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Cia Ananda de Dança Contemporânea estreia “Outras de nós”

A Cia Ananda de Dança Contemporânea, fundada em 2017 pela dançarina e coreógrafa Anamaria Fernandes, estreia o espetáculo “Outras de nós”, uma criação que trata do universo feminino. O trabalho entrelaça vozes de diferentes mulheres, encarnadas no corpo de duas dançarinas, Beatriz Nobel e Duna Dias.


O projeto teve início por meio de uma interlocução com um trabalho de dança realizado por Anamaria Fernandes, que assina a direção da montagem, no Setor Psicológico da Penitência de Mulheres da cidade de Rennes, França.  “O encontro com essas mulheres foi muito forte e devastador para mim, maravilhoso e inesperado. Foi antes de tudo um encontro com mulheres e não com presidiárias. Claro que num contexto específico, eram mulheres que estavam cumprindo longas penas, mulheres de diferentes países e de diferentes idades, atrás de grades, atrás de tantos muros e vigiadas por tantos olhos. Encontrei mulheres com suas histórias, com seus sonhos, que se ajudam, que estão juntas mas sozinhas ao mesmo tempo. Compartilhamos risos, choros, danças e muitas histórias. Esse espetáculo é atravessado por esta vivência e vozes de outras mulheres, sobretudo das dançarinas.”, explica a diretora.


A estreia é no dia 14 de março, sábado, às 20h, no Galpão Cine Horto. Haverá cinco lugares reservados a pessoas cegas, e disponibilização de audiodescrição instantânea.


No processo de criação deste espetáculo, a presença dessas mulheres em situação de cárcere, se deu por meio de gravações áudio feitas com elas e de frases escritas por elas. Na montagem, escutamos alguns momentos dessas gravações. Essas vozes também estão presentes no vídeo dança À travers, criado no Brasil em 2019, com bailarinas da cia Ananda, e que foi apresentado no Setor Psicológico da Penitência de Mulheres da cidade de Rennes, inclusive com a presença de Duna Dias. “Os dois trabalhos são o fruto do atravessamento de histórias de vida compartilhadas, que viajaram os dois continentes e fizeram com que essas mulheres se encontrassem sem se encontrar diretamente”, adianta Anamaria. 


“Outras de nós” dialoga também com outros elementos que compartilham a temática do feminino, como o livro de Clarice Lispector “A Paixão Segundo G.K.” e fotos de mulheres prostitutas da Índia, feitas pelo fotógrafo francês Pierre Bernardi. Para Anamaria Fernandes, “Outras de nós” foi criada a partir de realidades e culturas diferenciadas, mas que trazem algo em comum.  “São países diferentes, mas que infelizmente têm em comum, a violência contra as mulheres. Isso em quase todo o mundo, aliás, desconheço um país que não exista a violência contra a mulheres. Segundo a Onu, 7 em casa 10 mulheres foram ou serão violentadas no mundo. Alguns estudos de sociólogos apontam que de 80 a 95 por cento de mulheres em situação de cárcere sofreram violência por parte de homens. Esta violência está presente na montagem, ao mesmo tempo que está a força e a beleza dessas mulheres”, revela Anamaria.


Para a diretora, a dança também tem seu papel político e social em tratar de temas importantes como esse. “A dança, assim como todas as artes, é um lugar importante de reivindicação, de resistência e de protesto. Todas as artes têm a sua força, a dança é o nosso meio de comunicação e expressão. Foi para nós muito importante estrear este espetáculo no mês em que festejamos o dia internacional da mulher. Além disso, o dia da estreia marca os dois anos da morte de Marielle Franco. Ela não está ligada diretamente ao nosso trabalho, mas indiretamente, como a voz de mais mulher, brutalmente e covardemente assassinada. O conhecimento que tenho de presídios de mulheres no Brasil mostra uma precariedade de atendimento e de estrutura que são terríveis. O que se difere da França. Mesmo que lá se fale de precariedade, é incomparável o que elas podem ter na prisão de lá, como o que têm as mulheres em situação de cárcere no Brasil. É certo que nossa economia nacional não é a mesma, mas acredito que o problema real não é esse e sim uma questão de prioridades. E vemos neste governo que a prioridade não está neste lugar do social, nem dos direitos humanos, nem no direito das mulheres, nem na justiça, nem na luta contra a discriminação e desigualdade. Então, trazer essas vozes, é muito forte e importante. Foi um processo de criação de muitos atravessamentos, de compartilhamentos e de muitas lágrimas”, revela.  


Nos corpos das dançarinas ressoam vozes múltiplas que se cruzam e se enlaçam como fios de uma teia. Um trabalho feito com muito cuidado e carinho, que entrelaça gritos e segredos, filetes íntimos e protestos. Uma criação que perpassa diferentes temporalidades, espaços e realidades. Muitas de nós, todas de nós, outras de nós. 

Ficha técnica


Direção Artística: Anamaria Fernandes
Intérpretes criadoras: Beatriz Nobel e Duna Dias
Composição sonora: Gustavo Félix
Figurino: Deise Menezes Guimarães

Iluminação: Pâmela Rosa
Vídeo: Luiza Nobel
Produção: Duna Dias, Jo Caravelli, Juliana Cancio, Luana Magalhães e Samuel Carvalho
Roteiro de audiodescrição: Natália Cândido
Audiodescritores: Bianca Sanches, Heloísa Rodrigues, Luana Magalhães, Maísa Do Carmo e Natália Cândido
Fotos: Juliana Cancio
Assessoria de imprensa: Luz Comunicação – Jozane Faleiro

SERVIÇO

 

Cia Ananda apresenta espetáculo de Dança: “Outras de Nós” 

Dia 14 de março, sábado, às 20h

Galpão Cine Horto (Rua Pitangui, 3613 – Horto/BH – 31 34815580))

Ingressos: R$30,00 inteira / R$15,00 meia 

5 lugares reservado a pessoas cegas com audiodescrição instantânea.

Anamaria Fernandes

Dançarina, coreógrafa e professora, obteve sua licenciatura em Dança na Unicamp, seu mestrado na Universidade de Rennes 2 na França, no qual defendeu a legitimidade artística da pessoa com “deficiência intelectual severa”, doutorado em Artes Cênicas na Universidade de Rennes 2 e em Educação na Unicamp com o tema “Dança e autismo: espaços de encontro”.

Como dançarina, trabalhou com diferentes companhias no Brasil de 1986 a 1993 – dentre os quais Totem, dirigido por Holly Cavrel; Beleléu, grupo com direção coletiva; e Gira Corpus, dirigido por Oswaldo Rosa. Morou na França de 1994 à 2015, onde colaborou com vários artistas da imagem, teatro e música em diferentes projetos, dentre eles Nicolas Lelièvre, Guillaume Robert, Michel Aumont e Renaud Herbin e em diferentes companhias, dentre elas La Mauvaise Tête(s), Croche Pieds e UBI.

Em 2005, fundou, ainda na França, a Companhia Dana na qual dirigiu diversas criações. No Brasil, colaborou com a companhia mineira Quik entre os anos 2006 e 2008. Durante 18 anos, desenvolveu na França um trabalho de dança com pessoas em situação de vulnerabilidade, deficiência ou distúrbio mental em diversas instituições. Sobre essa abordagem co-dirigiu cinco documentários, na França e no Brasil. É professora do Curso de Licenciatura em Dança da Universidade Federal de Minas Gerais, desde 2015. Em 2017, criou a Companhia Ananda que é hoje um projeto de extensão da UFMG.

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