Crítica

Brasileiro aplaude até minuto de silêncio

O público sempre me surpreende e se supera.

Não bastasse nas apresentações líricas celulares tocando, pessoas chegando atrasadas e conversando, aplausos fora de hora, alguns querendo cantarolar is propecia from budgetmedica real mais que os cantores e gente que faz questão de abrir a bolsa, pegar a balinha e incomodar todo mundo. Isso não é novidade para os frequentadores assíduos de concertos líricos.

No quesito falta de educação sempre temos novidades: em um evento da São Paulo Cia de Dança, realizado no último dia 10, falou o Secretário da Cultura do Estado de São Paulo, Marcelo Mattos Araújo. Fez um discurso rápido, elogiou tudo e todos e foi deveras aplaudido. Tudo correto e dentro do protocolo. Alguém resolve inovar, apresentam um longo vídeo com personalidades da dança e a galera aplaude com entusiasmo feroz. Qualquer dançarino ou coreografo que fala recebe aplausos efusivos. Não estou falando de pessoas presentes no palco, falo de um vídeo, conseguiram aplaudir imagens. Essa foi inédita.

A novidade no concerto da Orquestra Experimental de Repertório, do último dia 21, foi o atraso no início do espetáculo. Injustificável é a demora de 20 minutos, não choveu, não tivemos nenhuma calamidade pública, o metrô não parou, não aconteceu nada de diferente. O público, não suportando a espera, começa a bater palmas efusivas pedindo para começar logo. Pedido atendido de pronto. Se isso não ocorresse, teríamos que esperar mais alguns eternos minutos.

O programa era interessante, Festival Richard Wagner. A Experimental de Repertório regida pelo competente Jamil Maluf acertou a mão em Viagem de Siegfried ao Reno. A adaptação para orquestra, de Humperdinck, do primeiro ato da ópera O Crepúsculo dos Deuses mostrou tempos, volume e sonoridade correta.

Para interpretar o ciclo de canções Wesendonck Lieder trouxeram o soprano Eugenia Fuente. Lieder é música cansativa, dramática e a maioria dos alemães não aguenta ouvir. Eugenia Fuente mostrou bela voz, lírica e um timbre encantador. Cantou com belas harmonias e na medida certa .

A conhecida Cavalgada das Valquírias fechou a primeira parte do concerto. Mais uma vez a orquestra de jovens de São Paulo mostrou bela musicalidade. A empolgante música de Wagner fez com que o público delirasse. Francis Ford Coppola utiliza-a em um trecho do filme Apocalypse Now, quando helicópteros americanos atacam uma vila vietnamita. Puro dramatismo.

No trecho da ópera Tristão e Isolda: Prelúdio e Morte de Amor tivemos uma orquestração vacilante, alguns desencontros dos naipes atrapalharam e a sonoridade não empolgou. A Orquestra Experimental de Repertório se atrapalhou nas difíceis passagens da partitura com andamentos ora lentos e algumas vezes acelerados, fato esse que não combina com o dramatismo da obra.

Fechou o programa a abertura da ópera Tannhäuser. Jamil Maluf extraiu da orquestra bela sonoridade, uma interpretação com brilho e munida de belas harmonias. No bis, o maestro jogou para agradar, tocou novamente a Cavalgada das Valquírias levando o público a mais um delírio musical.

Formar público leva anos, educar público leva décadas. Vejo falta de educação em quase todos os recitais aque assisto. O celular é o campeão, sempre algum toca no meio da apresentação. Palmas fora de hora fica em segundo lugar, no Brasil aplaude-se até a mediocridade.

Ali Hassan Ayache