Crítica

Choram o pinho, os sopros e os metais

Promissora estreia da OSB com Yamandu Costa leva público ao delírio.


No Municipal lotado, uma noite colorida de brasilidade. Assim se deu a estreia da temporada 2013 da Orquestra Sinfônica Brasileira, cujo concerto inicial ocorreu na noite de 23 de março, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Sob a regência de Roberto Minczuk, que fez as introduções da noite, o grupo executou o Hino Nacional Brasileiro, tendo como coro a recheada plateia. Tinha início, então, um concerto de orgulho quase ufanista. Mais uma vez, dá gosto ver o notável crescimento da OSB.

O Concert Romanesc, de György Ligeti, foi, efetivamente, a primeira peça do programa. Composto em 1951, o concerto evoca vividamente a música folclórica romena, terra onde nasceu o compositor. A peça se inicia com um denso leito musical formado pelas cordas, no qual trespassam notas dos sopros. A melodia prossegue, sinuosa, com os solos de oboé e clarineta, até chegar a acentos ciganos expressos pelos impecáveis violinos e, lindamente, pelo solo do spalla, como a saia de uma cigana que, rodopiando, cria um redemoinho por onde passa.

A estrela da noite, o violonista gaúcho Yamandu Costa, adentrou a ribalta para executar a peça mais importante do programa: a estreia mundial de Concerto Nazareth para Violão e Orquestra, uma homenagem ao compositor carioca Ernesto Nazareth, cujo sesquicentenário de nascimento é comemorado neste ano. A partitura foi encomendada pela OSB ao jovem (nascido em 1976) Paulo Aragão, presente no evento.

Com três movimentos – Nazareth e Milhaud (Tango Brasileiro), Nazareth e Villa (Valsa de Salão), e Nazareth e os Chorões (Batuque) –, a peça exala brasilidade e brejeirice, bem harmonizada com o espírito da música do homenageado. Aragão declarou que, já na infância, vivenciava choros e serestas: suas primeiras lembranças musicais estão ligadas “à descoberta dos LPs do meu pai, ainda criança, com cerca de oito anos. Havia alguma coisa de música clássica – Bach, Beethoven – e muita música popular. Lembro-me de ter ‘gastado’ os discos de choro, especialmente alguns com músicas de Ernesto Nazareth”.

Multicolorido e com fronteiras tênues entre música erudita e popular, o Concerto Nazareth evoca a lua cheia sobre a cidade, os becos do Rio de Janeiro, o farfalhar das saias das moças nos salões, a malemolência jocosa do requebro das mulatas e a doçura ingênua dos tempos de outrora. Para interpretá-la no esplendor de suas possibilidades, o virtuoso Yamandu Costa fez os solos de violão. Em um jogo perfeito com a orquestra (especialmente no lírico diálogo com o violoncelo no segundo movimento), o solista esbanjou talento e técnica em uma performance de arrepiar. A ela se seguiram aplausos e ovações delirantes da plateia e, durante os dois bis do violonista, o silêncio reverente e admirado dos músicos da orquestra diante daquele jovem gigante do violão.


Isso também é Brasil

A segunda parte do concerto padeceu um pouco em função do brilho da primeira, especialmente da esfuziante participação de Yamandu, mas manteve a qualidade das interpretações. Contrapondo-se à alegria da peça de Aragão, a composição Impressões Brasileiras, escrita pelo italiano Ottorino Respighi em 1928, após uma viagem ao nosso país, é um pouco mais sombria. O clima é mais etéreo e levemente exótico. Placidez e suavidade caracterizam o primeiro movimento, Noite Tropical. O segundo, Butantã, é inspirado por uma visita do compositor ao instituto homônimo, em São Paulo, e tem sublimes intervenções dos violinos. Canção e Dança é o movimento final, que traz mais ritmo à composição.

A noite se encerrou com uma obra de um dos mais importantes compositores brasileiros: Heitor Villa-Lobos. Sua Bachiana Brasileira no 7, composta em 1942, mesmo não sendo a mais exuberante da série, é grandiosa e heróica, exigindo bastante da orquestra. A obra é dividida em quatro movimentos: Prelúdio (Ponteio); Giga (Quadrilha Caipira), lírico e bem brasileiro; Tocata (Desafio), que começa meio “jeca”, com trompetes em surdina, e cresce até incorporar outros metais, como os apoteóticos trombones; e Fuga (Conversa), que, após o início dos violoncelos, abre a “prosa” para as outras cordas, crescendo em dramaticidade e exuberância grandiosa. (E por falar em movimentos, o que aconteceu com o hábito de não aplaudir entre eles, para que a fruição da peça completa seja mais profunda? Morreu?)

Os muitos acertos prescriptions on line da Orquestra Sinfônica Brasileira e de seu maestro, Roberto Minczuk, entre os quais se destacam a inteligência da escolha do repertório e do solista, o violonista Yamandu Costa, fizeram da noite da estreia da temporada um momento de aclamação e de muitas esperanças no que promete a OSB para 2013.

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com