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Bons cantores para a “Viúva”, de Lehár e… Offenbach

Hanna Glawari, uma jovem viúva natural de Pontevedro (um reino fictício), herda vinte bilhões com a morte do marido. Como esse montante equivale à metade dos recursos do seu pequeno país, o embaixador de Pontevedro em Paris, Barão Mirko Zeta, faz de tudo para que ela se case com um conterrâneo, de forma a evitar que tal montante seja levado para o exterior, fato este que “quebraria” financeiramente o país.

A ideia do Barão é unir um funcionário da embaixada, o conde Danilo, com a viúva Hanna, pois ambos já tiveram um relacionamento no passado. Essa relação não evoluiu para casamento por interveniência de um tio de Danilo, que não permitiu que o sobrinho se casasse com uma mulher interiorana e, então, pobre.

Basicamente, essa é a trama de Die lustige Witwe (A Viúva Alegre), opereta em três atos de Franz Lehár sobre libreto de Victor Léon e Leo Stein, com base na comédia L’attaché d’ambassade, de Henri Meilhac (um dos libretistas da Carmen, de Bizet), que encerrou no último fim de semana a temporada lírica deste ano do Theatro Municipal de São Paulo.

A produção, que teve concepção, direção, tradução e versão de Miguel Falabella, acertou no todo e derrapou em alguns detalhes. Como ponto alto de seu trabalho, Falabella procurou enfatizar as mulheres da trama, especialmente a viúva Hanna e Valencienne, a esposa do Barão Zeta, já que é em torno dessas duas mulheres que tudo acontece.

Se Hanna foi bem delineada como uma mulher empoderada, que poderia escolher dentre tantos pretendentes, mas somente se interessa por aquele que não está de olho em sua herança, Valencienne foi mostrada como a mulher casada que vive um conflito interno entre o que a sociedade espera dela (a fidelidade ao marido) e os seus verdadeiros desejos, personificados na figura do seu amante, Camille de Rosillon. Tudo, claro, temperado pela comédia que domina a obra.

Falabella, que extraiu boas atuações de todo o elenco, também cometeu alguns pecados, dos quais cito dois exemplos. O primeiro: a sua tradução tem alguns deslizes, inclusive entre o que é cantado/falado no palco e o que é projetado nas legendas e, puxando pela memória, me pareceu menos satisfatória que aquela de Millôr Fernandes utilizada na montagem de 2012 do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O segundo: foram totalmente gratuitas – e nem chegaram a surtir grande efeito – as cenas em que dois integrantes do coro de clara descendência oriental falam em japonês, enquanto os demais personagens fazem cara de paisagem, deixando transparecer que não entenderam patavina do que eles disseram. Uma bobagem desnecessária.

Os Cenários e os figurinos foram inspirados no movimento fovista, corrente artística que surgiu em Paris no início do século XX (mesmo período da estreia desta opereta de Lehár) que utilizava cores intensas. A ambientação assinada por Zezinho Santos e Turíbio Santos mostrou-se funcional, ao passo que os figurinos de Lígia Rocha e Marco Pacheco estavam um pouco irregulares. O vestido de Hanna no segundo ato, por exemplo, não foi digno de uma protagonista. E se a iluminação de Guillermo Herrero careceu de maior inspiração, a coreografia de Fernanda Chamma, por sua vez, cumpriu bem a sua função.

 

Offenbach no terceiro ato

Na penúltima récita, em 23 de novembro, o Coro Lírico Municipal, preparado por Mário Zaccaro, apresentou-se bem, assim como a Orquestra Sinfônica Municipal, conduzida por Alessandro Sangiorgi. No primeiro ato, houve alguns momentos em que o volume da orquestra estava muito alto, mas o regente corrigiu o problema depois do intervalo.

Aqui, é necessário um aparte. Curiosamente, durante o balé do terceiro ato, a música de Lehár foi substituída pelo célebre galope do segundo ato da opereta Orphée aux Enfers, de Jacques Offenbach (quase sempre chamada, popular e erroneamente, de “can-can”). Conversei com um dos integrantes da produção, que me afirmou que um dos motivos de se optar pela utilização no balé dessa famosa e popular passagem de Offenbach foi fazer uma pequena homenagem pelos 200 anos de nascimento do compositor.

Vá lá, pois não seria inédito ocorrer algo do tipo em uma opereta, mas era necessário registrar isso de alguma forma, pois o público desavisado (que é a maioria do público) deve ter saído do Municipal em todas as récitas achando que a referida passagem é de Lehár e sempre integrou a Viúva. Não encontrei qualquer referência no programa de sala, nem no material de divulgação da ópera distribuído pelo TMSP, sobre a utilização da composição de Offenbach no balé do terceiro ato. Fim do aparte.

As partes solistas de A Viúva Alegre, especialmente as partes menores, não são muito exigentes vocalmente. Assim, o rendimento geral do elenco foi bastante satisfatório. Andreia Souza (Olga), Márcio Marangon (Kromow), Edna d’Oliveira (Sylviane) e David Marcondes (Bogdanowitsch) estiveram bem. Caio Duran (Raoul de Saint-Brioche) e Johnny França (Visconde de Cascada) deram muito boa conta dos interesseiros pretendentes de Hanna. E o ator Adriano Tunes interpretou um divertido Njegus.

O barítono Sandro Christopher cumpriu muito bem a parte do Barão Zeta. A soprano Camila Titinger, ainda que não tenha atingido a melhor sonoridade em alguns agudos da viúva Hanna Glawari, interpretou uma expressiva Canção de Vilja. O tenor Anibal Mancini emprestou sua voz impecável a Camille de Rosillon. O barítono Rodrigo Esteves viveu Danilo com excelente presença e uma voz segura e bem projetada. E a soprano Lina Mendes dominou o palco com uma Valencienne de voz encantadora.

Foi encerrada assim a temporada lírica 2019 do Theatro Municipal de São Paulo. Voltando o olhar para o que foi o ano lírico da casa, pode-se dizer que faltou consistência artística ao TMSP. É verdade que o diretor artístico, Hugo Possolo, assumiu o posto com a temporada em andamento, mas mesmo assim, em muitos momentos, a impressão deixada é a de que os títulos líricos apresentados pela casa foram um tanto aleatórios, escolhidos meio que de qualquer jeito e sem muito critério.

A ver o que nos reserva o próximo ano naquele que poderia ser, mas não é, o principal teatro de ópera do país.

 

Nota do Autor: os nomes dos personagens foram citados segundo o libreto original.

Na foto do post (de Fabiana Stig), os solistas Anibal Mancini, Lina Mendes e Sandro Christopher.

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com