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Bruno de Sá em “Polifemo”, de Giovanni Bononcini

Um monstrengo feio, um ciclope com um olho só, o anti-herói que ameaça o romance entre Aci e Galatea… No entanto, foi ele, Polifemo, quem mereceu o título da ópera do compositor italiano Giovanni Battista Bononcini (1670-1747) que estreou em 1702 na corte da rainha Sophia Charlotte, em Berlim, com libreto de Attilio Ariosti (1666-1729).

A escolha da trama, baseada nas Metamorfoses, de Ovídio – fonte cara aos compositores barrocos! – não foi exclusividade de Bononcini: entre o fim do século XVII e meados do XVIII, Lully, Porpora e Händel também abordaram o tema. Como em Lully, o libreto de Ariosti não se limita ao romance entre Aci e Galatea, mas trata também de outro casal: Glauco e Silla.

Após a estreia em 1702, só há registro de remontagens de Polifemo no século XX, dentre as quais uma versão em alemão dirigida por Max Schönherr em 1944, em Viena, com os recitativos substituídos por um narrador (a única gravada em disco), e outra mais próxima, de 1987, dirigida por Rene Jacobs em Berlim.

Desse modo, o álbum recentemente lançado pelo refinado selo Deutsche Harmonia Mundi constitui um importante resgate. O disco conta com a flautista Dorothee Oberlinger à frente do Ensamble 1700, grupo por ela fundado em 2003 e especialista em música dos séculos XVII e XVIII.

Para nós, brasileiros, porém, o interesse na gravação vai bem além do documento histórico: faz parte do elenco o talentoso sopranista Bruno de Sá, que dá vida a Aci. Sim, Bruno é “sopranista”, não um contratenor. Ao contrário do contratenor, que muitas vezes também consegue cantar no registro de barítono, sua voz (inclusive a falada) é naturalmente aguda, de soprano. É uma voz rara que, quando somada a talento e boa técnica, como no caso de Bruno de Sá, resulta em uma preciosidade. E essa preciosidade foi logo reconhecida na Europa, sobretudo nos círculos de música barroca, e bem aproveitada.

Natural de Santo André (SP), Bruno é conhecido do público que frequenta os teatros líricos paulistanos e foi premiado no 14º Concurso de Canto Maria Callas, realizado no Theatro São Pedro em 2016. Além desse Polifemo, registro de sua estreia nos palcos europeus ocorrida na Orangerie Potsdam Sanssouci em junho de 2019, Bruno também participou da produção da ópera Carlo Il Calvo, de Nicola Porpora, no Bayreuth Baroque Opera Festival 2020.

Bruno de Sá – foto de Marcos Hermes

A produção, que esbanjou a nata do canto barroco (Franco Fagioli, Max Emanuel Cencic e Julia Lezhneva), foi transmitida pelo Facebook e, procurando um pouco, ainda pode ser encontrada na internet. Para o ano que vem, aguardamos um super lançamento: o álbum solo de Bruno ao lado de ninguém menos que o grupo Il Pomo d’Oro, que tem acompanhado nomes como Joyce DiDonato e Philippe Jarousky.

Mas voltemos à nossa ópera! Com um único ato e 17 cenas, a ação de Polifemo se passa em uma ilha habitada pelos ciclopes – gigantes mitológicos com um olho só. Em linhas gerais, o pescador Glauco ama a ninfa Silla, que, por sua vez, ama sua liberdade, da qual não está disposta a abrir mão. Arrasado, Glauco pede socorro à feiticeira Circe. O problema é que Circe é, por sua vez, apaixonada por Glauco e fica possessa de ciúmes e com desejo de vingança.

Fingindo estar disposta a ajudá-lo, dá a Glauco uma poção mágica e garante que se ele a jogar na água onde Silla iria se banhar, a ninfa passará a amá-lo. Na verdade, a magia transformará Silla em um monstro. Enquanto isso, o outro casal, Aci e Galatea, se ama reciprocamente. O poderoso ciclope Polifemo, contudo, também ama Galatea, o que coloca em risco a vida de Aci. Os dois casais se cruzam justamente no momento de maior dificuldade para ambos: quando Silla é transformada em monstro, e Polifemo consegue capturar Aci.

A assimetria existente entre os dois casais é explorada de forma bastante inteligente por Bononcini. O primeiro casal a aparecer é Glauco e Silla. Como eles ainda não constituem verdadeiramente um casal, o melancólico Glauco (a ótima contralto Helena Rasker) canta sua ária acompanhada por um baixo com predominância de tons graves. De imediato Rasker nos convence da masculinidade de seu personagem apaixonado. Em seguida, a arisca Silla (a soprano Roberta Mameli) entoa a sua saltitante ária junto ao cravo: uma passagem bem mais aguda e com andamento bem mais rápido, mesmo quando o violoncelo dá o ar da graça.

Quando chega a vez de Aci e Galatea, ao contrário do não-casal anterior, eles são apresentados juntos no belo dueto È cara la pena. Um dos pontos altos do álbum, é entoado poeticamente por Roberta Invernizzi (Galatea) e Bruno de Sá (Aci). É de grande beleza a forma como se combinam e timbram, nesse fugato, as vozes de soprano e sopranista.

Capa do CD

Como já observamos acima, a feiticeira Circe (a soprano Liliya Gaysina) estava com sede de vingança. Seu primeiro solo é, pois, uma aria di vendetta. Já Polifemo, o personagem-título (muito bem interpretado pelo baixo português João Fernandes), entra com uma ária bastante agitada, saltitante, com marcante acompanhamento das cordas, típica de uma figura um pouco leviana perseguindo a sua amada que, segundo imagina, está com outro. Não há, porém, musicalmente, nenhum traço de raiva em sua ária.

É bastante interessante a sua segunda ária, na qual, após Galatea, para proteger Aci, ter tentando enganá-lo jurando que o amava e que se casaria com ele, o gigante começa a enumerar quantos servos ela haverá de ter (Dieci vacche, otto vitelli…). Trata-se de um dos mais antigos exemplares de aria di catalogo, grupo cujo membro mais famoso é a de Leporello em Don Giovanni, de Mozart.

A terceira e última personagem externa aos casais a aparecer é Vênus (a soprano Maria Ladurner). A deusa do amor aparece para salvar Silla e, em troca, ordena que a ninfa se entregue a Glauco, seu amante fiel. Silla aceita e, para celebrar o fato, Vênus canta a sua ária Stringelo pur al seno s’egli penò per te. De maior interesse que a ária de Vênus, contudo, é a prece com a qual ela foi invocada. Em Bella dea, che sorgi dall’onde, Aci roga à deusa que tenha piedade de Silla. Bruno de Sá a executa de forma tão sensível e com um canto tecnicamente tão rico e brilhante, que de fato a deusa não poderia ter deixado de ouvi-lo!

Também Aci e Galatea tiveram seu contratempo: Polifemo mata Aci! Mas não se assuste, caro leitor, Vênus estava por perto e logo declarou que a morte não tinha lugar por ali: Lieto fine em Charlottenburg!

Com um cantor brasileiro, é esperado que o álbum mereça uma matéria de uma desimportante ouvinte brasileira, certo? Pode ser, mas a este modesto texto se somam outros de veículos de grande prestígio, como o da revista francesa Diapason e o da britânica Gramophone, assinados, respectivamente, por Denis Morrier e David Vickers. Ambas as revistas receberam de forma bastante positiva esse raro registro, fazendo apenas a ressalva (Diapason) de se tratar de gravação ao vivo, o que resulta em uma qualidade de som um pouco inferior à das gravações em estúdio.

Ainda segundo a Diapason, “esse ‘Polifemo’ confirma o talento extraordinário de Bruno de Sá” e menciona seus agudos e a qualidade de seu timbre, “ao mesmo tempo límpido e encorpado, associando de forma ideal luz e profundidade, como na tocante ária ‘Partir vorrei’”.

Charlotte Saulneron, do site ResMusica, segue a mesma linha (leia aqui). A ária mencionada, cantada quando Galatea pede a Aci que fuja para se proteger de Polifemo, é, como a esmagadora maioria das árias da ópera, uma aria da capo. Além das qualidades já apontadas, merece destaque a ornamentação feita por Bruno ao retornar ao início da peça: bela demonstração de sustentação e legato.

Hoje em dia perdeu-se a prática de ouvir um disco. Uma pena, pois é a forma mais introspectiva de tomar contato com uma obra, já que a audição reina soberana. Paramos para assistir a um vídeo ou ouvimos música em áudio distraidamente, enquanto fazemos outras coisas. Aqui vai, pois, um convite para ouvir o disco em sua plataforma digital favorita. Se for o Spotify, clique aqui, mas se preferir na playlist do canal do YouTube de Dorothee Oberlinger, clique aqui. Para melhor aproveitar a experiência, o libreto está presente no encarte do CD, que pode ser consultado aqui.

 

Fabiana Crepaldi
Doutora em Física pela Unicamp. Frequentadora assídua de óperas e concertos, tem se dedicado ao estudo da história da ópera. Traduziu para o português o libreto da ópera “Tres Sombreros de Copa”, de Ricardo Llorca. Já fez cursos de canto e de curta duração sobre ópera.