CríticaLateralÓpera

Billy Budd encerra bem mais um ano lírico pobre no Municipal do Rio

Enquanto Municipal monta três míseras produções de ópera por ano, Governo do Estado segue esbanjando com publicidade e propaganda.

 

Billy Budd, ópera em prólogo, dois atos e epílogo, de Benjamin Britten, sobre libreto de Edward Morgan Forster e Eric Crozier, com base na novela homônima do escritor americano Herman Melville, é a terceira e última ópera esparsa apresentada este ano no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e tem récitas até dia 25 deste mês.


A adaptação para a cena lírica

Estreada no Covent Garden em 1° de dezembro de 1951, a obra, originalmente em quatro atos, apresenta acontecimentos ocorridos no verão de 1797, a bordo do H.M.S. Indomitable, uma nau de 74 canhões da marinha britânica, comandada pelo Capitão Edward Fairfax Vere.  Em 1960, Britten revisou a partitura, reduzindo-a para dois atos e efetuando pequenos cortes e ajustes.  É esta última versão que está em cartaz no Rio.  O resumo da ópera pode ser consultado clicando aqui.

Há alguns pontos divergentes entre a trama de Melville e a adaptação feita pelos libretistas.  Uma alteração importante é a presença de um Capitão Vere idoso no prólogo e no epílogo da peça de Britten, enquanto no original Vere morre poucos dias depois do enforcamento do protagonista.  Outro ponto a destacar é que Melville prefere a narrativa aos diálogos e, obviamente, ao se levar esta história para o palco, e mais especificamente para a ópera, é preciso colocar palavras nas bocas dos personagens.

Curiosamente, é no momento que antecede a condenação de Billy Budd, ou seja, durante as deliberações da corte marcial sumária, que o escritor americano mais inclui diálogos em sua obra, especialmente longas ponderações por parte do Capitão Vere que não são aproveitadas pelos libretistas.  Por outro lado, as palavras da balada de Budd na terceira cena do segundo ato são praticamente as mesmas da canção que encerra a novela de Melville.

Tais liberdades, no entanto, não alteraram consideravelmente o sentido da obra original, que admite online prescriptions propecia mais de uma interpretação – ainda que, na ópera, uma possível condição homossexual de Claggart seja tratada de forma um pouco menos sutil que na novela, como podemos observar no monólogo do personagem na terceira cena do primeiro ato.  Claggart parece reprimir esta sua condição procurando destruir o objeto de sua atração.

A música de Britten serve brilhantemente o drama, marcando habilmente cada momento da obra, com orquestração rica e expressiva. Merecem destaque, dentre outras passagens, as cordas ao mesmo tempo insinuantes e angustiantes que abrem o prólogo (e também o epílogo); o magnífico interlúdio entre a segunda e a terceira cenas do primeiro ato; todo o monólogo de Claggart, já citado; e os dois grandes solos do protagonista na terceira cena do segundo ato (Look! Through the port comes the moon-shine astray! e And farewell to ye, old “Right’s o’Man“!)

 

A produção chilena e a segunda récita no Rio

A montagem assinada pelo diretor argentino Marcelo Lombardero para o Teatro Municipal de Santiago do Chile é de muito bom nível e apresenta um belo visual.  A qualidade da ambientação é garantida pelos ótimos cenários de Diego Siliano – também responsável por projeções que auxiliam muito bem na composição do ambiente marítimo.  Cenários e projeções proporcionam a sensação de se estar realmente diante de uma embarcação do final do século XVIII.

Os belíssimos figurinos de época de Luciana Gutman foram elaborados, claro, com base nas cores do Reino Unido, e, se predominam com propriedade o azul e o branco, ainda há espaço para o vermelho.  A luz sensível e inteligente de José Luiz Fiorruccio, que valoriza e intensifica cada cena, completa esta encenação digna do Municipal Chileno, que, ao contrário do nosso “pobre” Municipal carioca, apresenta uma temporada anual séria de seis óperas.  Como devem ser “ricos” os chilenos!…

É importante ressaltar, ainda quanto à encenação, que Lombardero demonstra um nível de sensibilidade que muitas vezes não observo no Brasil, ao abordar por um viés tradicional uma obra nunca ou raramente apresentada em palcos sul-americanos.  Outro diretor, em seu lugar, substituiria o navio por algum submarino ou coisa parecida.  Louve-se ainda o trabalho de Lombardero na direção dos cantores/atores, e em particular do coro de marujos.  São lindas tanto a cena de limpeza do convés, quanto a da batalha que acaba não ocorrendo.

Na récita de 19 de novembro, a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, sob a regência segura e cerebral de Isaac Karabtchevsky, teve um bom desempenho geral, ainda que os metais tenham desafinado aqui e ali, e algumas passagens claudicantes tenham sido notadas.  Um grande momento foi o interlúdio entre a segunda e a terceira cenas do primeiro ato, interpretado com bela sonoridade e grande expressividade.  Já o Coro do Theatro Municipal, preparado por Jésus Figueiredo, ofereceu uma performance correta, destacando-se as cenas supracitadas da limpeza do convés e da batalha.

Dentre os 19 solistas que se apresentaram, é natural a ocorrência de gradações de qualidade, ainda que alguns, por força do pouco destaque, apenas não tenham comprometido a performance vocal geral.  Neste grupo, encontram-se David Rasga (artilheiro), Cícero Pires (um marinheiro), Patrick Oliveira (Arthur Jones), Allan Souza e Emerson Lima (primeiro e segundo marinheiros), Marcelo Coutinho (contramestre) e Frederico de Assis (amigo do novato).  O Donald do barítono Ciro D’Araújo e o Mr. Ratcliffe do baixo-barítono Rafael Thomas, embora cantem um pouquinho mais, também pertencem a esse grupo.

Mesmo cantando pequenas partes, merecem ser destacados, pela qualidade de seu desempenho cênico e vocal, os tenores Geilson Santos (vigia), Ricardo Tuttmann (Red Whiskers) e Weber Duarte (Squeak).  Outro tenor, Ivan Jorgensen (novato), esteve muito bem, assim como o barítono Márcio Marangon, que compôs um convincente Dansker.

Dentre os solistas principais, o barítono Homero Velho esteve bem como Mr. Redburn, enquanto Daniel Soren foi um muito bom Mr. Flint.  Ambos estiveram seguros tanto vocal quanto cenicamente.

Já o mestre de armas John Claggart (também chamado no livro e na ópera de Jemmy Legs, alcunha pejorativa) do barítono argentino Hector Guedes foi, para mim, a decepção da noite.  Não que o “hermano” seja um mau cantor, mas, se seu desempenho cênico contido e frio foi trabalhado na medida exata para compor o vilão de baixa índole, faltou ao artista uma voz mais potente e mais profunda – talvez pelo fato de Britten ter escrito esta maravilhosa parte para um baixo vero e proprio.

O tenor canadense Roger Honeywell foi um ótimo Capitão Vere.  Apresentando uma voz segura e bem projetada, o artista dominou o prólogo e o epílogo, que são dedicados a seu personagem, com grande expressividade enquanto Vere idoso.  E brilhou também no palco (Vere mais jovem, quarentão), especialmente em seu monólogo que encerra a segunda cena do segundo ato, I accept your verdict, interpretado com grande sensibilidade.

Não ficou atrás o Billy Budd do barítono brasileiríssimo Leonardo Neiva.  O artista encarnou com propriedade o belo e inocente marujo, fiel ao Capitão de seu navio e incapaz de enxergar a índole malévola do mestre de armas.  Com grande segurança, Neiva enfrentou bem a difícil partitura de Britten e ofereceu um grande momento durante toda a terceira cena do segundo ato, tanto em seus dois solos, acima referidos, quanto no diálogo com Dansker.

É uma pena que, ao contrário do que ocorrera em Aida e A Valquíria, o Theatro Municipal não venha apresentando lotação esgotada para este Billy Budd.  Isso, porém, é natural.  O público de ópera, de modo geral, e especialmente os menos aficionados, são mais afeitos aos repertórios italiano, francês e alemão, do período que vai aproximadamente de Mozart até Puccini e, quando muito, Strauss – o que não quer dizer que não possa apreciar uma obra harmonicamente mais difícil, mas nem por isso menos bela, como esta maravilhosa peça do gênio inglês.

Para isso, no entanto, é preciso cultivar mais o hábito de frequentar o teatro lírico, pois, cultivando-o, é natural que, com o tempo, brote no ouvinte/espectador uma maior curiosidade sobre repertórios mais modernos.  Isso, no Rio de Janeiro, é tarefa inglória, diante das temporadas quantitativamente ridículas e vergonhosas apresentadas por um quase inoperante Theatro Municipal.  E já que tocamos no assunto…


Theatro Municipal do Rio: passado, presente e futuro

Acima, elogiei Isaac Karabtchevsky pela condução de Billy Budd.  O regente, no entanto, continua nos devendo, uma vez que é o responsável pela programação artística do Municipal: ele não sai da minha lista de devedores no quesito “quantidade de óperas”.  Será que um dia vai pagar?  A julgar pelos quatro títulos prometidos para o próximo ano (um número que ainda me permite considerar diminuta a temporada da casa), dos quais pelo menos um é praticamente certo de ser cancelado pela Camurati (é impressionante como sua tesoura nunca falha!), a dívida do maestro comigo e com o público carioca vai aumentar…

É lamentável que um teatro de ópera como o Municipal do Rio monte tão poucos títulos por ano, enquanto alguns de seus pares sul-americanos, como o Municipal de São Paulo, o Municipal de Santiago e o Colón de Buenos Aires, oferecem temporadas líricas bem mais robustas que as cariocas.  E o mais impressionante é como os administradores do Municipal não sentem vergonha disso.  Para eles, parece que está tudo bem, que estão fazendo um grande trabalho.  Não estão.

E, para fechar com chave de lata, a administração da casa ainda tem a ousadia de assinar sua mediocridade no site da instituição.  Lá, na aba “Municipal em Números”, diz assim: Você sabia que nos últimos 15 anos o Theatro Municipal do Rio de Janeiro tem montado com seus Corpos Estáveis uma média de 3 (três) óperas por ano?”

E a coisa é dita como se fosse uma maravilha!  Não é.  A administração Carla Camurati justifica a mediocridade de sua temporada lírica atual com a mediocridade das temporadas passadas, desta mesma administração ou de outras.  Enquanto essa administração olha para o passado para justificar suas mazelas, eu pergunto: e o futuro?  Não pensam no futuro?  Para eles o Municipal pode continuar montando três ou quatro operazinhas por ano, que está tudo certo?  É isso mesmo?

Enquanto isso, Sérgio Cabral segue aprontando das suas.  Seu governo meia-boca gastou, entre janeiro e novembro deste ano (os números de novembro não são definitivos), R$ 116,07 milhões com publicidade e propaganda.  Isto sim é importante, não é, dona Adriana Rattes?  O governo do qual a senhora faz parte gasta essa bolada para divulgar o que não faz, ou faz mal feito, enquanto o Municipal, um equipamento sob a sua responsabilidade, monta três operazinhas, com direito a cancelamento da “Double Bill” Suor Angelica/Erwartung, que chegou a ser publicada de passagem no Diário Oficial do Estado (eu tenho a prova salva aqui comigo), apesar de a administração da casa jurar de pé junto que não cancelou nada.  Cancelou sim, e eu provo que cancelou.

Encerro, em grande estilo, não com minhas palavras, mas com três pequenos trechos de uma matéria e duas entrevistas publicadas recentemente na Revista Concerto, todas assinadas pelo jornalista e compositor Leonardo Martinelli, que gentilmente autorizou sua reprodução.  Leiam e reflitam sobre a situação do Municipal e suas óperas:

Da matéria “Desafios da Ópera” (novembro/2013, que Martinelli assina a quatro mãos com a jornalista Camila Frésca): “De nossos dois maiores teatros líricos – os municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo –, apenas o palco paulistano oferece algo que podemos chamar de “temporada lírica” (e isso há apenas dois anos), pois é difícil classificar como tal uma agenda com apenas três títulos avulsos, como é o caso da atual programação do teatro carioca”.

Em entrevista com Leonardo Neiva (setembro/2013), o astro de Billy Budd diz o seguinte sobre a formação do cantor lírico no Brasil: “Há no país uma total falta de institucionalização de todo o ciclo: (…) e não há teatros de ópera que funcionem de forma séria e eficiente”.

Em entrevista com Ronaldo Miranda (novembro/2013), o compositor carioca que mora atualmente em São Paulo reflete sobre as diferenças entre a cena musical paulistana e a carioca: “(…) Claro, há coisas muito boas e interessantes acontecendo, mas é inegável que hoje a música clássica carioca conta com orçamentos muito magros, tanto na esfera municipal como na estadual.  Em São Paulo não há apenas mais verba, mas também sinto que as iniciativas são mais bem organizadas e planejadas, o que faz a cena local muito mais ativa”.

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com