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“Carmen” ganha bela produção em São Paulo

Elenco equilibrado é o principal destaque no Theatro Municipal

 

Carmen, obra-prima em três atos e quatro cenas de Georges Bizet sobre libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy, com base na novela homônima de Prosper Mérimée, é o terceiro título levado à cena lírica na presente temporada do Theatro Municipal de São Paulo, com récitas até 11 de junho. Vale sempre registrar que muita gente boa chama indevidamente de “quarto ato” a segunda cena do terceiro ato de Carmen.

Estreada mundialmente a 3 de março de 1875 na Opéra-Comique de Paris, a ópera foi um fracasso de público e crítica. Nas últimas récitas dessa primeira temporada francesa, o teatro chegou a distribuir ingressos gratuitamente para aumentar a audiência. Bizet tinha completa convicção de que havia composto uma obra-prima, e a recepção fria que sua ópera recebera fez com que o compositor mergulhasse em profunda depressão. Ele já sofria de problemas cardíacos e, certamente, a depressão agravou sua doença, levando-o prematuramente à morte por infarto, aos 36 anos, em 3 de junho de 1875 – exatamente três meses após a estreia de Carmen.

Não é de se estranhar o fracasso inicial da ópera. Seu tema – no qual a mocinha (Micaela) é rebaixada a personagem secundária, enquanto uma cigana amoral é alçada ao posto de protagonista e o herói se transforma em vilão ao longo da encenação – era totalmente descabido para o gosto da época. Somem-se a isso traços do Realismo, especialmente marcado por mulheres que trabalham numa fábrica; e o fato de uma mulher defender sua própria liberdade em cena aberta (algo impensável naqueles tempos), chegando a dizer coisas como “eu penso, não é proibido pensar” ou “Carmen nasceu livre, livre morrerá”, jamais se submetendo ao controle do “macho” de plantão (Don José). O que temos (ou tínhamos em 1875) é um verdadeiro barril de pólvora, uma afronta à (hipócrita) moral burguesa parisiense.

No entanto, pouco tempo depois da morte de Bizet, quando a ópera foi levada em Viena em outubro do mesmo ano, tanto a crítica quanto o público austríacos decretaram um sucesso que se mantém inabalável até nossos dias. Isso se deve, claro, à música magistral de Bizet que, desde a abertura, prende e encanta o ouvido do espectador.

O prelúdio de Carmen, aliás, parece-me uma peça pouco explorada pela crítica de um modo geral, e por isso me detenho sobre a mesma. O primeiro movimento, um allegro giocoso em Lá maior, é formado por dois temas, o da tourada e o do toureiro; enquanto o segundo movimento, um andante moderato em Ré menor, apresenta um tema chamado por alguns de “tema do destino”. Esses três temas são retomados oportunamente ao longo da ópera.

Uma leitura comum reportará que os temas do primeiro movimento servem para situar a ação no tempo e no espaço (estamos na Espanha, na época das grandes touradas), enquanto o segundo movimento dá o tom da tragédia que começa a ser contada; mas o prelúdio de Carmen, com sua sequência de temas, também pode ser interpretado de outra forma.

Assim como o touro só é verdadeiramente domado quando o toureiro o abate na arena, o mesmo se dá com a cigana protagonista: somente a morte pode domá-la, somente a morte pode impedi-la de ser livre. Carmen é, por assim dizer, o “touro” de Don José. No final da ópera, enquanto Escamillo toureia dentro da arena, Don José “toureia” do lado de fora. Tudo já estava brilhantemente resumido no prelúdio.

Grandes momentos musicais e dramáticos, como as duas árias da protagonista (incluindo sua celebérrima habanera) e o maravilhoso dueto para soprano e tenor no primeiro ato; a canção cigana, a canção do toureador, a grande ária do tenor e o quinteto dos contrabandistas no segundo ato; o noturno de Micaela na primeira parte do terceiro ato e, ainda, a cena da corrida de Sevilha e o tenso dueto final, fazem desta uma partitura única, que arrebata multidões.

Segundo as estatísticas do Operabase, Carmen é a segunda ópera mais representada do mundo atualmente, perdendo o primeiro posto apenas para La Traviata diflucan over the counter at walmart . Não é à toa que, em São Paulo, todos os ingressos para todas as récitas estavam esgotados há mais de 15 dias da estreia.

A atual produção do Theatro Municipal paulistano é de muito bom nível. A concepção do diretor italiano Filippo Tonon Order desloca a ação do início do século XIX para o fatídico ano de 1875 – o que em nada prejudica a compreensão da obra. Seu trabalho de direção de atores é bastante consistente, e o único ponto negativo de sua encenação é o fato de Tonon manter Don José e Carmen a sós no palco logo após a cigana ser apunhalada. Ninguém entra em cena após o assassinato, e, com isso, soa um pouco estranho e sem sentido dramático as frases de Don José “Vocês podem me prender. Fui eu quem a matou Buy ”.

O Diretor Técnico e cenógrafo residente do Theatro Municipal, Juan Guillermo Nova, criou um cenário belo, eficiente e funcional, que é ligeiramente modificado ao longo das cenas. O público, porém, tem quase sempre a mesma visão do lado direito do palco (onde há uma grande escada), e isso pode cansar um pouco ao longo das quase quatro horas de espetáculo (incluindo os dois intervalos). No começo da cena da montanha, enquanto a orquestra interpreta o prelúdio, o cenário é modificado/ajustado aos olhos do público, que demora a perceber o ambiente montanhês.

Exceto por esses senões, o cenário de Nova é bastante valorizado pela belíssima luz de Caetano Vilela. Já os figurinos de Cristina Aceti adequam-se perfeitamente à concepção do diretor, enquanto a bela coreografia de Matilde Rubio, muito bem executada pelo Balé da Cidade de São Paulo, completa esta produção vistosa e de muito bom nível.

Na récita de estreia, a 29 de maio, a Orquestra Sinfônica Municipal http://goticketsnow.com/archives/9578 foi bem conduzida pelo regente espanhol Ramón Tebar, que soube valorizar detalhes da partitura de Bizet, num belo trabalho dinâmico. A lamentar, apenas, a concordância do regente em inverter, a pedido da direção de cena, o prelúdio da segunda cena do terceiro ato, popularmente conhecido como Aragonesa, com o coro inicial desta mesma cena (À deux cuartos!).

O Coro Lírico Municipal de São Paulo, sempre preparado por seu titular, Bruno Facio, esteve muito bem, assim como as crianças do Coral da Gente online , preparadas por Silmara Drezza. Vale destacar a graciosa movimentação cênica do coro infantil. Edison Vigil não comprometeu na sua curtíssima cena como o guia que leva Micaëla à montanha, e Guilherme Corrêa foi um ótimo e característico Lillas Pastia – ambas são partes faladas.

Dentre os solistas, estiveram bem o Morales de Norbert Steidl e o Zuniga de Massimiliano Catellani. Muito bem estiveram a soprano Marta Torbidoni e a mezzosoprano http://eni-seafood.com/buy-hoodia-gordonii-plant/ Malena Dayen, respectivamente, como as ciganas Frasquita e Mercédès. Do elenco secundário, o grande destaque foi a dupla de contrabandistas Dancaire e Remendado, belamente interpretados, vocal e cenicamente, pelo barítono Francis Dudziak Purchase e pelo tenor Rodolphe Briand. Dudziak, a propósito, está erroneamente indicado no programa de sala como tenor.

A soprano croata Lana Kos deu boa conta da parte de Micaëla, e cantou bem tanto seu dueto com Don José no primeiro ato, quanto sua grande ária da primeira cena do terceiro ato, Je dis que rien ne m’épouvante. O barítono Rodrigo Esteves foi um ótimo Escamillo, e exibiu mais uma vez seus famosos predicados: voz poderosa e grande presença cênica. É preciso também registrar que o artista esticou desnecessariamente o agudo final na canção do toureador (Votre toast), que, exceto por este porém, foi muito bem interpretada.

Eu havia escutado o tenor Thiago Arancam uma única vez, quando ele foi o Cavaradossi da Tosca levada no Rio de Janeiro em 2011. De lá para cá – não há dúvida –, Arancam evoluiu como artista. Seu Don José foi bem mais consistente que o Cavaradossi de três anos atrás, e sua presença cênica também apresentou evolução. Só isso já demonstra que o cantor segue bom caminho. Arancam é hoje dono de uma voz segura, bem projetada e baseada em boa técnica. Sua grande ária do segundo ato, La fleur que tu m’avais jetée, foi cantada com brilho, e seu embate final com Carmen foi dramaticamente convincente.

A mezzosoprano israelense Rinat Shaham foi uma ótima Carmen. Cenicamente notável, demonstrou todo o seu conhecimento e sua grande experiência em viver a personagem em diversos palcos internacionais (inclusive, recentemente, na Ópera de Viena). Segura vocalmente, dona de uma técnica precisa, de belíssimos graves e agudos não menos belos, a artista dominou o palco.

Depois de uma habanera (L’amour est un oiseau rebelle) morna, Shaham esquentou, e da cena da briga até o final da ópera apresentou uma performance bastante convincente, atravessando muito bem a seguidilha (Près des remparts de Séville), a canção cigana, o quinteto dos contrabandistas, o terceto das cartas e a dramática cena final (C’est toi? / C’est moi). Ainda que seja necessário registrar que, por vezes, sua emissão no registro médio apresentasse projeção aquém do desejável, não resta dúvida de que ali estava uma Carmen de verdade.

Por tudo que foi exposto, não resta dúvida de que esta Carmen será um sucesso até sua última récita, pois a atual produção paulistana é a melhor montagem desta ópera, nas últimas duas décadas pelo menos, no chamado “eixo” Rio-São Paulo.

A próxima ópera da temporada lírica oficial do Theatro Municipal de São Paulo será Salomé, de Richard Strauss, a partir de 6 de setembro, com regência de John Neschling, direção de Livia Sabag e solistas como Nadja Michael e Peter Bronder – este foi o excelente Mime da versão em concerto de O Ouro do Reno, em 2013.


Comparação inevitável: Carmen no RJ e em SP
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Além de estar sendo levada neste momento no Theatro Municipal de São Paulo, Carmen subiu ao palco do Municipal do Rio de Janeiro há pouco mais de um mês. A comparação é inevitável. Cenicamente, a produção paulistana é bem mais rica que a carioca, como já era de se esperar. Quanto aos quatro solistas principais (considerando apenas os elencos de estreia em ambas as cidades), houve maior equilíbrio.

Se a mezzo Rinat Shaham mostra-se uma Carmen mais completa que Luísa Francesconi, que cantou a personagem no Rio e também faz parte da produção paulistana no elenco alternativo, por outro lado o tenor Fernando Portari, até por sua grande experiência, foi no Rio um Don José mais completo que o de Thiago Arancam. Portari também está no elenco alternativo paulistano, e o jovem Arancam certamente aprimorará ainda mais o seu já bom Don José com o passar dos anos.

As sopranos que deram vida a Micaëla se equivalem no geral. Por questão de gosto, prefiro a russa Ekaterina Bakanova, que cantou no Rio e demonstrou maior intensidade, especialmente na sua grande ária do terceiro ato. E a maior diferença vocal entre as produções carioca e paulistana está nos intérpretes de Escamillo. Em São Paulo, Rodrigo Esteves é um ótimo toureiro, enquanto o Municipal do Rio preferiu contratar um letão de quinta categoria.


John Neschling anunciou 2015 e já pensa em 2016

Como todos já sabem, o Diretor Artístico do Theatro Municipal de São Paulo, John Neschling, divulgou recentemente a temporada lírica 2015 da casa (leia mais aqui). E ele já pensa em 2016. Para daqui a dois anos, o maestro pretende montar em São Paulo títulos como Don Carlo (que completaria, em quatro anos de gestão, as quatro últimas óperas de Verdi), Tristão e Isolda (um sonho antigo que o maestro não conseguiu programar para 2015, como pretendia) e Fosca (interrompendo uma grande lacuna de óperas de Carlos Gomes). A conferir.

 

Foto do post: Heloisa Ballarini