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Ciclo Mozart: Jean Louis Steuerman e Camerata Sesi

Uma parceria, um concerto e uma mensagem.


A Orquestra Camerata Sesi-ES, que, sob a direA�A?o de seu regente titular, Leonardo David, tem se apresentado regularmente no presente ano executando o denominado Ciclo Mozart, contou com uma presenA�a ilustre na quinta-feira, 6 de outubro de 2016, em VitA?ria. Em um concerto que serA? lembrado por muita gente como uma daquelas noites em que mA?sica de altA�ssima qualidade foi produzida, a Camerata recebeu o celebrado pianista Buy Jean Louis Steuerman, carioca que desenvolveu sA?lida carreira na Europa.

Steuerman jA? se apresentou com regentes do mais alto nA�vel, como Abbado, Masur, Ashkenazy e Menuhin, alA�m de ter gravado discos pelos selos Philips Classics e Naxos. Atualmente, o pianista tambA�m tem se dedicado a duas outras atividades: a direA�A?o da Sala CecA�lia Meireles, no Rio de Janeiro, e a regA?ncia.

E foi desempenhando os papA�is de pianista e regente que Steuerman conduziu a Camerata Sesi em mais um programa do Ciclo Mozart, no qual foram executadas duas grandes obras do mestre austrA�aco. Iniciou-se a noite com o Concerto para Piano n. 20, K. 466, talvez o primeiro concerto romA?ntico da histA?ria da mA?sica, uma obra marcada por momentos densos, atA� sombrios, e por outros extremamente leves, como se a partitura refletisse a personalidade do compositor.

Seria dispensA?vel elencar exaustivamente os inegA?veis atributos tA�cnicos do Steuerman pianista, que superou com relativa facilidade as dificuldades da obra mozartiana. DestacarA�amos, aqui, a criatividade e a liberdade de expressA?o nos ornamentos empregados durante o 2A? movimento, como que improvisados, e o bom gosto na escolha dos fraseados e na variaA�A?o das dinA?micas ao longo da partitura. Surpreendeu a discriA�A?o e a eficiA?ncia da regA?ncia ao piano, que empregou fundamentalmente olhares e gestos precisos, sem estardalhaA�o, sem maneirismos, fruto dos ensaios que ocorreram nos dias anteriores ao concerto.

Em seguida, uma escolha louvA?vel: a difA�cil Sinfonia n. 38, K. 504, denominada Praga por ter estreado na cidade da BoA?mia que tA?o bem acolheu o gA?nio de Salzburgo. Steuerman, que tem dado seus primeiros passos como regente, parecia estar se divertindo bastante com a funA�A?o. Tal comportamento se estendeu aos jovens mA?sicos da Camerata Sesi, que inspirados pela figura do pianista-regente atingiram elevados nA�veis de qualidade em diversos momentos do concerto. De se ressaltar a qualidade dos primeiros violinos, das flautas e dos metais, que se saA�ram muito bem, com destaque para o A?ltimo movimento da sinfonia.

Jean Louis Steuerman gentilmente respondeu a cinco perguntas que lhe apresentamos. Confira:

 

Buy O senhor ganhou uma bolsa de estudos na ItA?lia em 1967 e conquistou o 2A? lugar no prestigiado Concurso Bach em Leipzig, na Alemanha, em 1972, fatores que impulsionaram a sua carreira no continente europeu. Hoje, os artistas brasileiros que seguem esse caminho dispA�em de uma sA�rie de meios de fA?cil acesso para manter contato com o Brasil, alA�m de conhecerem antecipadamente, pelo menos em grande parte, quais serA?o as condiA�A�es que encontrarA?o na Europa – tudo isso por meio de aplicativos para telefone celular, redes sociais, ferramentas de pesquisa na internet etc. Como foram as suas primeiras experiA?ncias na Europa? Quais as maiores dificuldades encontradas? Ocorreu algo notadamente curioso ou engraA�ado?

A� verdade, os tempos mudaram muito. Fui para a ItA?lia com uma bolsa de estudos bastante limitada, insuficiente para alugar um piano e telefonar para o Brasil. Telefonema internacional era, entA?o, luxo milionA?rio. Internet, nem a Nasa. Toda pesquisa implicava deslocamentos, idas a bibliotecas, enfim, era um outro mundo, totalmente distinto do atual. O ConservatA?rio de NA?poles foi uma bela surpresa. Pude frequentar aulas diferentes, de regA?ncia, entre outras. Tive convA�vio com diversos instrumentistas e logo veio a curiosidade pela mA?sica dos sA�culos 17A�e 18, produzida por mestres italianos como Cimarosa e Alessandro Scarlatti.

As dificuldades eram, sobretudo, financeiras e de organizaA�A?o. Certamente houve episA?dios catastrA?ficos e grandes erros de julgamento de minha parte. Os episA?dios engraA�ados, na A�poca, eram assustadores e eu nA?o percebia nem o humor nem as liA�A�es que me traziam para o futuro.


O senhor A� considerado um grande intA�rprete da mA?sica de Bach, tendo gravado diversas obras do compositor alemA?o. Ao longo dos anos, uma infinidade de artistas registrou em disco as composiA�A�es para teclado de Bach, utilizando os mais diversos tipos de instrumentos e adotando, ou nA?o, os conceitos da chamada “interpretaA�A?o de A�poca” (ou “performance historicamente informada”). Na sua opiniA?o, no que diz respeito especificamente A� obra de Bach, existem visA�es que podem ser consideradas mais adequadas do que outras ou todas as acepA�A�es possuem idA?ntico valor? HA? muitos modismos na interpretaA�A?o de Bach?
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Sempre amei a mA?sica de Bach, de paixA?o. Quando fiz o concurso em Leipzig minha ambiA�A?o era passar da primeira prova. Foram esplA?ndidas surpresas ir atA� a final e, sobretudo, a reaA�A?o do pA?blico. AtA� entA?o, todos os meus pequenos sucessos eram de ordem nacional. Claro que adorei, ainda mais pelo fato de que uma agA?ncia estatal (naquela A�poca Leipzig era na Alemanha Oriental a�� a chamada RepA?blica DemocrA?tica AlemA? ou DDR) imediatamente me contratou para vA?rios concertos, alguns com grandes orquestras. Foi muito bom para mim. Ate entA?o eu era na Europa um caipira desgarrado, sem a menor ideia do que era essa carreira e nem a menor ilusA?o do que poderia acontecer. Fazia mA?sica porque era meu A?nico talento, ou meu A?nico interesse. E sA? fazia para mim e para meu gato.

Claro que na interpretaA�A?o – e nA?o sA? na de Bach – hA? sempre modismos, o que eu preferiria inclusive descrever como tendA?ncias de A�poca. Quando tive a oportunidade de gravar os discos (na A�poca, ainda eram!) de Bach em um Steinway de quase 3 metros, o movimento que buscava a volta ao uso de instrumentos de A�poca comeA�ou a crescer, inclusive criando polA?micas interessantes e necessidade de permanente investigaA�A?o sobre prA?ticas. Penso ser dos que privilegiam o texto e a busca constante e profunda pelo desejo do compositor. Os sA�culos, A� claro, dificultam essa busca sherlockiana, sobretudo em Bach, com a ausA?ncia de diretivas mais detalhadas para a interpretaA�A?o. Tenho amigos prA?ximos na brigada mais fundamentalista da recriaA�A?o fotogrA?fica da interpretaA�A?o de A�poca. Eles me informam e A�s vezes discordamos. Mas alguns sA?o grandes artistas e a mA?sica por eles produzida A� linda.


Em uma entrevista A� Order http://jazantoday.org/977292.html Folha de SA?o Paulo em 2003A� o senhor disse, ao se referir A�s Bagatelas de Beethoven, uma frase interessantA�ssima: “quanto menos notas, mais difA�cil fica”. Passados mais de dez anos dessa entrevista, a sua opiniA?o continua a mesma?

NA?o me lembrava desse comentA?rio, mas continuo pensando assim. Nada mais trabalhoso do que o despojamento e a simplicidade, que nA?o toleram desvios.


alli weight loss tablets Durante a sua carreira o senhor dividiu o palco e os estA?dios de gravaA�A?o com diversos conjuntos, orquestras, solistas e regentes, muitos dos quais mundialmente famosos. HA? algum nome que o tenha particularmente impressionado? HA?, ainda, nomes que na sua opiniA?o mereceriam receber maior destaque por parte da crA�tica e das gravadoras e/ou maior reconhecimento por parte do pA?blico?

Talvez Abbado , por sua simplicidade, amabilidade e amor pela mA?sica e pelos mA?sicos, tenha me causado a maior emoA�A?o. E Menuhin, com quem aprendi a importA?ncia de cada nota, em uma turnA? com o Concerto de Schumann. Outros, como JuddA� e Venzago , menos conhecidos, com quem trabalhei frequentemente, sA?o mA?sicos extraordinA?rios, com quem sempre aprendi.

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online O senhor estA? em VitA?ria e irA? participar de um concerto com uma orquestra formada por mA?sicos jovens. Qual mensagem o senhor gostaria de deixar para eles?

Os ensaios em Vitoria tA?m sido uma linda experiA?ncia. SA?o jovens super dedicados, talentosos e bem preparados. Minha mensagem A� de alegria e amor.

 

No post, foto do ensaio. CrA�dito: DivulgaA�A?o.document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);}

Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.