Artigo

Brasil, paA�s da esculhambaA�A?o

Principais casas de A?pera do paA�s, teatros de Rio e SA?o Paulo sofrem, respectivamente, com crise financeira e corrupA�A?o. TMRJ anunciou novas datas para A?pera de Gluck.

 

Enquanto comeA�ava a organizar as ideias para este artigo, no comeA�o de tarde deste domingo, um amigo me envia, atravA�s do WhatsApp, um vA�deo de um apresentador de TV norte-americano em que este zomba da capacidade do Brasil de organizar as OlimpA�adas 2016. Num primeiro momento, pode parecer exagero, mas quando pensamos em tudo o que poderA�amos ser como naA�A?o a�� e nA?o somos! a�� comeA�amos a compreender que as chacotas que os estrangeiros fazem conosco tA?m lA? a sua razA?o.

Vejamos: empreiteiras combinando preA�o de concorrA?ncias em rodA�zio para que todas se deem bem; larA?pios roubando a maior empresa do paA�s (Petrobras), e nA?o sA? ela, para distribuir propinas para corruptos de alguns dos principais partidos polA�ticos do paA�s; obras superfaturadas para tudo que A� lado, com destaque para as da Copa do Mundo de 2014 (e nA?o serA? surpresa alguma se daqui a pouco comeA�arem a surgir notA�cias semelhantes com relaA�A?o A�s obras olA�mpicas); desvio de verba de merenda escolar no estado de SA?o Paulo, com gente diretamente ligada ao governo sendo investigada; ciclovia claramente superfaturada caindo no Rio de Janeiro, deixando dois mortos; governador do Amazonas contando com o auxA�lio da prA?pria polA�cia para se reeleger, conforme reportagem recente do programa FantA?stico, da TV Globo etc. etc. E os exemplos que cito sA?o aqueles que saem na imprensa. Imaginem agora as falcatruas que nA?o tA?m tanta repercussA?o, ou sequer sA?o descobertas.

No Brasil inteiro, A� roubalheira atrA?s de roubalheira, e, o que A� pior, A� um ladrA?o querendo se dar melhor que o outro. Descendo das altas (baixas?) esferas, vA?-se, no dia a dia, um querendo engolir o outro no trA?nsito; no transporte pA?blico, muitos nA?o cedem o lugar para os mais necessitados; as brigas por vagas para estacionar podem chegar A�s vias de fato. Neste sA?bado mesmo, outra reportagem da TV Globo, no Jornal Nacional, mostrava uma mulher em perfeitas condiA�A�es de saA?de tentando conseguir um benefA�cio por invalidez no INSS, orientada por uma advogada!

SerA? que o Brasil tem soluA�A?o? Talvez, e se tem, tal soluA�A?o comeA�a, obrigatoriamente, pelos A?rgA?os (PolA�cia Federal, MinistA�rio PA?blico e JustiA�a) que estA?o investigando os nossos maiores ladrA�es, ou seja, os polA�ticos e a parcela do empresariado que nA?o mede “esforA�os” para alcanA�ar suas “metas”. Por outro lado, nA?o A� nada lisonjeiro para a JustiA�a, por exemplo, que ela tente cercear a liberdade de imprensa, como no recente caso ocorrido no ParanA?, em que jornalistas da Gazeta do Povo foram processados simultaneamente por vA?rios juA�zes, sendo obrigados a comparecer a vA?rias audiA?ncias ao mesmo tempo ou quase isso, em lugares bastante distantes um do outro, somente porque esses jornalistas divulgaram a quantidade considerA?vel de dinheiro que alguns magistrados recebem anualmente (legalmente, registre-se a�� o que A� uma informaA�A?o pA?blica), comparando tal quantia com a produtividade desses magistrados. Em boa hora, o Supremo Tribunal Federal suspendeu esses processos temporariamente, atA� melhor apreciaA�A?o do caso.

Diante de um quadro assim, de esculhambaA�A?o geral, e voltando a concentrar a atenA�A?o na razA?o de ser de Movimento.com, nA?o A� surpresa observar a situaA�A?o por que passam nossos teatros de A?pera, especialmente aqueles mais importantes: o Theatro Municipal de SA?o Paulo e o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O primeiro A� vA�tima de corrupA�A?o em suas prA?prias entranhas; enquanto este A?ltimo vem sendo afetado pelas finanA�as combalidas de um Estado semifalido, que chegou a este ponto em virtude da pA�ssima administraA�A?o de politiqueiros imprestA?veis e irresponsA?veis.

 

Municipal de SA?o Paulo

No Theatro Municipal de SA?o Paulo a “chapa” comeA�ou a esquentar em meados do segundo semestre de 2015, quando uma A?pera daquela temporada foi cancelada (CosA� fan tutte), e a programaA�A?o anunciada previamente para 2016, revista e reduzida. Em seguida, surgiram denA?ncias de desvio de dinheiro na mais importante casa de A?pera do paA�s. O entA?o diretor geral da FundaA�A?o Theatro Municipal de SA?o Paulo, JosA� Luiz HerA?ncia, foi formalmente acusado, sendo seus imA?veis e escritA?rios objetos de busca e apreensA?o.

Hoje, HerA?ncia A� rA�u confesso, ou seja, A� criminosoA�assumido, e fez acordo de delaA�A?o premiada. O entA?o diretor executivo da OrganizaA�A?o Social Instituto Brasileiro de GestA?o Cultural (IBGC), William Nacked, ao que tudo indica e segundo as A?ltimas revelaA�A�es, tambA�m estA? envolvido nas falcatruas. Resta a dA?vida: estaria o maestro John Neschling tambA�m envolvido?

HerA?ncia, em sua delaA�A?o, teria citado o maestro, que nega veementemente participaA�A?o nas falcatruas e se defende dizendo que foi ele que denunciou o esquema ao prefeito de SA?o Paulo, Fernando Haddad. Em relatA?rio divulgado em 29 de junho, a Controladoria-Geral do MunicA�pio de SA?o Paulo aponta que a roubalheira no Municipal paulistano gira em torno de R$ 15 milhA�es. Segundo o relatA?rio, as irregularidades referem-se aA�“contratos firmados entre o IBGC e fornecedores de serviA�os e materiais, no controle exercido pela OrganizaA�A?o Social em relaA�A?o a suas atividades, em pagamentos, em contratos de mA?tuo, em transferA?ncias, na regularidade de empresas contratadas, conflitos de interesses, na elaboraA�A?o de contratos do instituto, nas datas relativas aos pagamentos e A�s prestaA�A�es de seus respectivos serviA�os, na utilizaA�A?o de Pessoas JurA�dicas como Pessoas FA�sicas e em valores que foram utilizados indevidamente e nA?o foram recuperados”.

Neschling nA?o A� citado no relatA?rio, mas, segundo informaA�A�es da Revista Concerto, o relatA?rio “cita a empresa PMM ProduA�A�es ArtA�sticas e Culturais, empresa do maestro, que A� a contratada pelo IBGC para ‘prestaA�A?o de serviA�os das funA�A�es exercidas pelo Diretor ArtA�stico’, questionando a natureza do serviA�o como prA?pria de pessoa fA�sica e nA?o de pessoa jurA�dica. AlA�m disso, ressalta que jA? hA? o cargo de Diretoria ArtA�stica na FundaA�A?o”.A�Ainda segundo a Revista Concerto, o novo diretor geral da FundaA�A?o Theatro Municipal de SA?o Paulo, Paulo Dallari, afirma que a questA?o do contrato do maestro junto A� OS IBGC jA? foi regularizada.

Certamente, ainda haverA? outros capA�tulos e revelaA�A�es na trama desta roubalheira. De minha parte, aguardo o posicionamento das autoridades competentes sobre a participaA�A?o ou nA?o de outros personagens alA�m de HerA?ncia e Nacked. Por ora, jA? podemos chamar HerA?ncia de criminosoA�sem qualquer constrangimento. E, para encerrar, cabe perguntar: quantos espetA?culos mais o TMSP conseguiria apresentar se nA?o tivesse sido roubado por marginais?

 

Municipal do Rio de Janeiro

Se na principal casa de A?pera paulistana o cA?ncer estava nas entranhas, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro a doenA�a vem de fora para dentro, afetando a instituiA�A?o. Depois de amargar longos anos de administraA�A�es internas desastrosas (especialmente aquelas de Helena Severo e de Carla Camurati a�� verdadeiras nulidades cujo principal legado foi o atraso e a estagnaA�A?o da programaA�A?o artA�stica da casa), agora que o Theatro finalmente conta com uma administraA�A?o que tem se mostrado sA�ria e comprometida em desenvolver sua programaA�A?o, fatores externos vA?m prejudicando o desenvolvimento dos planos da direA�A?o.

Como A� de conhecimento geral, ao contrA?rio do que ocorre em SA?o Paulo, no Rio o Municipal A� “municipal” somente no nome, jA? que a fundaA�A?o que o administra encontra-se sob a tutela do governo estadual. Pois bem, o estado do Rio de Janeiro A� administrado hA? quase uma dA�cada pelo mesmo grupo polA�tico, e foi esse grupo que simplesmente dilapidou as finanA�as estaduais.

Nesse perA�odo, muito dinheiro foi torrado com obras para a Copa do Mundo (que estA?o sob suspeita de superfaturamento e pagamento de propinas, segundo delaA�A�es que jA? vazaram na imprensa), com publicidade e propaganda e outras coisas mais. Durante esses mesmos anos, absolutamente nada que realmente preste foi feito para resolver o problema da poluiA�A?o da BaA�a de Guanabara, e nem mesmo o principal projeto deste grupo polA�tico (as UPPs), aprovado pela grande maioria da populaA�A?o carioca, parece ter sido conduzido com a competA?ncia e a amplitude que uma iniciativa dessa envergadura exigia (o secretA?rio de seguranA�a, JosA� Mariano Beltrame, sempre disse que, ao trabalho da polA�cia, outras A?reas deveriam agregar serviA�os, especialmente de cunho social e inclusivo a�� e o prA?prio secretA?rio reconhece que nada disso foi feito).

Agora que as finanA�as estaduais estA?o em uma situaA�A?o estarrecedora, a ponto de o governo se ver incapaz de sequer pagar em dia seus funcionA?rios, o governo joga a culpa nos royalties do petrA?leo, que realmente caA�ram bastante, devido A� crise da roubalheira na Petrobras e A� queda do preA�o do barril do petrA?leo no mercado internacional, de mais de US$ 100 para um patamar prA?ximo dos US$ 30 (a commodity se recuperou nas A?ltimas semanas e estA? sendo negociada atualmente por cerca de US$ 50).

Ocorre, porA�m, que esta queda nA?o se deu da noite para o dia, mas, apesar disso, o governo do estado nA?o moveu uma palha para preparar suas finanA�as para o perA�odo ruim que se anunciava no horizonte. Nessas horas, a populaA�A?o tem todo o direito de perguntar: para que serve o secretA?rio de fazenda, JA?lio Bueno? A� sA? para enfeitar a cadeira? Bueno, por carreira, A� engenheiro da Petrobras (???), e, ao contrA?rio dos servidores que sofrem por nA?o receber seu A?nico salA?rio, recebe ele dois salA?rios, conforme informou o jornal O Globo hA? algumas semanas. Nada irregular, segundo a matA�ria do jornal, mas cabe perguntar: serA? que o custo/benefA�cio compensa a manutenA�A?o de um secretA?rio que tem se mostrado tA?o incompetente?

E ainda: para que serve o governador licenciado, Luiz Fernando PezA?o? TerA? ele se contaminado com o cA?ncer de seu prA?prio governo? Para que serve o governador em exercA�cio, Francisco Dornelles, um imbecil que diante das perguntas da imprensa sA? consegue mandar o motorista acelerar para delas fugir como o diabo da cruz? Para que servem todas as nulidades ligadas ao governo do estado? SA?o questA�es que ninguA�m responde. EntA?o respondo eu: nA?o servem para absolutamente nada!

Nos A?ltimos dias, uma nova operaA�A?o da PolA�cia Federal prendeu mais alguns ladrA�es, dentre os quais o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o engenheiro e empresA?rio Fernando Cavendish, este A?ltimo foi muito ligado ao ex-governador SA�rgio Cabral Filho, por sua vez acusado por delatores de recebimento de propina. Se estes A?ltimos presos resolverem abrir o bico em delaA�A�es premiadas, pouco sobrarA? do grupo polA�tico que domina o governo do estado. Que contem entA?o o que sabem, e Cabral e seus “correligionA?rios”, para nA?o dizer coisa pior, que vA?o responder judicialmente o que lhes cabe: A� o que procuraram, A� o que merecem.

Com o estado do Rio de Janeiro nestas condiA�A�es, com a saA?de, a educaA�A?o e a seguranA�a em colapso, nA?o A� de se espantar que o Theatro Municipal tambA�m seja prejudicado. Seus artistas e funcionA?rios estA?o com os salA?rios parcelados e atrasados, e alegam nA?o ter mais condiA�A�es nem de se locomover pela cidade, alguns carregando instrumentos musicais. NA?o hA? como discordar deles. Esse fato resultou no adiamento da estreia da A?pera Orfeu e EurA�dice, prevista para ser levada pela primeira vez neste domingo em que escrevo. Um post na fanpage oficial do Theatro Municipal no Facebook, na noite de sA?bado, porA�m, informa as novas datas da A?pera, que deve ser levada deA�7 aA�12 de julho.

Menos mal que um trabalho bem feito dentro da casa ainda consiga encontrar meios de nA?o ser prejudicado ainda mais pela mediocridade, pela incompetA?ncia e pela irresponsabilidade reinantes nas altas (baixas?) esperas do governo imprestA?vel do estado do Rio.

Eu deveria terminar este artigo pedindo a todos nA?s, eleitores, que votA?ssemos melhor nas prA?ximas eleiA�A�es, locais ou nacionais, mas nA?o consigo, porque, quando penso nas opA�A�es que provavelmente teremos para escolher, chego A� conclusA?o de que o poA�o A� muito mais fundo do que aparenta ser.

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com