Bianca Tadini e Bruno Narchi (foto de Leo Aversa)

O elenco era encabeçado por Bianca Tadini (de West Side Story e O Mágico de Oz), escolhida entre centenas de candidatas nas audições. Sua afinada voz acaba soando um pouco tatibitate no raso discurso de empoderamento feminino da protagonista. Seu par é o Príncipe Topher vivido por Bruno Narchi (de Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical) – personagem que, surpreendentemente, tem mais profundidade que o conjunto. A convidada especial do elenco principal é Totia Meirelles (de Nine – Um Musical Felliniano), como a Madrasta. A experiente atriz parece ser a que mais se diverte e leva menos a sério seu personagem – assim, nem de longe parece estar em cena em uma peça escolar, como alguns de seus colegas.

Em meio ao mediano elenco secundário, Bruno Sigrist empresta energia e algum humor a seu Jean-Michel. Carlos Capelleti faz um vilão (Sebastian) empostado e simplório como de desenho infantil. Triste é o desserviço que Diego Luri (de Shrek, o Musical) faz no papel de um assistente do Príncipe, buscando um humor banal ao criar um tipo com características de um homossexual estereotipado e exageradamente afetado, contribuindo para a disseminação e fixação da imagem de uma caricatura que não é mais tolerada em tempos em que o respeito a todos é uma exigência. Entre as mulheres, Ivanna Domenyco (Fada Marie) é divertida e dona de bela voz. Giulia Nadruz é, disparado, a mais engraçada do conjunto, e compõe sua Gabrielle com timming, picardia e alegria.

Cinderella, o Musical, mesmo contando com a colaboração de profissionais experientes e notoriamente talentosos, não convence. Para as crianças, é encantador em diversos trechos. Para os adultos, soa impressionante em poucos momentos. Mas, ao ficar na indefinição de público-alvo, o espetáculo termina por perder o sapatinho de cristal na Terra do Nunca.

 

Foto do post: Marcos Mesquita

 

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com