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Canto de todas as raças

Cheap Festival de Ópera de Belém tem resplandecente vesperal dedicada a George Gershwin.

 

Quando as marimbas começaram a chacoalhar em Belém, capital do Pará, não era, como podem pensar os mais incautos ou preconceituosos, um grupo folclórico se apresentando com temas pseudo-indígenas para turistas em busca do exótico amazônico. Os sons vinham do fosso do deslumbrante Theatro da Paz, onde ocorria a 13ª edição de seu exitoso Festival de Ópera.

Na noite de 23 de agosto, foi promovido um programa especial, dedicado ao compositor norte-americano (filho de imigrantes russos de origem judaica) George Gershwin, conhecido por incorporar elementos de outras fontes – especialmente o jazz – às suas criações, entre as quais se destacam a ópera Porgy & Bess, a Rapsódia em Blue e inúmeras canções para musicais da Broadway que hoje reinam absolutas entre os mais famosos standards do cancioneiro estadunidense.

As marimbas acima mencionadas integravam, ao lado de bongôs e violinos, a primeira peça do programa: a Abertura Cubana, composta em 1932 após viagem de duas semanas do compositor a Havana. Sua estadia, mesmo rápida, deixou marcas profundas, especialmente devido à complexidade dos ritmos nativos – e, de ritmo, nós, brasileiros, entendemos bem. Que o digam os músicos da Orquestra Jovem Vale Música, regida pelo maestro Miguel Campos Neto e formada por cerca de 70 adolescentes e jovens de 12 a 23 anos integrantes do Projeto Vale Música Belém. Apesar da pouca idade, os instrumentistas tinham ginga de sobra e executaram com precisão e colorido a exuberância sincopada da partitura.

Outra viagem, dessa vez a Londres, Paris e Viena, deu origem à outra composição apresentada no concerto: Um Americano em Paris. Gershwin já carregava consigo no navio de volta para casa a partitura desse poema sinfônico que, na descrição de seu autor, trazia a colagem de sensações (espanto, surpresa, prazer, nostalgia) que a Cidade-Luz provocara, evocando ritmos como blues e charleston, e até mesmo ruído das buzinas de táxi da capital.

Tutu Morasi e Bárbara Guerra (foto de Elza Lima)
Tutu Morasi e Bárbara Guerra (foto de Elza Lima)

Em Belém, a peça foi apresentada na companhia de um balé, dirigido e coreografado por Kika Sampaio, com supervisão artística de Gilberto Chaves e online Mauro Wrona. A zithromax without prescription mise-en-scène evocava a colorida película de Vincente Minelli (Sinfonia de Paris, de 1951), também inspirada na música de Gershwin, e, para tanto, contribuíram bastante os bonitos figurinos de Hélio Alvarez e o visagismo de André Ramos. Nos papéis principais, Tutu Morasi tinha charme e desenvoltura, especialmente nos números de sapateado, e Bárbara Guerra dançou com graça e sensualidade – o que a tornou mais Cyd Charisse que Leslie Caron, em especial no belo momento em que, de vestido vermelho, bailou no palco ao lado de David Nascimento, trompetista da orquestra. Os bailarinos da Cia. de Dança Ana UngerAlcides Júnior, Carlos Férrer, Purchase Eduarda Falesi, Gilza Miranda buy medrol dose pack online , Letícia Lobo, Lohana Carneiro, Marlus Estumano e Paulo César Moraes – executaram bem a elegante coreografia, em bonita iluminação (não creditada) e direção de palco de http://arewarising.com/order-sumycin-medication/ Cláudio Bastos.

Tragédia “de cor”

A grande atração da noite, no entanto, era a ópera em um ato Blue Monday, composta por Gershwin em 1922, com libreto de Buddy DeSylva e posteriormente denominada 135th Street. Essa prévia de Porgy & Bess já trazia alguns elementos característicos da grande ópera do autor: a influência tanto do jazz como da música erudita, o aspecto trágico inexorável, o universo da cultura afro-americana. No caso de Blue Monday, em seus cerca de 30 minutos de duração, unem-se a referência à ópera Order Pagliacci, de R. Leoncavallo, e a inspiração na canção Frankie & Albert, composta em 1904 e cuja interpretação mais conhecida é do bluesman “Mississippi” John Hurt.

A trama é simples. Na Era do Jazz, no Harlem, bairro negro de Nova York, o bar do Mike funciona em um porão. Ali se encontram Joe, um jogador; Vi, sua namorada possessiva; Tom, entertainer e cantor interessado na moça; o garçom Sam e outros personagens da noite. O cenário de Lília Chaves e Maria Sylvia Nunes é bastante funcional e destacam-se os quadros de artistas negros célebres, como Josephine Baker, entre os quais o caucasiano George Gershwin figura com merecimento. A iluminação de Rubens Almeida contribui para o clima de tensão que paira no ar desde o primeiro momento que adentramos o espaço, e uma boa ideia é o néon esverdeado que brilha e destaca os pés daqueles que descem as escadas para ingressar no café. Os figurinos e adereços de Hélio Alvarez são mais uma vez acertados, com sapatos bicolores e vestidos com miçangas, realçados pelo visagismo de André Ramos.

A direção cênica de Glaucivan Gurgel, com supervisão artística de Gilberto Chaves e Mauro Wrona, é precisa e traz a tensão para primeiro plano, apresentando personagens com conflito já à flor da pele. Em um prólogo, um tenor (Tiago Costa, bom), à moda de Tonio, de Pagliacci, anunciou que aquela seria uma tragédia “de cor” (fazendo referência à pele dos personagens). Joe foi representado com garbo e vivacidade pelo tenor Jean William, de timbre brilhante, cuja voz corre solta pelo teatro. Sua ciumenta namorada Vi foi defendida com garra e densidade por Marly Montoni, soprano de timbre quente e caudaloso, com excelente emissão e pronta para papéis de maior envergadura. Na ponta do triângulo, o mesquinho Tom foi interpretado por David Marcondes, barítono de registro rico e muitas possibilidades cênicas. Completavam o elenco principal os barítonos Idaías Souto Júnior (Mike) e Andrey Mira (Sam) – este, na premonitória ária Blue Monday Blues, trazia na voz o cheiro triste das plantações de algodão. Em cena ainda Daniel Gonçalves (Sweetpea, o pianista), Carlos Vera Cruz (Carteiro) e, executando os bons movimentos coreográficos de Ana Unger e Aline Dias, os bailarinos Dayane Dourado, Diego Santos, Lene Caldas, Gyovanna Franco, Iris Caldas, Myke Morais, Paulo Dias e Rodrigo Guimarães.

O concerto se encerrou com um gostinho de quero-mais: três árias da ópera Porgy & Bess, apresentadas pelo mesmo elenco: Pills I got plenty o’ nuttin’ (David Marcondes), Summertime (linda e delicadamente interpretada por Marly Montoni) e It ain’t necessarily so (Jean William, ainda dançando). Para fechar em grande estilo, a alegre canção Swanee, de 1919, praticamente um ícone da Broadway.

Resumo da ópera

Uma noite leve e inesquecível, com um repertório inteligentemente reunido em homenagem a um compositor norte-americano de origem russo-judaica que viajou para Paris e para Cuba, se encantou com os ritmos latinos e escreveu óperas sobre personagens negros para serem interpretados por cantores negros – como esses jovens e talentosos artistas que subiram ao palco de um teatro lindo no norte do Brasil, fora dos chamados “grandes centros produtores de cultura”. Nesse palco, profissionais dedicados e criativos fazem a arte acontecer com alegria e dignidade, sem empáfia ou fleuma, para uma plateia cheia de brancos, negros, índios e tantas outras raças que pagaram no máximo R$ 60 pelo ingresso para aplaudir de pé (como este crítico) esses artistas que, sejam brancos, negros, amarelos ou azuis, são capazes de deixar a gente com os olhos vermelhos de emoção.

Se eu fosse gestor de uma casa de espetáculos como umas aí, que, com tantos recursos à mão, levam à cena um número pífio de produções por ano ou, tendo capacidade de receber mais de 1.500 pessoas, cobram ingressos que custam em torno de R$ 300 e falam em democratização da arte, confesso que também ficaria vermelho – mas de vergonha.

Em primeiro plano, Jean William e Marly Montoni (foto de Sidney Oliveira)

 

Fabiano Gonçalves  viajou a Belém a convite da produção do Festival de Ópera do Theatro da Paz.

Foto principal do post: Sidney Oliveira

Leia também a crítica de Leonardo Marques sobre a ópera Mefistófele, de A. Boïto, apresentada no Festival em 9 de agosto. Em 20 de setembro, o Movimento.com estará novamente em Belém para a estreia de Otello, de G. Verdi.