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Carruagens de fogo

Cia. Bachiana Brasileira encerra a temporada 2017 da Sala Cecília Meireles com concerto arrebatador.

 

“Em um país minimamente civilizado, que desse valor à Cultura, um evento desse porte seria apresentado várias vezes em vários espaços. (…) Tampouco se entende por que um trabalho como o da Cia. Bachiana Brasileira não seja declarado patrimônio cultural do país e adotado pelo poder público, e que seu regente e diretor musical não esteja à frente de alguma orquestra nacional. Coisas do Brasil.”

A declaração é do compositor catarinense Edino Krieger e foi publicada em uma rede social após o concerto de encerramento da temporada 2017 da Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, realizado no dia 17 de dezembro pela Cia. Bachiana Brasileira – coro, orquestra e solistas –, sob direção musical e regência do maestro Ricardo Rocha. As palavras do venerável compositor expressam o deslumbramento da plateia diante da irretocável performance do épico oratório Elias, Op. 70, MWV A 25, de Felix Mendelssohn (1809-1847).

 

Admiração pelo Barroco

A gênese dessa obra começou quando o compositor, aos 20 anos de idade recém-completos, promoveu e regeu, na Berlin Singakademie, récita de A Paixão Segundo São Mateus, de J. S. Bach, obra então esquecida e, a partir daquele momento (11 de março de 1829), novamente alçada ao posto de obra-prima da música ocidental. Mendelssohn teria se tornado tão aficionado pelo gênero oratório (especialmente nos moldes barrocos) que compôs seu primeiro em alguns anos: Paulus, Op. 36, cuja exitosa estreia ocorreu em 1836, em Dusseldorf.

O interesse em criar composição similar surgiu instantaneamente, mas o tema não – até que Mendelssohn deparou-se com o Livro dos Reis, do Velho Testamento. Segundo o compositor e maestro alemão Ferdinand Hiller (1811-1885), certa tarde “encontrei Mendelssohn mergulhado na Bíblia. ‘Escute’, ele me disse, e então leu para mim, em uma voz gentil e agitada, a passagem do Livro dos Reis Cialis Professional buy que começa com as palavras: ‘E eis que o Senhor passou’. ‘Não seria esplêndido para um oratório?’, ele exclamou”.

Em carta enviada em fevereiro de 1838 ao pastor Julius Schubring, que foi seu consultor bíblico em Paulus e acabaria por se tornar o libretista de Elias, Mendelssohn escreveu: “Eu pensei em Elias como o autêntico profeta que novamente precisaríamos nos dias de hoje: forte e cheio de zelo, mas também zangado, irado e sombrio, o oposto dos canalhas da corte e dos canalhas do povo; o oposto de quase todo mundo, mas, apesar de tudo, como que carregado por asas de anjo”.

A obra estreou em 1846, no Festival de Birmingham, na Inglaterra. A história oferece todos os tipos de efeitos que invocam o tratamento musical colorido, tais como a ressurreição do filho de uma viúva, uma erupção de chamas sobre um altar e uma terrível tempestade que chega para dar fim a uma devastadora seca de três anos e meio. Embora não seja uma narrativa contínua, o libreto contém episódios suficientes para criar um retrato completo do personagem-título.

 

Perfeccionismo e perfeição

A fluência e a elegância melódicas, a potência dos conjuntos corais e a extraordinária riqueza harmônica da partitura de Mendelssohn estavam presentes na interpretação da Cia. Bachiana Brasileira. Não contente em dar vida e dramaticidade à obra, o maestro extraiu dos músicos e cantores uma perfeição ímpar (mesmo para o alto padrão de qualidade do grupo) – desde o capricho com a pronúncia em alemão do coro à flexibilidade da dinâmica da orquestra, a trajetória do profeta foi feita real diante do público com a pungência de uma ópera.

O coro, com aproximadamente 36 vozes, foi da violência de uma multidão enfurecida à delicadeza de hostes celestiais. Experientes e (muitos) há tempos em parceria com o maestro, os cantores amalgamaram-se com harmonia, dando origem a um conjunto vocal coeso, potente, maleável e cheio de força interpretativa. Clamando ou reclamando, baixos sonoros, tenores brilhantes, contraltos presentes e sopranos suaves superaram, neste concerto, a excelência com a qual comumente cantam.

As vozes do coro que integraram o octeto solista – Ana Cecilia Rebelo e Michele Menezes (sopranos), Lily Driaze e Jane Acosta (contraltos), Cialis Professional order Roberto Montezuma e Ossiandro Brito (tenores), e Cyrano Sales e Francisco Carriço (baixos) –, além da beleza dos timbres, demonstraram grande capacidade interpretativa e desenvoltura de profissionais.

A orquestra, composta por músicos experientes e atuantes na cena carioca (vide a spalla Carla Rincón, do Quarteto Radamés Gnattali, e a flautista Sofia Cecatto, do Trio Capitu, entre outros), interpretou com sensibilidade a música teatral e cheia de nuanças da partitura de Mendelssohn, tornando-se perfeito suporte para as emoções de coro e solistas.

Maestro Ricardo Rocha

 

Quarteto fantástico buy amoxil online

A soprano viagra cheapest Veruschka Mainhard, a contralto Carolina Faria, o tenor Eric Herrero e o barítono Marcelo Coutinho compuseram um louvável quarteto de solistas. O timbre metálico de Veruschka deu grande dramaticidade aos lamentos da Viúva de Sarepta, enquanto Carolina modulou sua fascinante voz tanto para a doçura de um Anjo, como para a fúria da rainha Jezabel. Já Herrero empregou seu timbre de agudos vibrantes nas vozes do rei Acab e de Obadias – exemplo foi a linda interpretação de So ihr mich von ganzem Herzen suchet.

Mas estrela fulgurante foi Marcelo Coutinho como o profeta protagonista. A voz em grande forma, aliada à vigorosa desenvoltura musical, conferiram comovente vida ao personagem. Os momentos mais desesperadores da história, em particular a ária viagra purchase Es ist genug, so nimm nun, Herr, meine Seele buy amoxil , na qual o profeta pede para o Senhor tirar sua vida, foram profundamente tocantes.

Antes que o profeta Elias subisse aos céus em carruagens de fogo, a Cia. Bachiana Brasileira e seu regente Ricardo Rocha incendiaram a Sala Cecília Meireles com uma fenomenal execução do oratório de Mendelssohn, arrebatando uma plateia extasiada até o repouso da batuta. Para Edino Krieger – que, segundo o diretor Miguel Proença, será homenageado na Sala em 2018, em comemoração por seus 90 anos –, o conjunto fez um “encerramento com chave de ouro da temporada carioca” e nos encheu de “esperança de que outros dessa envergadura e qualidade nos aguardem na temporada do próximo ano”. Mestre Edino, também torcemos para que a seca acabe e que suas palavras sejam proféticas.

 

Fotos: Gustavo Bonfim

 

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com