Artigo

Castleton Festival 2013

Em 1988,  o casal Lorin e Dietlinde Maazel adquiriu uma grande fazenda em Castleton

Ficava no Condado de Rappahannock, na Virginia, ao lado do Parque Nacional do Vale  de Shenandoah, a duas horas de automóvel do centro de Washington. Essa bela, verde e ondulante região nas faldas da Cordilheira do Piedmont, e sua mansão construída em 1857, se transformaria na sede da Fundação Châteauville, que o casal criaria na década de 1990. A construção do Teatro Castleton, um teatro de ópera em miniatura, com 140 lugares, todo ele em madeira clara, moderno, confortável, no lugar do antigo galinheiro da fazenda, criaria, em 1997, a base do futuro Festival de Castleton, inaugurado em 2009.

Mas, antes disso, artistas  do calibre de Mstislav Rostropovitch, Itzhak Perlman, José Carreras, Emanuel Ax e outros se apresentaram naquele pequeno, excelente teatro. A Fundação, contudo, ambicionava mais, muito mais. Dentre seus novos projetos, a criação do C.A.T.S. (Castleton Artists Training Seminar) incluiria, inicialmente, um programa de treino para estudantes adiantados de canto, abrangendo técnicas de atuação no palco, línguas estrangeiras e diccção nelas e no inglês, expressão corporal e técnicas de audição, sob a direção da soprano Nancy Gustafson e da atriz Dietlinde Turban Maazel. Com a construção de mais uma casa de espetáculos, o teatro-tenda, com 650 lugares,  um palco profissional e um fosso de orquestra para 90 músicos, a Fundação possibilitaria uma programação mais ampla, de montagens de óperas e concertos sinfônicos.

A partir de então, Lorin Maazel, regente de prestígio internacional, passaria a recrutar, anualmente, duzentos jovens músicos,vindos de todo o país e do estrangeiro, para treino intensivo de dois meses, durante o verão americano, sob sua orientação. Com este projeto, ele criaria uma orquestra de surpreendente alto nível, que substitui seus músicos a cada ano. Neste projeto, já participaram quase 3.000 jovens músicos, a caminho de sua profissionalização.

A tenda oferece produções de óperas de amplas dimensões, bem como concertos sinfônicos. O pequeno teatro hospeda óperas de câmara, com o seu fosso de orquestra para vinte músicos, concertos de música de câmara, recitais de piano e canto e palestras. À diferença de outros festivais, o de Castleton combina treino de jovens instrumentistas e cantores, com esmeradas produções profissionais.

A partir de janeiro deste ano, o Festival de Castleton tornou-se uma organização independente, sem fins lucrativos, com estatutos próprios, uma diretoria e um conselho consultivo, dos quais participam luminares do mundo das artes. Esta nova estrutura abriu as portas para subvenções públicas, que já vieram recentemente do Fundo Nacional das Artes, da Comissão Cultural da Virginia e do Condado de Rappahannock, num total de US$ 150,000.00, além de doações particulares e das vendas de ingressos, para os espetáculos, geralmente lotados. Torna-se, portanto, realidade, o sonho de Lorin e Dietlinde Maazel, de expandir as oportunidades para jovens artistas, e de criar, para eles, novas plateias.

Já com um vasto caudal de realizações, desde 2009, o Festival está celebrando o seu quinto aniversário, durante o mês de julho, com a produção de “La fanciulla del West,” de Puccini, dirigida por Giandomenico Vaccari, especialmente contratado na Itália; “Otello”,de Verdi, dirigido por Sir Peter Hall, na produção do Festival de Glyndebourne, na Inglaterra, trazida para Castleton, agora com jovens cantores americanos; “La Voix Humaine”, de Francis Poulenc, baseada no monólogo homônimo de Jean Cocteau, que também é apresentado, na primeira parte do espetáculo.

Estão anunciados também concertos com as sinfonias números 4 e 5 de Gustav Mahler, um recital de Lieder de Mahler, música de câmara de Mahler, a 5a. sinfonia de Mendelssohn, cenas de óperas com os jovens cantores do programa de treino, cenas de óperas de Tschaikovski e Benjamin Britten, com grandes cantores profissionais, e o monumental Requiem, de Andrew Lloyd Webber, raramente apresentado, e concerto de câmara, com peças de Fauré, Prokofiev e Chausson. Além do Festival, muitos concertos estão programados para  o pequeno teatro, de setembro próximo a maio de 2014.

“La fanciulla del West”, baseada na peça teatral de David Belasco, “The Girl of the Golden West”, que fez sucesso na Broadway, foi estreada na Metropolitan Opera de Nova York, em 1910, sob a regência de Arturo Toscanini. A ação tem lugar na região aurífera da Califórnia, em 1850, onde garimpeiros de toda parte e de todos os naipes se juntam, para construirem vida nova, cheia de decepções, aliás, a partir de anseios de ambição comum, a de juntar fortuna. Todos eles disputam o amor de Minnie, a estalajadeira, que finalmente o dá a um desconhecido fora-da-lei, desafiando tudo e todos. Esta ópera, pouco melódica e muito dramática e expressiva, é raramente montada, por exigir um elenco de vozes robustas. (Birgit Nilsson, a grande cantora wagneriana, foi a melhor Minnie do seu tempo).

Esta encenação exemplar, feita em vários planos, incluindo movimentos de massa e concentração psicológica dos protagonistas, convence tanto pela inventividade da direção como pela atuação dos cantores-atores, embora estes tenham menores do que aquelas exigidas pela partitura. Menção especial para a atuação do coro dos garimpeiros. Os protagonistas deram o melhor de suas vozes e de sua atuação, com especial destaque para Ekaterina Metlova e sua substituta Elizabeth Blancke-Biggs, Paul LaRosa, como o Sherife, Jonathan Jnson como Dick, o favorito de Minnie, e Andrew Stockey, como Sonora. Mas os papéis secundários também tiveram ótimos intérpretes. A orquestra, sob a regência de Lorin Maazel, deu brilho e intensidade emocional à complexa orquestração de Puccini.

Baseada na peça de Shakespeare, o “Otello”, de Verdi, foi estreada no Teatro alla Scala, em Milão, em 1887. Verdi se concentra na perfídia de Iago, nas hesitações e no ciúme de Otello, e na inocência perplexa e conformista de Desdemona. Os três jovens cantores-atores, respectivamente Javier Arrey, Rafael Rojas e Joyce El-Khoury se jogaram por inteiro na atuação e vocalização dos protagonistas. Esta obra prima também exige grandes vozes. Embora ainda em processo de amadurecimento, os três cantores já estão equipados para enfrentarem seus papéis. Agil e imaginosa, com especial atenção à psicologia dos três personagens centrais, a direção de Sir Peter Hall surpreende por grandes gestos e pequenos detalhes. Mais uma vez, a orquestra, sob a regência de Lorin Maazel, atuou como verdadeira protagonista, musical e dramática.

No monólogo de Cocteau “A Voz Humana” (1930), há dois protagonistas: a mulher abandonada e o telefone, através do qual ela tenta reconquistar o amante que a deixou, depois de cinco anos de relacionamento, para se casar com outra, no dia seguinte. Ele a chama pelo telefone para viagra kaufen paypal se despedir, a conversa é interrompida várias vezes por falha técnica do telefone, o que só contribui para aumentar a tensão dela, e eles suspeitam que alguém os esteja ouvindo numa linha cruzada. Cheio de angústia e sutilezas psicológica, o texto exige muito da atriz.  Dietlinde Turban Maazel teve um desempenho intenso e sutil, mas eu teria preferido que ela tivesse modulado mais a voz, usando os registros médio e grave, para maior diferenciação emocional, ao longo do penoso monólogo.

Na versão cantada, a segunda parte do espetáculo (Poulenc, 1959), a soprano Jennifer Black explorou todas as gamas emocionais do papel, tanto pela atuação expressiva como pela modulação vocal. Especial menção merece a orquestra de câmara, sob a regência do jovem e muito promisso Antonio Mendez.

O monólogo foi dito em tradução inglesa, mas foi cantado no original francês.

 

 Para mais informações, acessem http://www.castletonfestival.org  

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.