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Balanço da temporada 2011

O ano do Municipal do Rio e as óperas pelo Brasil. Veja também algumas perspectivas para 2012.

O ano que se encerra foi um dos mais interessantes dos últimos tempos em termos de produções de ópera no Brasil.  Sim, eu sei, houve encenações dispensáveis, como sempre, mas, no cômputo geral, a temporada foi bem mais positiva que negativa.  Dois importantes fatores contribuíram para isso: o cumprimento total da temporada do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e a volta à ativa do Municipal de São Paulo.  Comecemos pela “base operacional” do autor dessas linhas.

 

Municipal do Rio

O principal destaque positivo de 2011 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi o cumprimento completo da programação divulgada pela casa no início do ano.  Há uma década, o principal teatro carioca sofria com famigerados cancelamentos que encurtavam sua já escassa programação própria.

Em 2008 e 2010, por exemplo, exatamente por causa desses cancelamentos, não tivemos mais que duas óperas encenadas (em 2009, quando o nobre edifício da Cinelândia esteve fechado para obras de restauração, também duas óperas foram apresentadas em forma de concerto) – e três temporadas seguidas com apenas duas óperas cada, convenhamos, é um absurdo, para não dizer uma vergonha.  2011, porém, trouxe-nos esta grata surpresa do cumprimento da temporada: o que, só para começo de conversa, dobrou o número de óperas encenadas, e pudemos assistir a Lucia di Lammermoor, Nabucco, Tosca e O Castelo do Barba-Azul.

A primeira coisa que ópera lembra é voz, e outro destaque positivo da programação carioca foi a contratação certeira de boas vozes internacionais: Sondra Radvanovsky (Tosca), Juan Pons (Scarpia) e Paula Almerares (Lucia) foram excelentes escolhas que, ao lado da boa prata da casa (em especial Denise de Freitas, Eliane Coelho, Lício Bruno, Rodrigo Esteves e Sávio Sperandio), ajudaram a abrilhantar a temporada.

A qualidade das encenações oscilou, mas o ano reservou bons momentos.  Nabucco e Barba-Azul (este último uma produção original do Palácio das Artes) foram obras muito bem encenadas, enquanto Tosca recebeu tratamento regular e Lucia di Lammermoor deixou muito a desejar.

Ainda sobre as óperas, é bom frisar que, apesar da boa notícia da não incidência de cancelamentos, apresentar quatro títulos num ano é um número aquém do que um teatro como o Municipal pode fazer.  Para a realidade do Rio de Janeiro atual, uma cidade que tenta se reencontrar e que abrigará no futuro próximo importantes competições como a Copa do Mundo de Futebol e as Olimpíadas, um mínimo de seis títulos anuais seria aceitável.  E para completar esses títulos, remontagens e parcerias com outros teatros são fundamentais.

Quanto aos corpos artísticos do Municipal, o Coro continua sendo aquele que o Theatro parece saber aproveitar menos: apesar de sua boa qualidade, é o que menos se apresenta durante o ano.  Escrevo de memória e, salvo engano, o Coro participou de três óperas (sendo uma delas a Tosca, em que quase não canta) e três concertos da temporada oficial.  A participação em O Quebra-Nozes é tão pequena que nem dá para contar.  Ou seja, é muito pouco.  É ou não é?

Não sou entendido em balé, mas, como parte do público, a companhia da casa me agradou em especial em Giselle e em Romeu e Julieta, e estar diante de Ana Botafogo é sempre uma experiência marcante, como foi em O Quebra-Nozes (apesar da repetição constante deste título, que melhor se justificaria se o Ballet do Theatro também tivesse algo em torno de seis produções por ano).

O grande destaque entre os corpos artísticos foi a Sinfônica da casa, em primeiro lugar porque é quem mais dá a cara para bater em público, o que já é um grande feito.  Somem-se a isso excelentes performances em Nabucco e Giselle (sempre sob a regência de Silvio Viegas), no Barba-Azul (Aylton Escobar) e em Romeu e Julieta (Javier Logioia Orbe), além de boas atuações em Lucia di Lammermoor (Viegas) e nos concertos da Série Música e Imagem, concluímos que a OSTM teve um ótimo ano, apesar de ter derrapado acentuadamente em Tosca e na Grande Missa em dó menor, de Mozart.

A Série Música e Imagem, a propósito, merece menção especial pela sua capacidade de levar um público jovem ao Municipal, além de oferecer espetáculos de qualidade.  Neste ano, pudemos assistir a Metropolis, de Fritz Lang (com música de Gottfried Huppertz, sob a regência de Silvio Viegas), e Luzes da Cidade, de Charlie Chaplin (com trilha original do próprio Chaplin, conduzida por Marcelo Ramos), duas belas joias cinematográficas.  Esta série merece continuar fazendo parte das temporadas cariocas.

Para 2012, a programação ainda não foi divulgada, no entanto nada indica que o Municipal fará mais do que quatro óperas e quatro balés novamente.  Com relação às óperas, a direção precisa buscar uma maior diversificação do repertório (não se monta Wagner ou Strauss no Rio, só para ficar nesses dois mestres do gênero) e ousar mesmo na escolha dos títulos.  Será que algum dia teremos por aqui uma ópera russa?  Se não um Boris Godunov, meu sonho de consumo (que é difícil, eu sei), pelo menos um Tchaikovsky, por que não?  Um Yevgeny Onegin cairia bem no gosto geral do público carioca.

Além da atenção ao repertório, a direção do Municipal deve ser cautelosa ao encomendar suas encenações a quaisquer diretores.  Por quê?  Porque ópera sem voz não funciona, e nas atuais condições acústicas do palco do Municipal, deixá-lo aberto, com cenários vazados, é pedir para os cantores terem sérias dificuldades para serem ouvidos.  Os solistas citados acima deram conta do recado, mas no Barba-Azul foi bastante perceptível que os dois solistas sofreram para se fazerem ouvir.  Como esta última foi uma produção que já chegou pronta ao Rio, não lhe cabem maiores críticas por isso, mas as produções criadas no próprio Municipal precisam ser cuidadas acusticamente, ou corremos o risco de ter um novo Il Trovatore, em que as condições acústicas foram sofríveis.

Não posso encerrar sem lembrar que 2013 será um ano especial pelo bicentenário de nascimento de Verdi e Wagner.  É bom que o Municipal prepare homenagens dignas para esta ocasião tão nobre e rara, e, por conseguinte, é absolutamente imprescindível que 2013 já esteja na pauta de reuniões de seus administradores.

 

OSB, Petrobras Sinfônica e Dell’Arte

Ainda no Rio, a Orquestra Petrobras Sinfônica e a Orquestra Sinfônica Brasileira também apresentaram óperas em forma de concerto: esta ofereceu Mozart e Salieri, de Rimsky-Korsakov, e aquela, O Amor das Três Laranjas, de Prokofiev – duas óperas russas!  Exatamente aquelas que o Municipal se recusa a apresentar.  O caminho para as óperas em forma de concerto no Rio é exatamente este, ou seja, apostar em títulos raros, que dificilmente fariam parte das temporadas próprias do Municipal.

Para 2012, a Petrobras Sinfônica saiu na frente e já divulgou sua temporada: a orquestra encomendou uma ópera a João Guilherme Ripper (Piedade, baseada na vida de Euclides da Cunha).  Já a OSB pós-crise pode também ter uma temporada própria de óperas em concerto com a “OSB Ópera e Repertório”, o conjunto que surgiu depois do acordo que selou a paz na orquestra.  Estima-se para fevereiro a divulgação de sua temporada.

Fora do campo da ópera, seria lamentável não lembrar duas ocasiões marcantes do ano que termina: o Ciclo Beethoven da OSB, regido por um Lorin Maazel em estado de graça, e a passagem pelo Rio do furação Gustavo Dudamel e sua Orquestra Sinfónica Simón Bolívar de Venezuela (Dell’Arte).  A produtora, a propósito, já divulgou sua temporada 2012 e o principal destaque, sem dúvida, será o recital da soprano Renée Fleming, em novembro.

 

São Paulo

Depois de longo período fechado para obras de restauração, o Theatro Municipal de São Paulo finalmente voltou à ativa com cinco produções líricas, das quais conferi três.  Não vi A Menina das Nuvens, nem O Morcego.

Na pauliceia, Rigoletto foi a decepção do ano, tanto pela encenação discutível de Felipe Hirsch, quanto pela contratação de um elenco estrangeiro limitado.  Em seguida, uma radiosa montagem de L’Enfant et les Sortilèges, assinada por Lívia Sabag, é forte candidata à encenação do ano, em páreo duro com A Valquíria, que recebeu versão ousada e de bom nível do diretor André Heller-Lopes.

Não por acaso, a meiossoprano Denise de Freitas se destacou nestes dois títulos, demonstrando seu talento e sua versatilidade.  Vale mencionar o ótimo elenco da ópera de Wagner e também o equilíbrio da escolha dos títulos para a programação de óperas da casa, diversificada e atraente.  Destaque ainda para as performances dos maestros Luiz Fernando Malheiro, à frente da Sinfônica Municipal em A Valquíria, e Jamil Maluf, que conduziu sua Experimental de Repertório em L’Enfant.

Não acompanhei a temporada do Theatro São Pedro, mas comentários de amigos paulistanos dão conta de que Don Pasquale foi o grande destaque do ano naquele palco.

Já para 2012, ainda não há divulgação oficial, mas o jornalista João Luiz Sampaio, do Estadão, antecipou o esboço de uma possível temporada do Municipal paulistano, que incluiria remontagens de Rigoletto e L’Enfant et les Sortilèges, e ainda traria Otello, La Traviata, Boulevard Solitude (de Henze), Pelléas et Melisande (produção de BH), Così Fan Tutte, Magdalena (de Villa-Lobos) e O Crepúsculo dos Deuses (esta última dando enfim uma dica de que o Municipal de São Paulo parece mesmo disposto a investir no ciclo completo do Anel do Nibelungo).  Dessas nove óperas, Otello é aquela que tem menos chances de subir ao palco – o que é uma pena!  Mesmo assim, esta seria uma temporada bem interessante e com razoável quantidade de títulos.  Aguardemos a confirmação.

 

Manaus, Belém, Belo Horizonte

O XV Festival Amazonas de Ópera reservou pelo menos dois importantes momentos da ópera em 2011: O Diálogo das Carmelitas e Tristão e Isolda.  À obra de Wagner, dirigida por Heller-Lopes, assisti em Manaus, com bons cantores capitaneados por Eliane Coelho; já a ópera de Poulenc está disponível no Youtube.  Esta, pelo que pude ver na gravação, foi muito bem dirigida por Willian Pereira, e bem que merecia ser apreciada em outros teatros, até pela raridade do título.

A propósito, é necessário registrar que nenhum teatro brasileiro escolhe títulos tão bem quanto o Teatro Amazonas.  Uma rápida análise das óperas apresentadas nos últimos anos deixa isso bem claro: Diálogo das Carmelitas, Yerma (Villa-Lobos), Os Troianos (Berlioz), O Navio Fantasma, Lady MacBeth do Distrito de Mtzensk (Shostakovich), Otello (tanto o de Verdi, quanto o de Rossini), La Gioconda, Fosca (Carlos Gomes) – e isso para não falar do ciclo do Anel do Nibelungo, concluído em 2005, quando foi apresentado completo.  Para 2012, já está todo mundo falando da imperdível prednizone sales Lulu, de Alban Berg.

Sobre tudo isso, claro, paira a mão de mestre de Luiz Fernando Malheiro.  Ainda que a quantidade de óperas apresentadas pelo FAO nos últimos anos tenha caído, quando o assunto é programação, Malheiro ganha de goleada.  O segundo colocado, seja ele quem for, passa a uma distância considerável.

Em Belém, o X Festival de Ópera do Theatro da Paz parece ter recolocado o importante evento paraense nos trilhos, depois da reforma da sua casa (o da Paz estava infestado de cupins).  Lá tivemos uma boa Tosca e uma elogiada versão encenada da cantata Carmina Burana.  Para o próximo ano, ouvi falar em O Navio Fantasma.  A conferir.

Por fim, a única das cinco principais cidades brasileiras produtoras de ópera em que não estive este ano, Belo Horizonte apresentou no Palácio das Artes o mesmo Nabucco do Municipal do Rio (a produção foi uma importante parceria entre os dois teatros), e uma La Bohème bastante criticada cenicamente, cujo principal destaque, segundo amigos que lá estiveram, foi a soprano venezuelana Mariana Ortiz.

 

No geral, creio que 2011 foi um ano bom para a ópera no Brasil, considerando a produção no país, e não apenas em uma só cidade.  Há muito tempo não se montava tanta ópera em solo nacional (recentemente, os principais teatros de Rio e São Paulo estiveram fechados para obras de restauração).  Torçamos, portanto, para que 2012 seja um ano ainda melhor, com ótimos títulos, elencos de nível e encenações decentes, como algumas supracitadas.  Por outro lado, aqueles diretores de cena que “acham que sabem” dirigir ópera bem que poderiam ter um ano sabático…}