CríticaLateral

Belas vozes na “Cavalleria Rusticana” e um “Pagliacci” contemporâneo”

Ambas estrearam no fim do século XIX e desde então tornou-se tradição em todo o mundo produzi-las em conjunto.

 

As óperas xifópagas Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, e I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, compõem a 5ª produção operística da temporada lírica de 2014 do Theatro Municipal de São Paulo, tendo a sua estreia no último sábado, dia 18 de outubro (elenco A) e no domingo, dia 19 o elenco B, apresentando belas vozes em seu elenco na primeira, e um espetáculo contemporâneo na segunda.

Ambas estrearam no fim do século XIX e desde então tornou-se tradição em todo o mundo produzi-las em conjunto. As duas são expressões do que se convencionou chamar “Verismo”, versão italiana do naturalismo francês do fim do século XIX, que na ópera se caracterizou por tentar levar ao palco temas do cotidiano.

“Cavalleria Rusticana” é transferida nesta montagem para o campo,  fora da cidade, em cenário luminoso de Juan Guillermo Nova e efeitos de luz otimamente combinados de Pascal Mérat, com direção de Pier Francesco Maestrini, onde este ressalta o modo de vida e a religiosidade enraizada em uma pequena comunidade conservadora siciliana. Vale destacar a bela procissão, como montagem e propriedade e o dueto Santuzza e Turiddu ,  pela alta tensão e dramaticidade relatada em “No, no Turiddu”, culminando com a maldição de uma má Páscoa ao infiel amante: este foi de arrepiar.

Tuija Knihtla, mezzo soprano finlandês, nas vestes de Santuzza, o cobiçado papel das vozes dramáticas, obteve interpretação irrepreensível. O seu racconto “Voi lo sapete, o mamma” apresentou bela emissão, ligaduras e portamentos em médios, graves e agudos potentes e sonoros, somados a competente personificação da angustiada e desprezada aldeã.

Giancarlo Monsalve, o chileno intérprete de Turiddu, possui bonito timbre de tenor lírico spinto, mas a sua atuação esteve muito irregular na aflição da récita de estreia. Acreditamos que, passada a ansiedade, ele possa render bem mais nas próximas funções que prosseguem até o dia 29. Luciana Bueno, que entre 1998 e 2002 apresentou-se como uma linda Carmen entre nós, desta vez como Lola, encontrou-se vocalmente muito irregular, todavia bem cenicamente. Buy Lídia Schaffer, contralto apenas discreta como Mamma Lucia e,  vocalmete repetiu a sua leitura de 2013.

A direção cênica do brasileiro Buy William Pereira lança uma versão não-convencional, na qual a contemporaneidade, nos anos 80 (1984), em uma periferia urbana, assumem época e espaço da narrativa. O verismo marcante das duas óperas, a preocupação de focalizar situações violentas com o máximo de realismo, deram corporização a duas obras de irrefreável vulgarização, visto que tocam as fibras íntimas do instinto mais primário do gênero humano. Essas situações apaixonantes, como é natural, proporcionam ao “regisseur” chance de dar largas à imaginação. O uso também da “metalinguística” (teatro dentro do teatro: o metateatro, neste Pagliacci, amplamente explorado por Pereira, transbordou em plasticidade, proporcionando vasta ligadura das cenas entre si. E a manipulação da luz (da caixa cênica e do circo, manipulada pelos atores que iluminam o picadeiro) de Caetano Vilela, o iluminador desta ópera e Guillermo Nova (cenógrafo) colaboraram eficazmente nesta produção acentuando todos os contrastes. Pela diversidade dos recursos cênicos utilizados está pois, de parabéns William Pereira

Pills order clarina bezzola Walter Fraccaro foi Canio emocionado, atingiu seu ponto mais alto na célebre “Vesti la giuba” numa interpretação repleta de veracidade e musicalidade. Some-se a um total domínio cênico do infeliz pagliaccio desde sua primeira entrada “Un grande spettacolo”

Inva Mula, a albanesa é soprano lírico leggero, seus papéis são: Susana, Adina, Gilda, Nannetta, Musetta, Micaela, Desdemona (???). Como Nedda demonstrou-se boa atriz, mas seu registro muito leve e ágil, não tem a adequação para o qual se requer um soprano lírico com inflexões mais dramáticas…

Alberto Gazale substituiu à última hora Angelo Veccia nos dois papéis. O Alfio saiu-se a contento e no Tonio deixou muito a desejar, devido ao seu leve registro, inadequado a este papel. No prólogo, faltou voz, melhores graves e pujança interpretativa. A voz do barítono Davide Luciano Buy cheap sumycin side online sex tablets for men in boots deu enlevo à interpretação de um Silvio apaixonado e o Beppe, de Daniele Zenfardino, projetou uma serenata insossa a sua Colombina, papel este, que não se entende e não requer a importação de um tenor.

Na récita de domingo (19 de outubro) Elena Lo Forte realizou uma Santuzza de grande categoria interpretativa, linha de canto, fraseado elegante, projeção vocal e dicção perfeitas. Marcello Vannucci correspondeu corretamente no Turiddu. Luca Grassi foi um Alfio de voz bem projetada e de cena satisfatória e sua parceira Mere Oliveira, uma Lola sedutora e de canto certeiro. Mas o prólogo de Grassi (Tonio) ficou aquém daquelas vozes que o Municipal acostumou-se a ver e ouvir: Paulo Ansaldi, Tito Gobbi, Walter Monachesi, Benito di Bella etc.

O Canio de Richard Bauer obteve a voz potente de tenor spinto emprestando a sua garra com o verismo e, com sua parceira, o soprano Marina Considera, no registro de lírico spinto, muito apropriada e correta como Nedda, cantou o belo dueto “Silvio! a quest’ ora…”com Davide Luciano, onde ofereceram o melhor de si. Richard Bauer foi cobrado a bisar seu monólogo principal, mas não pode atender,  devido ao seu enorme desgaste emocional.

Figurinos de Carla Galleri na Cavalleria Rusticana e Gianluca Falaschi, em I Pagliacci, bonitos e adequados; o Coro Lírico Municipal bem preparado por Bruno Greco Facio em ambas as óperas. Lindo o Coro “Din Don, …Din Don”  Dirigiu o espetáculo o maestro Ira Levin numa direção categórica, minuciosa,  precisa nas marcações, obtendo da Orquestra Sinfônica Municipal rendimento superior.

 

Escrito por Marco Antônio Seta, em 20 de Outubro de 2014.

Inscrito Jornalista sob nº 61.909 MTB / SP

 

 

 

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5 Comments

  1. Prezado Marco Antônio, li com atenção sua apreciação e me deu muito prazer. Assisti ao espetáculo no dia 21, terça-feira, e informo que o tenor Monsalve esteve mal e, francamente, não acredito que melhore. Sua coluna vocal é desequilibrada e não há muito que fazer. Não seria tão severo com o barítono Gazale, pois na noite em que o escutei, agradou. Caro Marco, dizer que o Municipal está acostumado de ver e ouvir Tito Gobbi é um exagero. Acho que passaram mais de sessenta anos desde sua última atuação no TMSP. O coro perfilado na boca do palco cantando ding-dong achei uma má ideia: não atende às intenções do compositor e prejudica a execução, a sonoridade fica tempo todo forte e monótona.
    Gyorgy Miklos Bohm

  2. Marco Antônio, assisti às óperas dia 23. Obrigada por nos ensinar a entender melhor as óperas e pela crítica tão bem escrita e justificada. Parabéns.

  3. MARCO SETA faz, como sempre, uma análise impecável da peça, conseguindo através da mesma reproduzir o encantamento causado por ela.
    Sua crítica é clara, objetiva e completa.
    Ele consegue analisar todos os aspectos sem perder a visão do todo, do conjunto da obra, que é o mais importante.
    É de críticos deste gabarito que a classe artística necessita sempre para se aprimorar e se manter motivada.

  4. Fui ver as óperas no domingo dia 26. A crítica é verídica e muito competente. O tenor Walter Fraccaro fez as duas óperas, cantando também a Cavalleria Rusticana. Foi bem nas duas.

  5. As óperas foram ótimas e a crítica acima é extremamente correta e dá gosto ler.
    Parabéns Marco Antônio e continue escrevendo para nós.

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Marco Antônio Seta
Diplomado em Educação Musical, Artes Visuais e Educação Artística. Publicou artigos e críticas de óperas em vários veículos de SP ao longo de três décadas.